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Dor (2002) 10
sobre a libertação de GABA de terminais pré-sinápticos no nial. Por outro lado, as alterações na expressão do mGluR1
VB e Po, desinibindo as células de transmissão nesses podem também contribuir directamente para a modulação
núcleos através de um mecanismo pré-sináptico. Por outro da actividade neuronial.
lado, um estudo de microscopia electrónica recente revelou Quanto aos padrões temporais dos decréscimos da ex-
que são poucos os terminais GABAérgicos no VB imunorre- pressão do ARNm para o mGluR4 e mGluR7, foi detectada
activos para o mGluR2/3, mas uma marcação muito pronun- uma expressão reduzida aos 2 dias, reduções mais acentua-
ciada foi detectada nos processos astrocíticos que rodeiam das foram observadas aos 4 dias, enquanto que nos
os terminais sinápticos . Esses autores proposeram que, animais com 14 dias de monoartrite os níveis do transcripto
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quando é aplicado um estímulo muito forte, a activação de do mGluR7 estavam reduzidos mas os do ARNm para o
mGluR2/3 nos astrócitos que rodeiam os terminais GABAér- mGluR4 foram semelhantes aos controlo. Uma vez que
gicos no VB pode regular positivamente a reabsorção de ambos os subtipos de receptores pertencem ao mesmo
GABA (mediada por transportadores específicos) e conse- grupo de mGluR (grupo III), é possível que partilhem os
quentemente reduzir a sua difusão no espaço extracelular, mesmos mecanismos reguladores. Em contraste ao mGluR1,
reduzindo assim os efeitos inibitórios do neurotransmissor. o padrão temporal da regulação negativa da expressão do
Alternativamente, foi também proposto que os mGluR nos ARNm para o mGluR4 e mGluR7 não se correlaciona de
astrócitos podem regular a libertação de um modulador modo tão aproximado com as alterações da actividade
específico (aminoácido não-excitatório) que influencia a ini- metabólica verificadas nas experiências de 2-DG.
bição GABAérgica no VB . A expressão talâmica de ARNm para o mGluR3 estava
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É sabido que a expressão do mGluR3 não se restringe aumentada nos ratos monoartríticos, com valores máximos
aos neurónios mas que também ocorre em células gli- aos 2 dias de inflamação e valores um pouco menores aos
ais 60,64,135,136 . Este facto foi confirmado na primeira parte 4 e 14 dias. Assim sendo, também não é possível estabele-
deste trabalho onde se verificou também no Rt. No entanto, cer nenhuma correlação entre o padrão temporal não-linear
uma vez que nos ratos monoartríticos não foi feita uma de alterações da 2-DG e as alterações na expressão do
análise quantitativa separadamente para as células neuroni- ARNm para o mGluR3. Outros autores detectaram uma
ais e gliais, não é possível estimar a contribuição relativa de dependência temporal dos aumentos da expressão do
cada tipo celular para a regulação positiva da expressão do ARNm para o mGluR3 na medula espinhal de ratos durante
ARNm para o mGluR3 observada no Rt. Uma análise quali- uma inflamação periférica do membro posterior induzida por
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tativa, no entanto, indicou que o aumento da expressão do radiação ultravioleta .
ARNm para o mGluR3 se verificou tanto nos neurónios como Têm sido descritas alterações plásticas dependentes do
nas células gliais. Embora o papel fisiológico desta regula- tempo em vários outros sistemas nos DRG e na medula
ção positiva da expressão do transcripto para o mGluR3 espinhal em modelos experimentais de inflamação induzida
glial seja desconhecido, poderá estar relacionado com a por injecção de CFA 123-126 . Assim, Goff, et al. 125 detectaram
regulação do sistema GABAérgico pelos astrócitos tal como aumentos na imunorreactividade para os receptores opióides
acima descrito. Além disso, existem algumas evidências de µ (MOR) e neurocinina 1 (NK1) na medula espinhal de ratos
que a glia participa no controlo da actividade neuronial e da tratados com CFA, que foram mais elevados aos 4 dias de
neurotransmissão sináptica (comunicação astrócito-astrócito inflamação para o NK1 e aos 7 dias para o MOR, e depois
e astrócito-neurónio/neurónio-astrócito), como já aqui foi diminuíram gradualmente com o decorrer do tempo. Essas
discutido, aumentando a sua concentração interna de Ca 2+ alterações tiveram paralelo com alterações verificadas em
e libertando neurotransmissores em resposta a vários estí- parâmetros comportamentais no caso do NK1 ou sofreram
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mulos . Foi também demonstrado que a activação de um pequeno atraso no que respeita ao MOR. Noutro estudo,
mGluR (e iGluR) em astrócitos, induz a expressão de um foi encontrado um padrão não-linear das alterações dos
grande número de genes de acção imediata, que por sua níveis do ARNm para vários peptídeos nos DRG de ratos com
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vez modulam a expressão de outros genes . uma monoartrite em evolução . Essas alterações da expres-
são de múltiplas substâncias neuroactivas ou dos seus re-
Padrão temporal das alterações da expressão do ceptores reflectem, muito provavelmente, a complexidade
ARNm para os mGluR das modificações nos sistemas de transdução e modulação
envolvidos na transição da dor de uma “fase 1” para uma
As alterações na expressão do ARNm dos vários subtipos “fase 2” (tal como proposto por Cervero e Laird ) .
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de mGluR nos núcleos talâmicos analisados não foi homo- Em conclusão, observou-se uma modulação distinta e
génea durante a evolução da monoartrite. Curiosamente, em dependente do tempo da expressão do ARNm para vários
experiências anteriores onde foi utilizada a técnica da 2-DG subtipos de mGluR em diversos núcleos talâmicos nos ani-
para fazer um mapa das alterações da actividade metabó- mais monoartríticos. Assumindo que essas alterações do
lica no SNC dos ratos monoartríticos, foi observado um ARNm resultam em alterações nos níveis das respectivas
padrão temporal não-linear 70,71 . No tálamo, de modo seme- proteínas, a redução dos mGluR1, mGluR4 e mGluR7 nos
lhante a outras regiões supra-espinhais, foram observados núcleos talâmicos envolvidos especificamente na transmissão
aumentos da actividade metabólica neuronial aos 2 e 14 da informação nociceptiva ao córtex, assim como o aumento
dias de monoartrite, enquanto nos ratos com 4 dias de do mGluR3 no Rt, sugerem a existência de mecanismos de
monoartrite os valores observados estavam próximos dos adaptação (inibitórios) em resposta ao aumento da actividade
valores controlo . Possivelmente, aos 4 dias, a actividade neuronial no tálamo durante influxo nociceptivo continuado.
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aumentada de sistemas inibitórios actuando principalmente
na medula espinhal, compensam os influxos nóxicos conti- Injecção de EGLU no Rt contralateral de ratos
nuados que provêm da articulação inflamada 70,71 . No pre- monoartríticos
sente estudo, foram encontradas diminuições da expressão
do ARNm para o mGluR1 aos 2 e 14 dias, enquanto aos 4 O decréscimo dos valores do teste da flexão do tornozelo
dias os níveis de ARNm foram comparáveis aos dos animais nos ratos monoartríticos injectados no Rt com EGLU aponta
controlo, havendo portanto um padrão temporal bifásico que para um efeito antinociceptivo deste antagonista selectivo
para os mGluR do grupo II. Além disso, os dados sugerem que
está de acordo com as alterações da actividade neuronial
DOR verificadas nos estudos de 2-DG. Estes dados sugerem que os mGluR do grupo II são activados no Rt de ratos mono-
44 no processamento nociceptivo talâmico a expressão de artríticos por estímulos nóxicos resultantes da flexão e ex-
mGluR1 é muito sensível a alterações da actividade neuro-
tensão da articulação inflamada.
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