Page 21 Volume 12, Número 4, 2004
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Dor (2004) 12
Dor (2004) 12

Artigo original
A Estimulação Mecânica

de Articulações Monoartríticas Induz


Fosforilação das ERKs 1 e 2

na Medula Espinhal



1
1
Célia D. Cruz , Fani Neto , José Manuel Castro Lopes , Stephen B. McMahon 3
1,3
e Francisco Cruz 1,2



Resumo
O corno dorsal da medula espinhal recebe e processa o afluxo sensitivo gerado por estimulação de estru-
turas periféricas, incluindo a estimulação nóxica. A monoartrite, induzida por injecção de adjuvante de Freund
completo (CFA) no tornozelo de ratos, induz várias alterações nas respostas funcionais dos neurónios do
corno dorsal da medula espinhal. Muitas destas alterações dependem de modificações no funcionamento
das vias de sinalização intracelulares nestes neurónios. Os membros da via das cínases reguladas por sinais
extracelulares 1 e 2 (ERKs) são expressos abundantemente no sistema nervoso e, na medula espinhal, são
activados por estimulação nóxica de estruturas periféricas. Estudos recentes demonstraram que as ERKs
desempenham um papel importante, pelo menos, nalguns estados de sensibilidade dolorosa alterada.
Neste trabalho, investigámos o modo como a actividade das ERKs na medula espinhal é modulada durante
a progressão da monoartrite. Os nossos resultados indicam que a fosforilação das ERKs aumenta à medida
que aumenta o tempo de inflamação. Utilizámos também PD98059, um inibidor específico da activação das
ERKs, de modo a avaliar os efeitos funcionais da fosforilação das ERKs. Este inibidor reduziu significativa-
mente o comportamento nociceptivo dos animais monoartríticos quer nas fases iniciais quer nas finais da
patologia. Estes resultados sugerem que os níveis de fosforilação das ERKs estão aumentados em animais
monoartríticos, o que se reflecte no comportamento do animal. Dado que as ERKs desempenham um im-
portante papel funcional, o uso de inibidores específicos destas proteínas poderá ter relevância terapêutica
para o tratamento da dor crónica.

Palavras-chave: ERKs. Monoartrite. Medula espinhal.



Introdução bitórios (Millan, 1999), e que se sabe também
A dor crónica é caracterizada pela percepção ocorrerem nos centros supra-espinhais de con-
alterada de estímulos periféricos, nomeadamen- trolo de dor (Neto, et al., 1999; Woolf e Slater,
te pelo estabelecimento de alodinia e hiperalge- 2000). Tais mudanças adaptativas dependem
sia. Os fenómenos de alodinia – descrito como muitas vezes de pequenos ajustes dos mecanis-
sendo a percepção de estímulos normalmente mos modulatórios de regulação de expressão
inócuos como dolorosos – e de hiperalgesia – génica, função de receptores e/ou canais ióni-
sendo esta um aumento da resposta exagerada cos (Besse, et al., 1992; Dray, et al., 1994; Ji e
em resposta a estímulos nóxicos – reflectem mu- Woolf, 2000). As cascatas de sinalização intra-
danças que ocorrem ao nível da medula espi- celular podem estar envolvidas nestas altera-
nhal, envolvendo mecanismos excitatórios e ini- ções.
Várias cascatas foram já implicadas na sinali-
zação intracelular neuronial (Aley e Levine, 1999;
Lewin e Walters, 1999; Sluka, 1997; Sluka e
1 Instituto de Histologia e Embriologia Willis, 1998), das quais a cascata das cínases
Faculdade de Medicina e IBMC, Porto, Portugal reguladas por sinais extracelulares 1 e 2 (ERKs)
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Departamento de Urologia
DOR Faculdade de Medicina do Porto, Portugal parece assumir uma importância particular no
sistema nervoso (Grewal, et al., 1999; Sweatt,
3
Neurorestoration group, Wolfson CARD, King’s College
20 London, UK 2001). As ERKs são abundantemente expressas
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