Page 18 Técnicas de intervenção no tratamento da dor (Parte IV)
P. 18



As técnicas invasivas no tratamento

de dor aguda não-cirúrgica


M. PeDro, r. CostA e b. GoMes





Técnicas invasivas no tratamento de dor aguda torácica

Dor aguda torácica de origem não-vertebral
Na abordagem terapêutica da dor torácica, torna-se mandatório identificar as situações agudas que comportam um
prognóstico vital – por exemplo, enfarte agudo do miocárdio, derrame pericárdico, dissecção da aorta, pneumotórax
expansivo, etc.; nestes casos, a dor é um sinal de alarme útil para a suspeita e confirmação do diagnóstico; deve
ser eficazmente controlada, mas sem dilação do diagnóstico etiológico rigoroso e da terapêutica urgente específica.
A suspeição e diagnóstico diferencial da dor visceral é frequentemente orientado mais pelo padrão de irradiação
da dor (frequentemente irradiação torácica) do que pela «verdadeira» dor visceral. Num estudo de 64 doentes com dor
visceral, só se verificaram 15% de diagnósticos correctos quando baseados apenas nas queixas álgicas . 1
No entanto, a irradiação pode ser também factor de confusão pelo aparecimento de sobreposições de conver-
gências de diferentes vísceras com as mesmas aferências somáticas, exigindo uma experiência clínica longa, traba-
lho de equipe e um elevado nível de suspeição – por exemplo miocárdio, esófago e intestino têm convergências
somáticas comuns, assim como o estômago e o apêndice ou estômago e o pâncreas – e todas podem apresentar
padrões de dor torácica irradiada, dificultando o diagnóstico diferencial: entre elas e também com outras patologias
de própria caixa torácica.
A abordagem precoce e eficaz da dor torácica aguda constitui não só um repto diagnóstico e terapêutico por vezes
difícil, como se torna também decisivo para a prevenção da dor torácica crónica – situação gravemente incapacitante
pelo impacto por vezes devastador sobre a capacidade ventilatória, a qualidade de vida e repouso nocturno, sobre a
emotividade e psiquismo.
O início súbito de uma toracalgia pode ser a primeira manifestação de uma doenças crónica subjacente: síndromes
pós-cirúrgicas (por exemplo, mastectomia, toracotomia, esternotomia), síndromes pós-trauma, doença oncológica pri-
mária ou metastização, etiologia infecciosa (pneumonia, nevralgia pós-herpética), doenças da estrutura osteoligamen-
tosa da caixa torácica (síndromes condrovertebrais e condroesternais, alterações estruturais da coluna vertebral), do-
enças reumatológicas e miofasciais.
Para além da terapêutica analgésica convencional (fármacos não-opióides, opióides e coadjuvantes), podem ser
utilizadas no tratamento de toracalgias inúmeras técnicas invasivas analgésicas/anestésicas locais, locorregionais e re-
gionais; o arsenal farmacológico inclui anestésicos locais, corticóides, opióides, toxina botulínica. Enunciamos algumas
delas, tendo em conta que as técnicas invasivas devem ser utilizadas não como alternativa mas em combinação com as
terapêuticas convencionais farmacológicas.
Infiltração local de pontos-gatilho e de estruturas miofasciais

Frequentemente podem ser detectadas estruturas miofasciais extremente sensíveis à palpação – podem ser causa de
toracalgia intensa ou estarem associadas a reacção de defesa da dor crónica, com contractura muscular mantida. São
por vezes pontos-gatilho, com dor local sempre reprodutível quando pressionados e que causam dor irradiada a partir
deles – os músculos supra e infra-espinhos, o trapézio, os rombóides e o grande redondo apresentam inúmeras vezes
pontos-gatilho; a sua infiltração com anestésico local e corticóide ou com toxina botulínica resultam num imenso alívio
imediato, que perdura durante semanas e por vezes meses.


15
   13   14   15   16   17   18   19   20   21   22   23