Page 5
P. 5




Dor (2002) 10
Dor (2002) 10

Editorial II


Os Bastidores da Dor



Deolinda Lima




O lhar para a investigação básica na área da dor Prof. Antonio Coimbra, a sede desinteressada pelo saber.
Ouvi-o, ainda no dealbar da minha carreira, nos tempos
é, como em muitos outros domínios das ciênci-
utilitaristas da revolução de Abril, afirmar como havia
as da saúde, penetrar em espaços estranhos,
algo confusos senão mesmo bizarros, díspares recusado e sempre recusaria fazer investigação que fosse
e aparentemente desgarrados, que pouco ou nada dei- forçosamente aplicada, mas vi-o brilhar de júbilo quando
xam antever da representação em cena. São espaços no laboratório se iniciaram, pelas mãos de Francisco Cruz,
pequenos e obscuros, ligados por caminhos estreitos e os primeiros trabalhos ligados directamente à actividade
labirínticos que mal se identificam, mas que conduzem clínica. É este o espírito que ainda nos governa, que nos
sempre e no tempo certo ao grande espectáculo. Espec- leva a querer saber como é que se forma o sistema
táculo dinâmico e interactivo onde de todos se espera, nociceptivo ou a pensar em novas maneiras de manipular
do palco à plateia, qualquer valiosa intervenção. o sistema de controlo endógeno da dor.
Habituámo-nos, com alguma consternação, a ver a ciên- Os trabalhos que se seguem são uma pequena amos-
cia básica considerada como algo ao serviço da curio- tra, porventura representativa, dos vários estudos em
sidade de uns tantos que se divertem a procurar respos- curso no laboratório. São também o exemplo do que
tas a questões mais ou menos inteligentes mas, quiçá, para trás deixei dito. O caminhar de muitos anos através
irrelevantes e divorciadas de qualquer propósito que sirva da estrutura do sistema nociceptivo levou-nos, por exem-
o bem comum. Envergonhamo-nos às vezes de não plo, à descoberta de uma área do encéfalo, o núcleo
encontrarmos um objectivo humanitário no dia a dia do reticular dorsal, que, ao contrário das restantes regiões
nosso trabalho e esforçamo-nos, ou para auto-satisfação supraspinais de controlo da dor, tem acção pró-nocicep-
ou para fazer vingar até em termos financeiros os nossos tiva. Surgiu então a ideia de potenciar o efeito analgésico
intentos, por definir a utilidade daquilo que fazemos. da manipulação supraspinal à custa da associação do
E assim carregamos o nosso dia a dia em que, porém, bloqueio deste núcleo com a estimulação de um núcleo
nada há a condenar senão a consternação e o constran- inibitório. Em paralelo, em campos de investigação
gimento. Todo o trabalho dirigido para a produção de básica completamente diversos, gerava-se a capacida-
conhecimento tem de servir, sob pena de não ser profí- de de, por meio de terapia génica, actuar especifica-
cuo, a curiosidade e satisfação de quem o pratica. E não mente e por períodos de tempo prolongados sobre
há conhecimento que seja irrelevante ou nada tenha a células seleccionadas. E é assim que, em colaboração
ver com a nossa realidade, já que é por nós e à custa da com um grupo dos Estados Unidos especializado na
nossa vivência que é criado. Pelo contrário, importa que concepção e produção de vectores víricos, iniciámos
brote da condição humana como a água das fontes, investigação orientada para o bloqueio específico das
espontânea e ininterruptamente, e não apenas porque células que promovem facilitação da dor no núcleo
alguém tem sede. Um dia, seguramente, quando menos reticular dorsal, e a estimulação das que inibem a dor
se espere, alguém o irá beber. Encontrará então o seu na substância reticular ventrolateral caudal.
caminho e chegará, humilde ou triunfante, ao palco Ainda a título de exemplo, é o nosso grupo pioneiro na
principal para aí desempenhar o seu papel. utilização de electrofisiologia por meio de multieléctrodos
Por outro lado, procurar objectivos, ou seja, seguin- para o estudo da dor. O objectivo é saber como é que
do a metáfora, tentar fazer chegar a nossa pequena os neurónios somatoSsensitivos se organizam, enquanto
participação à peça em causa, é algo de desejável, população, em situações de dor aguda ou quando a dor
mas se no tempo certo e não forçado prematuramente evolui para a cronicidade. Entrámos por este caminho no
de modo a criar limites à criatividade científica. É, no completo desconhecimento do que iríamos encontrar,
entanto, tarefa a partilhar com quem conhece bem o embora convictos de que alguma forma de re-organiza-
cenário e a plateia. Aplicar o conhecimento passa pela ção de circuitos deveria ocorrer. A ser assim, tentar a
actividade concertada de quem o produz e de quem o reparação desses circuitos por microestimulação, even-
utiliza. Ao cientista compete traçar caminhos que con- tualmente recorrendo a dispositivos biónicos, será o
duzam a resultados práticos sempre que tal se vislum- objectivo seguinte. Quem sabe se a dor crónica se
bre como possível. Ao clínico cabe procurar nos dados mantém, pelo menos em parte, devido à má estruturação
das ciências básicas o conhecimento de que necessita dos neurónios em rede, e se a reversão deste processo
e criar condições para a sua utilização. conduzirá a algum alívio da dor!
O grupo que dirijo, sediado na Faculdade de Medicina Será que tudo isto com que, de modo lúdico (porque
DOR da Universidade do Porto e no IBMC, é um dos muitos não?), vamos preenchendo as nossas muitas horas de

4 que, por esse mundo fora, laboram arduamente na inves- trabalho terá alguma utilidade no futuro. Nós acredita-
mos que sim.
tigação da fisiopatologia da dor. Herdou do seu criador, o
   1   2   3   4   5   6   7   8   9   10