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F. Lourenço Moreira Neto, J.M. Castro-Lopes: Envolvimento dos Receptores Metabotrópicos do Glutamato na Dor Crónica: Estudo Experimental
A grande maioria das células do Rt são neurónios GABA-
érgicos inibitórios que são activados por influxo glutamatér-
gico corticotalâmico e talamocortical 3,17 . Esses neurónios
projectam para e inibem os neurónios de transmissão talâ-
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micos do VB que participam na transmissão sensitiva . O
modo como os mGluR do grupo II exercem a sua acção
inibitória nas células do Rt começou recentemente a ser
desvendado. Uma possibilidade é que os mGluR do grupo
II actuem como receptores pré-sinápticos, inibindo a liberta-
ção de neurotransmissores, tal como demonstrado no corpo
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estriado . Além disso, estudos electrofisiológicos recentes
usando ligandos selectivos aplicados em fatias do tálamo
de animais normais evidenciaram a existência de uma ac-
ção inibitória pós-sináptica do glutamato sobre os neurónios
reticulares talâmicos, por activação dos mGluR do grupo II,
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e um consequente aumento da conductância linear do K .
Foi também verificado que estímulos mecânicos cutâneos
nóxicos inibem fortemente as respostas dos neurónios do
Rt, independentemente da localização do estímulo na super-
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fície corporal . Poderá então ser especulado que o influxo
nóxico activa os mGluR do grupo II nas células GABAérgi-
cas do Rt, inibindo assim essas células e, portanto, desini-
bindo os neurónios de transmissão somatossensitivos. A
expressão do ARNm para o mGluR3, um mGluR do grupo II, Figura 10. Microfotografias de microscopia óptica de
aumentou no Rt de ratos monoartríticos, como verificado por campo claro de dois locais de injecção
hibridização in situ neste trabalho, sugerindo que os mGluR correspondentes aos desenhos esquemáticos, de
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acordo com Paxinos e Watson . No cimo, a injecção
do grupo II poderão desempenhar um papel importante na de EGLU atingiu o Rt, na sua porção mais rostral, e o
mediação de influxo nóxico crónico. Assim, desde que animal apresentou valores da pontuação do “teste da
esses aumentos na expressão do transcripto do mGluR3 flexão do tornozelo” significativamnete reduzidos em
resultem num aumento da quantidade local de receptor e comparação com os animais injectados com soro
tendo em conta os estudos acima mencionados, é possível fisiológico. Em baixo, a injecção de EGLU não atingiu
que a activação dos mGluR do grupo II nos neurónios o Rt, tendo-se localisado perto do núcleo paratenial
GABAérgicos do Rt pelo influxo nóxico crónico resulte numa (PT) e na região do tracto corticohipotalâmico medial
hiperactividade dos neurónios de transmissão talâmicos, (mch), e não foram observadas alterações da
contribuindo para a hiperalgesia e alodínia detectada nes- pontuação do “teste da flexão do tornozelo”. 3V:
ses animais. Neste sentido, o efeito antinociceptivo do EGLU terceiro ventrículo. AV: núcleo anteroventral do tálamo.
observado neste estudo está de acordo com esta hipótese, Cpu: caudate putamen. D3V: terceiro ventrículo dorsal.
ec: cápsula externa. f: fórnix. GP: globus pallidus. ic:
uma vez que o EGLU bloqueia a activação do mGluR3 pelo cápsula interna. LV: ventrículo lateral. mch: tracto
estímulo nóxico, desinibindo assim os neurónios GABAérgi- corticohipotalâmico medial. PaAP: núcleo
cos do Rt que inibem os neurónios dos núcleos de transmis- paraventricular do hipotálamo, parvocelular anterior. PT:
são talâmicos. A propósito, as injecções de EGLU que, por núcleo paratenial do tálamo. PVA: núcleo
razões metodológicas, não atingiram o Rt mas sim outros paraventricular do tálamo, porção anterior. Rt: núcleo
núcleos talâmicos na sua vizinhança (Fig. 10), não causa- reticular do tálamo. sm: stria medullaris do tálamo. st:
ram qualquer alteração no teste da flexão do tornozelo stria terminalis.
(dados não apresentados), sugerindo assim um efeito espe-
cífico deste antagonista do grupo II no Rt.
O efeito hipoalgésico do EGLU foi observado neste estu-
do após se ter infligido um estímulo nóxico agudo em
animais com uma inflamação, a qual presumivelmente origi- (DG12-SSMI) do Programa BIOMED 2 da União Europeia.
na um influxo nóxico crónico. Além disso, os mesmos ani- Gostaríamos ainda de agradecer ao Professor Armando
mais apresentam níveis aumentados de ARNm para o Almeida (Instituto de Histologia e Embriologia e IBMC, Fa-
mGluR3 como verificado na parte anterior deste trabalho. culdade de Medicina do Porto, Portugal) a ajuda prestada
Assim, o efeito de injecções semelhantes de EGLU no Rt nas injecções estereotáxicas.
dos animais normais sujeitos a um estímulo nóxico agudo é
difícil de prever, estando em curso mais estudos electrofisio- Bibliografia
lógicos e comportamentais usando ligandos selectivos e 1. Jones EG. The thalamus. New York: Plenum Press 1985.
específicos para cada um dos mGluR, de modo a determi- 2. McCormick D, Ball T. Sensory gating mechanisms of the thalamus. Current
nar os efeitos dos mGluR do grupo II no Rt na nocicepção Opin Neurobiol 1994;4:550-6.
3. Price JL, Thalamus. Em: Paxinos G (ed). The rat nervous system. 2ª ed.
aguda e crónica. Sydney: Academic Press Inc 1995:629-48.
4. Steriade M. Neuromodulatory systems of thalamus and neocortex, Semi-
nars in the Neurosci 1995;7:361-70.
Agradecimentos 5. Tracey DJ, Waite PME. Somatosensory systems. Em: Paxinos G (ed). The
rat nervous system. 2ª ed. Sydney: Academic Press 1995;689-704.
As duas primeiras partes deste trabalho foram financia- 6. Besson JM, Guilbaud G, Peschanski M. Thalamus and pain. Elsevier
Science Publishers 1987.
das com uma bolsa de doutoramento concedida pela Fun- 7. Guilbaud G. Thalamic nociceptive systems. Phil Trans R Soc Lond
dação Calouste Gulbenkian e pela Fundação para a Ciência 1985;B308:339-45.
e Tecnologia (FCT, nº PRAXIS XXI/BD/9795/96) e pelo pro- 8. Guilbaud G, Bernard JF, Besson JM. Brain areas involved in nociception
and pain. Em: Wall, PD, Melzack R (eds). Texbook of pain. Edinburgh:
jecto SFB 391/C9 (Alemanha). A última parte deste trabalho Churchill Livingstone 1994:113-28.
(injecções de EGLU) foi financiada pelo Programa para o 9. Willis WD, Westlund KN, Carlton SM. Pain. Em: Paxinos G (ed). The rat DOR
nervous system. 2ª ed. Sydney: Academic Press 1995;725-50.
Ensino, Investigação e Tratamento da Dor da Fundação
10. Willis WD, Westlund KN. Neuroanatomy of the pain system and of the
Calouste Gulbenkian e pelo projecto nº BMH4-CT97-2093 pathways that modulate pain. J Clin Neurophysiol 1997;14:2-31. 45

