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Dor (2002) 10
mGluR do grupo III Uma grande variedade de mecanismos contribuem para
esta reacção neuroplástica ao influxo nociceptivo prolongado,
A distribuição talâmica dos transcriptos do mGluR4 e
mGluR7 também apresentou padrões distintos neste estudo. incluindo alterações na expressão de neurotransmissores, re-
ceptores, canais iónicos e sistemas de segundos mensageiros,
O sinal para o mGluR4 foi abundante e disseminado por as quais têm sido intensivamente estudadas 77,79-81,116-118,123-127 .
todos os núcleos talâmicos com a excepção do Rt. Em Neste estudo, foram observadas alterações supra-espinhais
contraste, o sinal para o transcripto do mGluR7 foi muito nos níveis de expressão do ARNm para alguns subtipos de
mais fraco, embora se tenha observado uma expressão mGluR em núcleos talâmicos de ratos monoartríticos. No
moderada em neurónios de núcleos de transmissão sensiti- tálamo, a expressão dos transcriptos do mGluR1, 4 e 7 foi
tiva importantes tais como o DLG/VLG, relacionados com o reduzida no VB (VPL e VPM), no Po e em alguns casos no Pf,
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sistema visual , o Po e os núcleos do VB, envolvidos no enquanto a expressão do ARNm do mGluR3 foi aumentada no
processamento nociceptivo 3,7,8,10,11 . Esses dados estão de Rt. Essas alterações apresentaram padrões temporais especí-
acordo com estudos anteriores 57,61,64 , embora a intensidade ficos durante a evolução da monoartrite, estudadas aos 2, 4 e
da marcação para o mGluR4 quando comparada com a de 14 dias de doença. Os mecanismos moleculares responsáveis
mGluR7 tenha sido relativamente mais elevada neste traba- por essas alterações na expressão genética dos mGluR são
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lho do que em alguns estudos anteriores . Além disso, ainda desconhecidos. Nos gânglios raquidianos (DRG) e na
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Ohishi, et al. descreveram uma expressão do ARNm para o medula espinhal, os impulsos nociceptivos crónicos induzem
mGluR7 moderada no Rt enquanto no presente estudo o sinal uma alteração na expressão de várias moléculas efectoras, o
foi próximo dos valores do fundo. Essas diferenças devem-se que parece estar sob a regulação de cascatas de segundos
provavelmente ao uso de sondas diferentes sintetizadas para mensageiros que activam uma série de factores de transcri-
porções distintas da sequência de ARNm e/ou à diferente ção. Desses factores de transcrição, a proteína de ligação ao
eficiência de marcação da sonda e/ou hibridização. elemento de resposta ao AMPc (CREB) parece ser muito
Os subtipos mGluR4 e mGluR7 parecem funcionar como 82
auto-receptores pré-sinápticos, inibindo a transmissão gluta- importante em sistemas neuroniais . É portanto possível que,
também no tálamo, a expressão do ARNm para os mGluR
matérgica em diversas regiões do encéfalo 61,113-115 . No entanto, esteja sobre o controlo de mecanismos similares. Quaisquer
a sua expressão pós-sináptica também já foi demonstrada. No que sejam os mecanismos envolvidos, as alterações da ex-
hipocampo, por exemplo, o mGluR7 estava predominantemen- pressão de mGluR encontradas nos ratos monoartríticos neste
te localizado em locais pré-sinápticos de sinapses glutamatér- estudo são muito provavelmente uma consequência do au-
gicas, enquanto o mGluR4 foi detectado tanto pré-sinaptica- mento de influxo nociceptivo, e não parte duma reacção
mente em sinapses assimétricas (excitatórias) ou simétricas generalizada à doença. De facto, não foram detectadas quais-
(inibitórias), como pós-sinapticamente em sinapses assimétri- quer alterações no Sub, ao contrário do que seria de esperar
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cas . Em contraste, uma marcação significativa de corpos numa resposta sistémica. Além disso, as alterações na expres-
celulares e dendrites no locus coeruleus sugeriu uma localiza- são do ARNm para os mGluR também não devem resultar
ção pós-sináptica do mGluR7 provavelmente em sinapses duma activação inespecífica do tálamo por, por exemplo, um
excitatórias, o que foi confirmado por imunocitoquímica e aumento da actividade tónica dos núcleos do tronco cerebral.
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microscopia electrónica . A expressão de mGluR4 e mGluR7 A corroborar esta hipótese está o facto de não terem sido
em numerosos núcleos talâmicos sensitivos tais como o Po e observadas alterações na expressão do ARNm para os mGluR
o VB sugere que estes receptores possam participar no em alguns núcleos talâmicos como Sub, o qual recebe projec-
processamento central de influxo sensitivo. ções do núcleo da rafe dorsal assim como das partes ventro-
Como conclusão, os dados obtidos nesta primeira parte do lateral e medial da substância cinzenta periaquedutal . Tam-
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trabalho confirmam a existência de um padrão de expressão bém o Pf, onde não se verificaram alterações na expressão do
distinto para cada um dos diversos subtipos de mGluR nos ARNm para os mGluR, excepto aos dois dias de monoartrite
núcleos talâmicos, e avaliam a abundância relativa do ARNm para o mGluR1, se encontra reciprocamente conectado com a
para cada subtipo. A expressão de ARNm para os subtipos de maioria dos núcleos no sistema da rafe . A propósito, tanto o
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mGluR não só variou entre núcleos talâmicos mas também Sub como o Pf, têm sido mais implicados no componente
variou em determinados núcleos ao longo do seu eixo rostro- afectivomotivacional da nocicepção 6,13-15 , em contraste com o
caudal. A presença considerável de ARNm para o mGluR1, VB e o Po que estão envolvidos no componente sensitivodis-
mGluR4 e mGluR7 em núcleos sensitivos talâmicos que rece- criminativo 6,11,12 e onde foram detectadas alterações na expres-
bem influxo da medula espinhal e do trigémio aponta fortemen- são do ARNm para os mGluR.
te para um envolvimento destes subtipos no processamento A primeira parte deste trabalho e estudos anterio-
de estímulos somato-sensitivo. O ARNm para o mGluR3 foi res 57,60,61,63,64 descreveram a presença de ARNm para vários
abundante no Rt e praticamente restrito a este núcleo talâmico, subtipos de mGluR em núcleos talâmicos de ratos normais, a
indiciando a sua participação na modulação da actividade maioria dos quais transmitindo a actividade dos principais
talamocortical e cortico-talâmica pelo Rt.
sistemas sensitivos e motores para áreas específicas dos
Expressão do ARNm para os mGluR no tálamo córtices somatosensitivo e motor. Os mesmos subtipos de
de ratos monoartríticos mGluR encontram-se expressos nos DRG e nas lâminas
superficiais do corno dorsal da medula espinhal, que também
As lesões inflamatórias crónicas dos tecidos periféricos fazem parte das vias nociceptivas 57,61,115,130,131 . Em conjunto,
induzem alterações no sistema somatossensitivo que levam a esses estudos anatómicos apontam para uma importante
hiperalgesia e alodínia. Os mecanismos periféricos incluem a função dos mGluR no sistema nociceptivo. Trabalhos recen-
activação de mediadores inflamatórios e a sensibilização de tes corroboraram a sua importância na modulação dos estí-
nociceptores 72,74,75,116-118 . Na medula espinhal, a sensibilização mulos nóxicos, nomeadamente a nível espinhal, por participa-
central consiste numa excitabilidade aumentada dos neuró- rem no aparecimento de hiperexcitabilidade devida a
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nios espinhais, os quais adquirem novas respostas a estímu- inflamação e de hiperalgesia mecânica aguda , ou na faci-
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los de limiares baixos e/ou aumentam a sua resposta a litação de nocicepção induzida pelo formol . No tálamo,
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estímulos de limiares elevados, e sofrem um aumento dos diversos estudos electrofisiológicos apontam para o envolvi-
48,51-54
. No
mento dos mGluR na mediação de influxo sensitivo
72,119-121
DOR seus campos receptivos . Nas regiões supra-espinhais, entanto, pouco é sabido acerca das alterações dinâmicas
por exemplo no tálamo, a actividade neuronial ou as respos-
42 tas aos estímulos sensitivos são profundamente alteradas dos sistemas neuroquímicos talâmicos, particularmente dos
durante a nocicepção crónica, em particular no VB
mGluR, em resposta a um estímulo nociceptivo prolongado.
.
11,71,122

