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saber e a ilusão de poder arrastam-no com facilidade para a solércia,
para a arrogância, para a insolência (a hubris dos gregos).
3.5. Racionalidades morfológicas
O problema do corpo, na perspectiva parcial e limitada da medici-
na ocidental, é, como vemos, antigo, obscuro, equívoco, muito vasto e
nada simples. Não é claro qual a boa abordagem filosófica (consinta-
se a ambição) deste tema; as perspectivas da morfologia, da biomedi-
cina (anatómica, fisiológica, patológica...), da engenharia genética
(genómica, proteómica), da fenomenologia, da antropologia, da “vida
artificial” (electrónica, biónica, robótica), são apenas algumas entre
muitas outras.
Nas suas originais investigações em torno da historiografia do
corpo humano, Kuriyama adopta uma direcção metodológica nova
muito interessante: “[...] enquanto que o desenvolvimento da anato-
mia contribuiu para formar uma consciência de muscularidade, seria
incorrecto atribuir a segunda à primeira. Em lugar de subsumir a
história do corpo musculado sob a história da dissecção, eu [diz
Kuriyama] tentarei, pelo contrário, mostrar como um estudo do
corpo muscular altera a nossa perspectiva acerca da imaginação
anatómica – como ela nos impele a alargar o nosso campo das
formações anatómicas e convida a olhar de novo também as ligações
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entre o corpo e o self [...]” .
Na imagem grega do corpo revelar-se-á a fobia do estado pletórico;
na saliência dos vasos (phlebes, daqui a flebologia, ciência das veias e da
função venosa) está a marca dos humores – não esquecer que o sangue,
então, movia-se mas não circulava. Representa a topologia da dor e do
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seu alívio – daí os pontos e os regimes rituais das sangrias ou
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flebotomias .
Em termos da maneira de estar no mundo, muito sucintamente, o
interesse grego pela massa muscular, pela força bruta (bruta porque
virada para a luta e a guerra) e pelo exercício físico (nos jogos, na
afirmação clânica) – vai a par com uma peculiar configuração da
personalidade como sede da vontade própria (principalmente em
Atenas). Surpreendentemente, o substantivo “músculo”, como tal, não
aparece em Homero, nem em Platão (no Timeu, o texto onde expõe
uma teoria da saúde e da medicina) e está praticamente ausente dos
textos dos escritores hipocráticos.
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. Kuriyama, p. 133.
66 . Kuriyama, p. 203ff; a plétora era responsável ou era associada virtualmente a todas as doenças (p.
297). Os estudos de Kuriyama, em suma, mostram que o conceito e as imagens do corpo humano para
os médicos gregos se subordinam à repugnância cultural pela fraqueza e pela obesidade, a fobia do
estado pletórico e o culto da boa-forma física, da competição e do antagonismo. Esse conceito
condicionou, consequentemente, os ritos terapêuticos e os pontos anatómicos associados, até ao
século passado, às sangrias ou flebotomias.
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. Era tal o bem-estar que causavam (?!) que Locke, no segundo lustro do século XVII, escrevia de Paris
a Sydenham, seu amigo e médico, queixando-se da falta dessa purga do dia sétimo.
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