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Dor (2009) 17
editorial
Ananda Fernandes
dor pediátrica não é uma preocupação re- neurobiologia põem em evidência não apenas a
cente, embora a sua consolidação como capacidade dos recém-nascidos pré-termo sen-
A área clínica e de investigação tenha pouco tirem dor mas a sua hipersensibilidade, decor-
mais de duas décadas. Em Março passado, na rente da imaturidade dos sistemas de controlo
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o
conferência inaugural do 8. International Sym- descendente . Ainda na década de 80, come-
posium on Pediatric Pain, no México, McGrath P, çam os primeiros estudos sobre a sensitização
galardoado com o Prémio Jeffrey Lawson, traçou central resultante da dor não tratada , seguidos
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o percurso histórico da investigação da dor nas do estudo das consequências da circuncisão
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crianças , o qual me atrevo aqui a revisitar. neonatal sem anestesia e da exposição repeti-
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Nas publicações sobre a dor pediátrica até da à dor sobre as respostas fisiológicas e neu-
aos anos 70, as cefaleias e a dor abdominal rocomportamentais das crianças .
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ocupam o lugar central . O primeiro grande Nos anos 90, assiste-se a um esforço para
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alerta para o subtratamento da dor nas crianças mensurar este fenómeno subjectivo e para iden-
após a cirurgia, quando comparadas com adul- tificar nas crianças pré-verbais as respostas fi-
tos em situações idênticas, surge com o trabalho siológicas e comportamentais que melhor re-
de Eland e Anderson em 1977 ao qual Beyer, flectem a dor. Surge a reivindicação de Anand,
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em 1983 , dá seguimento. et al. de que a expressão comportamental das
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É na segunda metade da década de 80 que crianças pré-verbais deve ser considerada o seu
dois importantes acontecimentos vêm abalar a auto-relato e não uma medida indirecta de dor.
consciência social e a prática clínica vigente. O Para as crianças mais velhas, desenham-se es-
primeiro foi o caso Jeffrey Lawson, nos Estados calas que possibilitam o auto-relato da intensi-
Unidos. Nascido prematuramente às 26 sema- dade da dor.
nas de gestação, foi submetido a cirurgia cardí- Já na última década, a investigação sobre as
aca sob curarização, sem anestesia, não rece- abordagens farmacológicas, ambientais e cogni-
beu qualquer analgesia durante ou após a cirurgia, tivo-comportamentais da dor aguda aumentou de
e veio a falecer seis semanas mais tarde. Ao forma exponencial, oferecendo mais e mais se-
perceber que a dor do seu filho não fora tratada guras possibilidades de controlar a dor das crian-
e que, por isso, morrera em grande sofrimento, a ças. Também foi posta a descoberto a elevada
Sra. Lawson interpelou as organizações profis- prevalência da dor crónica na idade pediátrica.
sionais e as instâncias jurídicas, governativas e O que está hoje na ordem do dia no domínio
mediáticas do seu país. A sua veemência ao da dor pediátrica, segundo McGrath ?
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denunciar a «crueldade» a que fora sujeito o – O controlo da dor no ambulatório e nos cui-
filho não mereceu qualquer resposta oficial mas dados de saúde primários.
agitou a opinião pública e gerou controvérsia – A abordagem da dor crónica na infância e
entre profissionais. O segundo acontecimento adolescência.
constituiu, provavelmente, a grande pedrada no – O estudo dos analgésicos na população
charco. Em 1987, a revista Lancet publica o pediátrica.
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trabalho de Anand, et al. evidenciando a redu- – A translação do conhecimento produzido
ção da morbilidade em recém-nascidos pré- pela investigação para a prática clínica.
termo sujeitos a encerramento cirúrgico do canal A dor nos cuidados de saúde deve ser vista
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arterial sob anestesia, comparados com o regi- como um efeito adverso .
me habitual sem anestesia. Ironicamente, esta É desejável que se esbatam as variações da
publicação desencadeia uma queixa no Parla- prática baseadas nas preferências dos cuidadores
mento Britânico de que o autor estaria a realizar e que as práticas, seguindo normas de orientação
experimentação em recém-nascidos operando- clínica, variem antes de acordo com a individuali-
os sem anestesia. O aproveitamento mediático dade e situação dos sujeitos a quem se dirigem.
desta polémica dá ao estudo uma projecção A dor das crianças também é um problema de
internacional, com um impacto clínico que difi- saúde pública e as instâncias políticas devem
cilmente a simples publicação dos resultados assumir que o seu controlo é uma prioridade, DOR
numa revista científica teria obtido. Pela mesma independentemente do contexto ou da idade
época, também no Reino Unido, os estudos da dos sujeitos. 3

