Page 8 Volume 17 - N.2 - 2009
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A. Fernandes: O Estudo da Dor Neonatal: Dos Modelos Animais à Investigação Clínica
e a actividade periférica, espinhal e supra-espi- não se fez notar nos tempos de latência. Extrapo-
nhal de neurónios e neurotransmissores 14-18 . lando para os recém-nascidos humanos, estes
resultados sugerem que a sucção poderá ter um
a sensibilidade à dor maior efeito protector desde pouco antes do termo
o
até ao final do 1. ano de vida.
O limiar de sensibilidade térmica é geralmente Outros estudos ilustram a investigação dos efei-
medido através do teste de Hargreaves, do teste tos de agentes farmacológicos. Sabe-se que nos
da placa quente ou do teste de flexão da cauda. recém-nascidos humanos, após um primeiro estí-
No teste de Hargreaves, o rato é colocado numa mulo doloroso como a picada do calcanhar, os
caixa de acrílico transparente e um feixe de luz estímulos subsequentes, sejam novas picadas se-
vindo de baixo é dirigido à almofada de uma das jam estímulos tácteis apenas, desencadeiam hipe-
patas posteriores. A temperatura do feixe aumenta ralgesia manifestada pelo aumento do reflexo
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rapidamente e é medido o tempo de latência para cutâneo-flexor . Esta hiperalgesia pode ser rever-
um comportamento nociceptivo, isto é, até o rato tida com a utilização tópica de um creme anesté-
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levantar, sacudir, abanar ou lamber a pata . O sico . A possibilidade de evitar a hiperalgesia
teste da placa quente é semelhante mas a super- também foi estudada em animais. Por exemplo, a
fície em que o rato é colocado está a uma tempe- hiperalgesia subsequente à injecção de carrageni-
ratura constante de 50 a 60 graus Celsius. Me- na em ratos pôde ser evitada com a utilização de
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de-se, também neste caso, o tempo que o animal um bloqueio do nervo ciático com bupivacaína .
demora a apresentar comportamentos nocicepti- No que respeita à dor de intensidade modera-
vos. No teste de flexão da cauda, um feixe de luz da mas repetida, como a que ocorre no dia-a-dia
a determinada temperatura é direccionado para a dos recém-nascidos nas unidades neonatais,
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cauda do animal, que se encontra colocado numa Anand, et al. realizaram um estudo animal para
caixa estreita que não lhe permite mexer-se. O testar a hipótese de que essa dor repetida con-
tempo de latência para retirar a cauda da fonte de duziria a alterações da sensibilidade na idade
calor é cronometrado. Em todos os testes, há um adulta, dada a plasticidade do sistema nervoso
tempo limite pré-determinado de aplicação da fon- nesta fase da vida. Os ratos foram estimulados
te de calor, de forma a evitar lesões no animal. uma, duas ou quatro vezes ao dia nos primeiros
A sensibilidade mecânica é habitualmente me- sete dias de vida (P0 a P7), com picada de agu-
dida através da estimulação com filamentos de lha (estimulação nociceptiva, grupo N1, N2 e N4)
von Frey, filamentos de nylon de diversos diâme- ou com um cotonete (estimulação táctil, grupo
tros calibrados. Os filamentos são aplicados se- T1, T2 e T4). Os limiares de dor no animal jovem
quencialmente começando pelo menor calibre, (P16 e P22) e adulto (P65) foram testados utili-
até desencadear o reflexo cutâneo flexor, uma zando o teste da placa quente. O tempo de la-
resposta protectora que depende do desenvolvi- tência do grupo N4 em P16 e P22 era significa-
mento da nocicepção a nível espinhal. tivamente mais baixo do que o do grupo T4,
Os limiares de dor são frequentemente utiliza- sugerindo que a estimulação dolorosa repetida
dos para estudar as consequências imediatas no período neonatal no rato jovem levava a limia-
da dor, bem como as consequências a longo res de dor mais baixos do que a estimulação
prazo da dor neonatal repetida. táctil, muito embora na idade adulta (P65) não
Os efeitos de analgésicos e de intervenções houvesse diferença entre os grupos.
não-farmacológicas como a sucção não-nutritiva, As consequências da cirurgia neonatal sobre
muito utilizada em neonatologia, podem também os comportamentos de dor na idade adulta tam-
ser estudados medindo as variações da sensibili- bém têm sido objecto de estudo. Sternberg, et
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dade térmica e mecânica após a utilização dessas al. compararam um grupo de ratos sujeitos a
intervenções. Por exemplo, comparando ratinhos afastamento da mãe, anestesia por frio e laparo-
de idades P0, P3, P17 e P21 que tiveram sucção tomia no dia do nascimento seguida de analge-
não-nutritiva 90 a 120 segundos antes e durante sia por morfina ou de injecção de soro fisiológico,
os testes, com ratinhos que não tiveram sucção um grupo sujeito ao mesmo tratamento que o
não-nutritiva, a latência de retirada da pata à esti- anterior mas sem incisão cirúrgica, e um grupo
mulação térmica e mecânica nos ratinhos com sem separação materna, anestesia ou cirurgia
sucção era superior à dos animais sem sucção em mas apenas com injecção de morfina ou de soro
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P3 (p < 0,05), P10 (p < 0,001), e P17 (p < 0,001) . fisiológico. O grupo sujeito a laparotomia e sem
Em P0 não houve diferenças e em P21, o tempo morfina apresentou um aumento da vocalização
de sucção dos animais não foi suficiente para re- comparado com os outros grupos; as observa-
alizar os testes. No mesmo estudo, outro grupo ções do comportamento materno revelaram não
das mesmas idades foi sujeito a sucção ou não e haver diferenças entre os grupos na atenção ma-
testado 4-5 horas após uma injecção de um agen- terna dispensada às crias; quando comparado
te inflamatório (CFA). O efeito protector da sucção na idade adulta com os restantes, quanto à sen-
aumentando os tempos de latência ocorreu ape- sibilidade visceral (contracção abdominal após
nas em P10 (p < 0,001) e em P17 (p < 0,001). Em injecção de ácido acético), o grupo cirúrgico apre- DOR
P21, embora os ratos com inflamação, ao contrário sentou uma diminuição dos comportamentos de
dos anteriores, tivessem feito sucção, o efeito desta dor, efeito esse que não se verificou nos animais 7

