Page 5 Volume 17 - N.3 - 2009
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Editorial
Sílvia Vaz Serra
ensamentos, escritos nas décadas de etc. ... mas subentende-se dos 100 à hora num
1930-1940, que realçam a importância da corpo cujo cérebro trabalha –intelectualmente–
Pciência e publicação como forma de uma com segurança, harmonia, fecundidade e cal-
sociedade evoluir e que, ainda hoje, mantêm ma, isto é, a 20 à hora!»
toda a pertinência e actualidade. «… Em resumo: a substituição de um texto por
«… A ciência é criação perseverante, um fieri, outro texto, de um autor por outro autor nada
um faciendum, nunca um factum; é sempre cria- significa se o espírito ou a estrutura mental de
cionismo, nunca estado ou repouso. A ciência quem a fez não variou; se não evoluiu do auto-
só pode rotular-se de ciência na medida exacta ritário para o crítico, do livresco para o ensaístico,
em que opera, incessantemente, ensaios!... isto é, se não se auto-libertou; caso contrário,
Quem faz ensaios, embarca numa aventura em plus ça ne change, plus ça c’est la même
pleno mar alto; depois de muita tormenta sobre chose.»
as ondas, lança ferro aqui, mas para logo desa- «… A publicação de um artigo científico é uma
parelhar no dia imediato e seguir novo rumo. Até forma de transmitir à comunidade técnico-cien-
quando e até onde? Até… sempre, ou até… tífica o conhecimento de novas descobertas, o
nunca; até ao infinito!» desenvolvimento de novos materiais, técnicas e
«… A actividade científica tanto se pode exer- métodos de análise nas diversas áreas da ciên-
citar na investigação e colheita de factos novos, cia. Um texto contém em si muitos outros textos.
como na sistematização, clarificação e simplifi- Aquele que lê, não lê apenas, passivamente as
cação do já sabido… a verdade da segunda palavras. Ao efectuar a sua leitura produz, no
parte deste passo está dependente da qualida- exercício de interpretação, um outro texto que lhe
de ou do valor científico do já sabido. Porque, é próprio. O leitor é, neste sentido, co-autor de
se esse já sabido for o sabido errado, o sabido uma obra que se perpetua, justamente pela pos-
livresco, erudito, o sabido alheio ao experimenta- sibilidade de ser relida e portanto reescrita.»
lismo crítico, como afirmar que o espírito científico «… Aqueles que produzem conhecimento,
se exercita nesse já sabido que é a sua própria que investigam o real e o re-significam utilizando
e rotunda negação?» critérios e caminhos apropriados estão inseridos
«… Pois o passado científico não é necessa- no locus científico. E o que é a ciência senão
riamente sinónimo de erróneo porque passado. um modo de indagar e uma maneira de buscar
A história das ciências mostra-nos que as teorias respostas? A ciência alimenta-se e perpetua-se
“defuntas” do pretérito não raro “ressuscitam” pela sua capacidade de manter acesas pergun-
com redobrado vigor… É que ele sabe que a tas e desafios frente a uma realidade que torna
ciência, por definição, nunca está conclusa, que a perplexidade do ser humano a sua possibili-
o saber humano não é fruto gratuito de uma dade de interferência, domínio e modificação do
revelação, mas uma laboriosa construção pro- real. Assim, ao expor, publicar e divulgar um
gressiva feita de empurrões desencadeados certo conjunto de proposições ou de dados re-
ora da direita ora da esquerda, que a explicabi- sultantes de pesquisas efectuadas, organiza-se
lidade de uma teoria é sempre in-total, ou não a compilação, enriquecimento ou refutação do
exaustiva.» trabalho em questão. Pois, a ciência e o saber
«… A pressa exterior suscita a pressa interior. produzido por ela é fruto de diálogos, conces-
Esse é o mal da juventude contemporânea. Tudo sões e adequações a métodos e paradigmas.
realizado à pressa, uma improvisação febril, de Um artigo é produzido para ser lido.»
90 graus. Despreza-se o trabalho lento, metódi- «… Um texto que é publicado e lido fica des-
co, que exige dilatado tempo, vagarosa matura- tituído do seu carácter solitário e se transforma
ção… Daí a superficialidade e uma ausência de em resultado, parceria de autor e leitor, por um
escrúpulos de tantos moços, o horror do novi- processo subtil de reescrita.»
ciado científico, o apego ao fugitivo e ao efémero, Sílvio Lima in Obras Completas.
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