Page 19 Volume 12, Número 4, 2004
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Dor (2004) 12
Na segunda fase do teste do formol os compor- nóxico agudo adicional em animais com uma
tamentos relacionados com a dor apresentados inflamação, a qual presumivelmente origina um in-
pelos animais injectados com baclofeno no VB fluxo nóxico crónico. Alguns autores sugerem que
diminuíram significativamente. Esta fase corres- os receptores GABA estão associados com auto-
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ponde à fase de dor inflamatória, também deno- e/ou hetero-receptores pré-sinápticos nos núcleos
minada de fase de dor crónica ou fase tónica, na de transmissão talâmicos (Le Feuvre, et al., 1997;
qual o uso de analgésicos anti-inflamatórios não- Poorkhalkali, et al., 2000). Neste sentido a activação
esteróides (NSAIDs) reduz os comportamentos de hetero-receptores pré-sinápticos localizados em
nociceptivos que lhe estão associados (Tjølsen, et fibras espinhotalâmicas excitatórias aferentes
al., 1992), mas não afecta os comportamentos de poderá ser responsável pelo efeito analgésico
dor na primeira fase do teste. Para além disso, observado, uma vez que a sua acção excitatória
parecem estar envolvidos nesta fase tardia de dor no VB seria inibida.
mediadores inflamatórios como a histamina, a se- A redução da pontuação do teste da flexão do
rotonina, as prostaglandinas e a bradiquinina (Shi- tornozelo observada nos ratos MA após injecção
bata, et al., 1989). Entre as duas fases, os animais de baclofeno foi dependente do tempo de inflama-
não apresentam comportamentos de dor, como foi ção. Assim, a mesma concentração de baclofeno
também observado no presente estudo, e tem sido (350 ng/µl) não induziu analgesia nos ratos com
discutido que esta interfase representa um meca- 2 dias de MA e nos ratos com 4 dias de MA foram
nismo de autoanalgesia despoletado pela dor ini- detectados alguns sinais de analgesia mas os re-
cial (Franklin e Abbott, 1993). Foi também sugerido sultados foram inconsistentes entre diferentes ani-
que as alterações neuronais centrais que ocorrem mais e não foram estatisticamente significativos,
durante a breve fase inicial após injecção subcu- enquanto que nos ratos com 14 dias de MA esta
tânea de formol na pata são essenciais para a dose foi suficiente para diminuir consideravelmente
expressão de dor na fase tónica mais tardia (Co- as pontuações do teste da flexão do tornozelo. Es-
derre, et al., 1990). Deste modo, uma vez que o tes resultados são provavelmente consequência
baclofeno foi capaz de impedir a expressão total das reacções plásticas que estão a ocorrer no SNC
de dor na primeira fase e possivelmente os meca- durante a evolução da monoartrite. De facto, em
nismos por ela induzidos na medula espinhal, o estádios iniciais da inflamação, mecanismos neuro-
aparecimento de dor na fase tónica tardia foi, pro- nais periféricos, tais como sensitização de nocicep-
vavelmente, comprometido. tores e activação de mediadores inflamatórios, pa-
Muitos estudos já usaram a administração de recem contribuir para a dor inflamatória (Coderre,
baclofeno por várias vias no teste do formol (Dirig et al., 1993; Cervero e Laird, 2003). Em fases
e Yaksh, 1995; Shafizadeh, et al., 1997; Mahmoudi tardias da inflamação ocorrem mudanças profun-
e Zarrindast, 2002; Czuczwar, et al., 2003), tendo das, tais como alterações na produção de neuro-
todos eles encontrado propriedades antinocicepti- transmissores e dos seus receptores, que levam ao
vas neste fármaco, as quais são habitualmente atri- aumento da excitabilidade observada nas áreas
buídas a um efeito na medula espinhal. No entanto, do SNC envolvidas na transmissão da informação
é também sabido que o baclofeno tem uma acção dolorosa (Dubner e Ruda, 1992; Coderre, et al.,
inibitória sobre o sistema motor, e por isso mesmo 1993). Foram recentemente descritas alterações
é usado clinicamente no tratamento da espasticida- dependentes do tempo de inflamação na expres-
de de várias origens (Pedersen, et al., 1974). Uma são do ARNm para diversos receptores de neuro-
vez que, em estudos com animais, esta acção mo- transmissores (Neto, et al., 2000; Ferreira-Gomes,
tora pode afectar os resultados das medições de et al., 2004). Num desses estudos, foram observa-
analgesia quando estas se baseiam em acções das reduções significativas nos níveis de ARNm
motoras, neste estudo foram efectuados diversos para o GABA 1b no VB aos 4, 7 e 14 dias de MA,
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testes motores aos animais injectados com baclo- no lado contralateral à pata inflamada, mas não
feno. Estes testes demonstraram que a analgesia foram detectadas diferenças aos 2 dias de MA
observada nos ratos injectados com baclofeno, tan- em comparação com os controlos (Ferreira-Go-
to no teste do formol como no teste da flexão do mes, et al., 2004). Os resultados das experiências
tornozelo, não foi devida a inibição da actividade de hibridação in situ (Ferreira-Gomes, et al., 2004)
motora. Por outro lado, um estudo recente mostrou e da injecção de baclofeno no VB (estudo presente)
que a acção analgésica do baclofeno é distinta dos sugerem que, aos 2 dias de MA, a dor inflamatória
efeitos motores que induz (Balerio e Rubio, 2002). crónica encontra-se numa fase inicial e que ainda
não ocorreram alterações muito profundas no siste-
Redução da pontuação do teste da flexão do tornozelo ma GABA nesta região talâmica. Os animais com
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4 dias de MA apresentaram pontuações para o
Nos animais com 14 dias de MA, foi observada teste da flexão do tornozelo inconsistentes, o que
uma diminuição da pontuação do teste da flexão sugere a existência de características individuais
do tornozelo, e portanto da alodínia, após activa- que determinam o modo como o animal responde
ção dos receptores GABA pelo baclofeno, o que ao estímulo nóxico, isto é, o estado de inflamação
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DOR sugere uma inibição dos neurónios do VB por es- crónica e o grau de excitabilidade do SNC é dife-
ses receptores. O efeito hipoalgésico do baclofeno
rente entre animais em estadios iniciais da doen-
18 foi observado após se ter infligido um estímulo ça. Neste sentido, os efeitos do baclofeno aqui

