Page 33 Volume 18 - N.4 - 2010
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Dor (2010) 18
transcutânea (TENS), infiltrações cubital e trigger Discussão
point e apoio psicológico, com controlo progressivo O caso descrito com 14 anos de evolução,
da situação álgica, melhoria do humor e aumento demonstra o desafio que a abordagem destes
gradual da actividade (escala visual analógica doentes com SDRC nos impõe, apresentando
[EVA] 1/0,5 Dezembro de 1998). muitas vezes sucessos e retrocessos terapêuti-
Em Maio de 1999, palpitações, sendo efectua- cos de uma forma imprevisível, devido à varia-
do Holter e observado e medicado na cardiologia bilidade de progressão ao longo do tempo que
por alterações de ritmo (extra sístoles supra ven- caracteriza esta síndrome .
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triculares [ESSV] e raras extra sístoles ventricula- A SDRC é uma síndrome dolorosa que ocorre
res [ESV]), não referindo sintomatologia álgica. devido a uma complicação cirúrgica ou traumá-
Em Junho/Julho de 1999, reaparecimento dis- tica, mais frequentemente de uma extremidade.
creto da dor no membro superior direito e região Existem dois tipos de SDRC. A distinção é feita
escapular, com episódios de agravamento paro- pela ausência de lesão nervosa comprovada no
xístico ou eventualmente relacionados com a sua tipo I e da presença de lesão nervosa demons-
actividade agrícola acompanhada de sintomato- trada no tipo II .
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logia neuropática com agravamento progressivo. Este caso clínico respeita os critérios clínicos
Em Dezembro de 1999, cervicalgia, com irra- de diagnóstico resultantes do consenso de Bu-
diação ao membro superior direito, com dor es- dapeste .
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capular (compressão do aparelho de prótese?). Durante a evolução clínica inicialmente adop-
Efectuada infiltração supra-escapular e inicia tou-se por atitudes terapêuticas conservadoras
tramadol Retard. (carbamazepina, amitriptilina, tramadol), apoio
Em Janeiro de 2000, nódulo no coto, efectua- psicológico e por técnicas de infiltração da trigger
dos raios X (RX) e ecografia, neurinoma. Reava- zone de acordo com o mecanismo álgico proemi-
liação clínica e terapêutica, efectuado bloqueio nente. Devido ao carácter recidivante e dinâmico
axilar, TENS, infiltrações trigger, tendo sido pro- do quadro álgico, houve necessidade de instituir
posta ablação da lesão pelo neurocirurgia (ex- técnicas analgésicas progressivamente mais
cisão em Setembro de 2000). invasivas, tais como:
Melhorado, mantendo contudo a terapêutica com – Infiltração do plexo axilar com anestésico
gabapentina, amitriptilina e tramadol Retard 200. local e corticóide.
Em Outubro de 2001, reaparecimento da sin- – Infiltração supra-escapular com anestésico
tomatologia anterior com cerca de um mês de local e corticóide.
evolução, sendo efectuada ecografia e RX do – Excisão cirúrgica de neurinoma.
coto, apresentando neurofibroma do coto. – Neuroestimulação medular.
Em Dezembro de 2001, é proposta a neuroes- Consideramos que a neuromodulação é uma
timulação como alternativa terapêutica. opção terapêutica válida e eficaz (nível de evi-
Em Janeiro de 2002 é efectuado estimulação dência na SDRC 2 B+) , quando esgotadas to-
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o
electromedular (EEM) (1. tempo) com implanta- das as hipóteses, para tratar a dor e melhorar a
ção de eléctrodo cervical (definitivo em Fevereiro) qualidade de vida em doentes criteriosamente
com diminuição da terapêutica, suspendendo a seleccionados . A neuromodulação é uma téc-
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gabapentina em Abril de 2002, não referindo nica invasiva no tratamento sintomático da dor
queixas álgicas compatíveis com membro-fan- crónica, reversível e não-destrutiva que está in-
tasma, dor no coto ou alterações simpáticas. dicada quando fracassam todas as técnicas me-
Em Setembro de 2002 apresenta dor totalmen- nos invasivas e não existe indicação cirúrgica .
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te controlada.
Em Março de 2008, refere cervicalgias, após trau-
matismo cervical pós-queda. Efectuada tomogra- Bibliografia
fia axial computorizada (TC), tendo sido descrito 1. Van Eijs F, Stanton-Hicks M, Van Zundert J, et al. Complex Re-
no relatório, «alterações degenerativas do canal gional Pain Syndrome. Pain Practice. 2011;11:70-87.
cervical». A EEM estava funcionando de forma 2. Merskey H, Bogduk N. Relatively Generalized Syndromes,
Classification of Chronic Pain. 2. ed. Seattle, Washington: IASP
a
adequada. Foi medicado com anti inflamatórios Press; 1994. p. 40-3.
não esteroides (NAIDS) durante uma semana, 3. Harden RN, Bruehl S, Perez RS, et al. Validation of proposed diag-
com melhoria desta sintomatologia álgica. nostic criteria (the ‘‘Budapest Criteria”) for Complex Regional Pain
Syndrome. Pain. 2010;150:268-74.
A 11 de Dezembro de 2008, durante a avaliação 4. Taylor RS, Van Buyten JP, Buchser E. Spinal cord stimulation for
de rotina, foi detectada low bat. complex regional pain syndrome: A systematic review of the clinical
Posteriormente, a 11 de Setembro de 2009, and cost-effectiveness literature and assessment of prognostic fac-
tors. European Journal of Pain. 2006;10:91-101.
bat end desde há cerca de quatro dias, com 5. American Society of Anesthesiologists Task Force on Chronic Pain
reaparecimento de dor de intensidade ligeira a Management; American Society of Regional Anesthesia and Pain
nível do membro superior amputado. Efectuada Medicine. Practice Guidelines for Chronic Pain Management - An
a substituição completa do dispositivo, com im- Updated Report by the American Society of Anesthesiologists Task
Force on Chronic Pain Management and the American Society of
plantação de um electrocateter de oito pólos e Regional Anesthesia and Pain Medicine. Anesthesiology.
DOR de uma bateria de maior longevidade (Prime ), 6. Correia FD, Silva R, Ferreira T, Bebiano G. A Neuromodulação Medu-
2010;112:810-33.
®
com resolução da sintomatologia álgica. Assin-
32 tomático em Dezembro de 2011. lar. Biblioteca da DOR – Técnicas de Intervenção no Tratamento da
Dor - parte II. 2008;14:30-45.

