Page 9 Volume 17 - N.2 - 2009
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Dor (2009) 17
tratados com morfina. Os autores concluíram que nenhum efeito após essa idade; a anfetamina
as alterações duradouras da sensibilidade visceral suprimiu as respostas específicas e não-específi-
não foram devidas ao stress da separação e da cas de dor apenas após a 2. semana de vida,
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anestesia, nem aos cuidados maternos, e sim aos sem efeito sedativo. Numa época (1995) em que,
aspectos relacionados com a cirurgia e analgesia na prática clínica, a sedação era ainda muitas
neonatal. Em contrapartida, a sensibilidade tér- vezes utilizada sem analgesia, os autores conclu-
mica (resposta à placa quente) estava diminuída íram que os efeitos da morfina eram qualitativa-
não apenas no grupo cirúrgico mas igualmente mente diferentes de uma dose sedativa de pento-
no da anestesia, comparados com o grupo que barbital; que havia necessidade de indicadores
apenas havia recebido injecção, sugerindo, se- que permitissem discriminar analgesia e sedação,
gundo os autores, que os circuitos nociceptivos e ainda que os dados suportavam os efeitos anal-
subjacentes às respostas específicas de dor são gésicos da morfina em recém-nascidos humanos
supra-espinhais e por isso susceptíveis às influ- pré-termo. Estudos como este terão servido para
ências do stress da separação e da anestesia, reforçar a distinção entre as indicações da anal-
quer este esteja ou não ligado à nocicepção. gesia e da sedação em recém-nascidos, promover
A constatação nos estudos animais de que as o desenho de escalas de avaliação da dor e do
experiências precoces de dor levam a altera- nível de sedação, e o uso da morfina.
ções posteriores da sensibilidade tem gerado O comportamento do animal adulto também é
estudos de coorte comparando a sensibilidade utilizado para estudar os efeitos da dor neonatal.
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térmica e mecânica de crianças em idade esco- Num estudo já anteriormente referido , os animais
lar (9-14 anos) nascidas pré-termo ou a termo que tinham recebido uma picada de agulha quatro
com experiência de internamento em cuidados vezes ao dia (N4) na primeira semana de vida,
intensivos neonatais, com controlos da mesma apresentavam uma preferência pelo álcool superior
idade nascidos a termo e sem experiência de à dos animais que tinham sido menos estimulados
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cuidados intensivos neonatais . Também nos (p = 0,004). Este resultado sugere que comporta-
estudos humanos se verificam resultados contra- mentos considerados desviantes podem ter origem
ditórios, alguns estudos apontando para respos- em alterações do SNC ocorridas em consequência
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tas aumentadas , outros diminuídas 27,28 mas em de experiências adversas no período neonatal .
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todo o caso alteradas , sendo que as diferenças É de referir, no entanto, que estes resultados não
parecem dever-se ao estádio de desenvolvimen- foram confirmados num estudo posterior .
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to/idade gestacional na altura em que o recém-
-nascido é inicialmente sujeito à dor, ao tempo respostas de stress
de internamento e quantidade de experiências Comportamentos animais como a actividade
de dor, ao tipo de estímulo (térmico ou mecânico) exploratória em campo aberto ou num ambiente
e tipo de dor (aguda ou tónica) aplicados duran- novo são utilizados como medida do desconforto
te o estudo, muito embora outras variáveis con- associado à dor e permitem estudar as conse-
textuais devam ser consideradas mediadoras. quências da dor neonatal sobre os comportamen-
tos de stress, ansiedade e agorafobia, no pres-
suposto de que as experiências precoces de dor
Comportamentos de dor alteram as respostas de stress na idade adulta.
Os comportamentos de dor específicos dos ani- Por exemplo, no estudo de Anand, et al. anterior-
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mais sujeitos a dor inflamatória incluem vocaliza- mente descrito , os ratos adultos com maior ex-
ções, lamber, morder ou sacudir a pata inflamada, posição à dor no período neonatal, colocados
levantar ou proteger a pata. O estudo destes com- num tubo de PVC escuro, demoravam mais tem-
portamentos dá pistas acerca do processamento po a sair para o campo aberto (p = 0,004) e
supra-espinhal da dor, ajudando a perceber os passavam mais tempo escondidos (p = 0,026) do
processos de maturação e as consequências a que os ratos que tinham idêntica frequência de
longo prazo da dor repetida, intensa ou prolonga- exposição a estímulo táctil não doloroso.
da sobre as estruturas mais altas do SNC. Noutro teste de resposta ao stress no mesmo
Tomamos como exemplo um estudo compa- estudo, o teste de discriminação social, foi ana-
rativo dos efeitos da morfina, pentobarbital e lisado o tempo que o rato adulto demorava a
D-anfetamina sobre os comportamentos especí- investigar (lamber, cheirar ou mastigar o pêlo)
ficos e não-específicos de dor (movimentos de um rato jovem ao qual já fora previamente ex-
contorção do tronco, sobressaltos, sacudidelas posto ou um rato jovem desconhecido. Após um
das patas traseiras) em resposta ao teste da intervalo de 120 minutos entre a 1. e a 2. ses-
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formalina, em ratos do 1. ao 20. dia de vida . são, os ratos com exposição neonatal à dor pas-
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Verificou-se que a morfina suprimiu os compor- saram mais tempo a investigar o rato desconhe-
tamentos específicos e não-específicos de dor cido do que o rato conhecido, comparados com
e produziu sedação ligeira; o pentobarbital cau- os ratos adultos sem exposição à dor, que des-
sou um nível de sedação e supressão de compor- penderam igual tempo com o rato conhecido e
DOR tamentos inespecíficos idêntico à morfina, mas o rato desconhecido. Os autores concluem que
isto se deve a retenção da memória quimiossen-
teve um efeito fraco sobre os comportamentos de
8 dor específicos antes da 1. semana de vida e sorial nos ratos expostos à dor neonatal .
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