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F. Lourenço Moreira Neto, J.M. Castro-Lopes: Envolvimento dos Receptores Metabotrópicos do Glutamato na Dor Crónica: Estudo Experimental
muito evidentes na expressão do ARNm para o mGluR3, foi de splicing alternativo do mGluR1) localiza-se provavelmente
verificado que, pelo menos para os núcleos intralaminares e apenas em estruturas pós-sinápticas no hipocampo 95,100,101 e
anteriores do tálamo, cada núcleo talâmico se encontra também no córtex, onde não foi observada uma marcação
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ligado a uma área restrita do Rt na vizinhança do local onde pré-sináptica para o mGluR1a . No tálamo, foi verificado que
as fibras entram ou saem do tálamo 89,92,93 . O mesmo parece a proteína para o mGluR1a se localiza na periferia de mem-
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aplicar-se ao tálamo dorsal . Este padrão de conexões não branas pós-sinápticas de dendrites de neurónios de transmis-
uniforme em cada núcleo talâmico reflecte a complexidade são talâmicos que recebem sinapses de axónios corticotalâ-
da organização sináptica do tálamo. A expressão diferencial micos 101,102 . Uma localização pós-sináptica do mGluR1 e do
de subtipos de mGluR nas várias regiões talâmicas, e mGluR5 no tálamo está de acordo com estudos anteriores
dentro de alguns núcleos talâmicos específicos, está prova- sugerindo que estes receptores são activados pelo influxo
velmente relacionada com essa organização, e sugere que corticotalâmico e que participam na excitação sináptica de
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os mGluR desempenham funções várias e distintas na neu- neurónios de transmissão talâmicos . A propósito, a distribui-
rotransmissão glutamatérgica no tálamo. ção da imunorreactividade para o mGluR1 e mGluR5 é
alterada das dendrites proximais e soma para as dendrites
distais durante o desenvolvimento pós-natal do ratinho, onde
mGluR do grupo I
se encontram associados com sinapses cortico-talâmicas na
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Os núcleos talâmicos apresentaram uma distribuição dis- segunda semana pós-natal .
tinta do ARNm para cada um dos dois mGluR do grupo I
(mGluR1 e mGluR5). O sinal para o mGluR1 foi moderado a mGluR do grupo II
elevado nas regiões caudais e intermédias do tálamo e fraco
na zona rostral, enquanto a expressão do ARNm para o O subtipo mGluR3 foi o único mGluR do grupo II investi-
mGluR5 foi fraca a moderada em todos os núcleos talâmicos. gado neste estudo. O Rt foi o núcleo talâmico mais densa-
Estes dados são consistentes com trabalhos anteriores onde mente marcado para o mGluR3, o que está de acordo com
se descreve uma expressão do ARNm para o mGluR1 eleva- estudos anteriores 60,64 . O Rt é o alvo de colaterais de fibras
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da a moderada na maioria dos núcleos talâmicos . Nestes talamocorticais e corticotalâmicas 1,104 e contém muitos neu-
núcleos tem também sido descrita a expressão do ARNm rónios imunorreactivos para o GABA, um neurotransmissor
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para o mGluR5 e da respectiva proteína . No entanto, o inibitório 105,106 . Desempenha um papel importante como mo-
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mGluR5 é consideravelmente mais expresso no encéfalo em dulador, enviando uma sequência rítmica de potenciais de
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desenvolvimento do que no animal adulto . As diferenças acção para o restante tálamo e córtex, estando provavel-
mais notáveis entre a expressão dos transcriptos para o mente envolvido no controlo do influxo sensitivo entre as
mGluR1 e o mGluR5 foram encontradas no complexo ventro- duas estruturas 4,107,108 . O papel funcional do mGluR3 nos
basal (VPL e VPM) e no Po, onde o ARNm para o mGluR5 foi neurónios do Rt ainda não está clarificado. No entanto, uma
expresso em muito pouca quantidade. Esses núcleos rece- vez que a marcação para o ARNm do mGluR3 foi muito
bem informação pela via espinotalâmica e também do núcleo abundante a praticamente restrita a este núcleo talâmico, é
espinhal do trigémio 3,96 e têm sido implicados no processa- possível que contribua para a acção modulatória exercida
mento de estímulos dolorosos, estando envolvidos no compo- pelo Rt, provavelmente em conjunto com os iGluR que
nente sensitivodiscriminativo da nocicepção 6-8,11,15 . Uma ex- também se encontram expressos neste núcleo . Noutros
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pressão pronunciadamente distinta desses dois subtipos de núcleos talâmicos, o mGluR3 parece estar localizado nos
mGluR foi também detectada em alguns núcleos intralamina- terminais de neurónios GABAérgicos do Rt que projectam
res e da linha média tais como o CM/CL, Sub, PVP e Pf. O para os núcleos de transmissão e estar envolvido em algu-
CM/CL e o Sub também recebem projecções de células da mas respostas pré-sinápticas no tálamo 50-52 .
via espinotalâmica 3,96,97 e foi proposto que terão uma impor- O ARNm para o mGluR3 foi maioritariamente expresso
tante função no componente afectivomotivacional da dor 6,15 , em células neuronais mas também foi detectada marcação
enquanto o Pf foi associado à modulação da dor . A marca- em pequenas células com núcleo escuro, que são presumi-
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ção consideravelmente superior para o ARNm do mGluR1 velmente células gliais, confirmando trabalhos anterio-
nesses núcleos comparada com a de mGluR5 indicia um res 60,64,109 . É sabido que as células gliais expressam recep-
envolvimento específico do mGluR1 no processamento noci- tores para vários neurotransmissores dos quais os iGluR e
ceptivo ao nível do tálamo. Por outro lado, a maior expressão os mGluR são exemplos 110,111 . O papel fisiológico específico
do ARNm para o mGluR5 comparada com a de mGluR1 no do mGluR3 nas células gliais ainda não está totalmente
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VM, um núcleo de transmissão motor , aponta para um elucidado mas parece ser importante na comunicação neu-
envolvimento do mGluR5 no processamento de funções mo- rónio-glia e/ou glia-glia 51,60 . Várias evidências experimentais
toras. Finalmente, uma vez que tanto o ARNm para o mGluR1 sugerem que a glia não tem um papel meramente de
como para o mGluR5 foram moderadamente expressos no suporte mas participa no processamento da informação e
DLG/VLG, poderão estar também implicados no processa- plasticidade neuronial assim como está relacionada com
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mento visual, como anteriormente sugerido . alguns estados patológicos . Além disso, o glutamato, por
A metodologia utilizada não permite verificar a localização activação de receptores ionotrópicos e metabotrópicos, pos-
pré- ou pós-sináptica dos subtipos de mGluR nas regiões sivelmente não só regula a proliferação e diferenciação glial
talâmicas, mas estudos imunohistoquímicos de microscopia mas também modula a expressão genética por indução de
electrónica sugerem que a localização celular dos mGluR do um conjunto de genes de expressão imediata como os
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grupo I pode variar de acordo com a área do encéfalo ou membros das famílias Fos e Jun, NGF1-A e c-myc .
com a idade do animal. No córtex e no hipocampo a imunor- Apesar das homologias de sequência existente entre os
reactividade para o mGluR5 foi essencialmente detectada em dois receptores do grupo II ser elevada (67%) , o padrão
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estruturas pós-sinápticas, mas foi também observada alguma talâmico de distribuição do transcripto do mGluR2 é muito
marcação pré-sináptica em terminais axonais . A imunohisto- diferente comparativamente ao do mGluR3. De facto, foi
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química também permitiu a detecção do mGluR5 no neurópi- encontrada uma marcação moderada em neurónios dos
lo de alguns núcleos talâmicos de transmissão . No seu núcleos talâmicos anteriores, da linha média e intralamina-
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conjunto, estes dados apontam para uma localisação pré- e/ res, assim como na parte rostral do VL, mas não foi detec-
ou pós-sináptica nessas regiões, embora alguns autores tada qualquer marcação específica em muitos dos outros DOR
proponham que o mGluR5 está presente em estruturas pós- núcleos tais como o Sub, os núcleos ventroposteriores (VPL
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-sinápticas no tálamo . Em contraste, o mGluR1a (um variante e VPM) e o Rt . 41
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