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Dor (2009) 17
Esses estudos resultam por vezes de hipóteses da neuroanatomia e neurofisiologia da dor, assim
geradas pela observação clínica, não passíveis como os estudos sobre os comportamentos de
de serem testadas em humanos. Por razões éti- dor, relacionam os dados obtidos em ratos duran-
cas, certos tipos de experiências não são justifi- te a primeira semana de vida com os recém-nas-
cáveis em seres humanos, mesmo que haja fortes cidos humanos nascidos prematuramente após o
evidências de que os resultados poderão ser be- segundo trimestre de gestação. Por volta do 10.
o
néficos para a prática clínica. Dada a quantidade dia pós-natal (P10), o estádio de desenvolvimen-
de estudos animais que têm elucidado sobre as to do cérebro dos ratos corresponde ao dos be-
a
consequências imediatas e a longo prazo da dor bés de termo; os dados da 2. e da 3. semana
a
neonatal e gerado hipóteses acerca de interven- de vida dos ratos aproximam-se das crianças no
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ções para alívio da dor, pode ser interessante primeiro ano de vida .
para quem se move no contexto clínico ter uma Os modelos animais oferecem a possibilidade
ideia mais concreta acerca desses estudos. de manipular o tempo, a frequência e a intensi-
As principais consequências a longo prazo dade dos estímulos dolorosos de uma forma que
que têm sido estudadas em humanos, com pa- não é possível no contexto clínico, no qual o
ralelo em estudos animais, são as alterações da estudo da dor e dos seus efeitos é apenas ob-
sensibilidade dolorosa, os comportamentos es- servacional, visto que está relacionado com os
pecíficos de dor, as respostas comportamentais cuidados prestados. Os factores genéticos res-
de stress e as alterações estruturais e funcio- ponsáveis pela variabilidade individual também
nais do sistema nervoso. De grande interesse podem ser controlados em estudos animais, se-
para os profissionais da neonatologia são, tam- leccionando as estirpes. Dada esta possibilida-
bém, os estudos sobre o contacto materno e o de de controlar em simultâneo múltiplas variá-
seu efeito mediador das respostas de dor. veis, pequenas amostras podem ser suficientes
Assim, pretende-se neste artigo abordar al- para encontrar efeitos consideráveis .
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guns estudos animais que têm ajudado a com- No entanto, a relevância clínica dos estudos
preender melhor as consequências da dor neo- animais tem limitações e, tendo em conta a assin-
natal, uns mais outros menos recentes e apontar cronia do desenvolvimento das diferentes regiões
as implicações que os mesmos têm tido para a do cérebro e a enorme complexidade do compor-
investigação clínica e laboratorial em humanos, tamento humano comparado com o comporta-
assim como para a prática clínica. mento dos roedores, Johnston, et al. apontam as
questões que podem ser respondidas de forma
válida por estudos animais: os efeitos das lesões
modelos animais periféricas de diferentes tipos e intensidades sobre
Os roedores, sobretudo ratos e ratinhos, são o SNC, a duração desses efeitos, o nível a que se
um modelo útil para a investigação da dor neo- dão essas alterações – periférico, espinhal, supra-
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natal humana por três razões principais : é pos- -espinhal – e os mecanismos que as podem inibir .
sível estabelecer um paralelo entre os estádios Os estudos sobre as respostas imediatas e as
de desenvolvimento neurossensorial das suas consequências a longo prazo da exposição pre-
crias e dos recém-nascidos humanos; a sua rá- coce à dor usam o paradigma da dor aguda
6,7
pida maturação permite estudar, num curto espa- causada por picada de agulha , da dor aguda
ço de tempo, as consequências a longo prazo da inflamatória provocada por agentes químicos ou
dor neonatal; o controlo de variáveis confunden- lesão cutânea 8-11 , da dor inflamatória prolonga-
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tes é mais fácil do que na investigação humana. da e da dor por lesão de nervo .
Embora o calendário de desenvolvimento seja di- A dor aguda pode ser induzida por uma ou
ferente em ratos e em humanos, a sequência bá- mais picadas de agulha no dorso ou planta da
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sica dos acontecimentos na maturação dos siste- pata posterior ou por choques repetidos nas pa-
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mas sensoriais é a mesma em ambas as espécies. tas . A dor inflamatória, mais persistente, é obtida
Os roedores de laboratório têm uma gestação frequentemente por injecções de formalina, um
curta (cerca de três semanas) e produzem gran- agente inflamatório que produz uma reacção local
des ninhadas. As crias do rato nascem bastante moderada, de curta duração (até 60 minutos). A
imaturas, comparadas com os recém-nascidos carragenina e o adjuvante completo de Freund
humanos de termo, mas a sua maturação é rápi- (CFA) são agentes fortemente inflamatórios, que
da: as crias são desmamadas por volta dos 20 causam dor prolongada e, no caso do CFA, uma
dias, atingem a maturação sexual cerca das 6-7 activação a longo prazo das respostas imunitárias
a
semanas e são adultas perto da 10. semana semelhante à dor crónica . A dor inflamatória tam-
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(60. dia pós-natal, P60). Assim, é possível estudar, bém pode ser causada por incisão cirúrgica.
o
em alguns meses apenas, as consequências da As variáveis escolhidas para analisar os efei-
dor neonatal sobre o cérebro do animal adulto . tos da dor única ou repetida e os efeitos modu-
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O estádio de maturação dos ratinhos ao nasci- ladores das intervenções sobre os diversos tipos
mento, em termos de desenvolvimento somatos- de dor incluem, como já foi referido atrás, a
DOR sensorial e motor, é comparável ao desenvolvi- sensibilidade a estímulos térmicos ou mecâni-
cos, os comportamentos de dor, a resposta ao
mento humano por volta das 24 semanas de
6 gestação. Assim, os estudos do desenvolvimento stress, as alterações da inervação dos tecidos 8-10
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