Page 28 Volume 18 - N.4 - 2010
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Dor (2010) 18
O Desespero e a Reacção Terapêutica
Negativa: Obstáculos no Tratamento
da Dor
Cristina Catana
Resumo
O autor, com este artigo, propõe as noções de reacção terapêutica negativa (RTN) e o desespero para reflectir
sobre os obstáculos e paradoxos como um dos responsáveis na intratabilidade da dor crónica. Estas resistências,
nestes pacientes, são a última tentativa para evitar uma maior desorganização psíquica e o desencadeamento
das angústias catastróficas. Salienta que a interpretação das defesas é da maior importância para a elaboração da
angústia catastrófica, do desespero e da reacção terapêutica negativa.
Palavras-chave: Dor crónica. Reacção terapêutica negativa. Desespero. Angústia catastrófica.
Abstract
In this article the author presents the notion of negative therapeutic reaction and despair to reflect on obstacles
and paradoxes how create the difficulties of the treatment chronic pain. The final attempt made by these
patients to avoid even greater mental disorganization and catastrophic-anxiety. The author stresses that the
interpretation of this defensive mechanism is of the foremost importance for the elaboration of the catastrophic-
anxiety, the despair and the negative therapeutic reaction. (Dor. 2010;18(4):27-30)
Corresponding author: Cristina Catana, cristinacatana@netcabo.pt
Key words: Chronic pain. Negative therapeutic reaction. Despair. Catastrophic-anxiety.
«A nossa necessidade de consolo do «happy end», e/ou a nossa tentação do «furor
é impossível de satisfazer…» curandi», conduzindo-nos à atitude de questio-
namento.
Stig Dagerman 1 Estes pacientes considerados, por nós, «difí-
ceis» que parecem padecer de dor interminável
Introdução que buscam, por sua vez, uma relação terapêutica
A prática da clínica da dor é indesmentivelmen- interminável e incondicional, tendem a criar na
equipa sentimentos de desgaste e fortes ambi-
te complexa e levanta questões de várias ordens, valências.
seja no vértice científico como no humano. Comunicam uma demanda paradoxal: «Tratem-
A escolha da reflexão do presente artigo não -me não me tratando». Alienados na dor e pela
será feita sobre os êxitos, satisfações e do que dor investem grande parte da sua energia psíqui-
somos capazes de tolerar e conter na nossa acti- ca na resistência massiva (incluindo-se na resis-
vidade. Ela ir-se-á desenvolver sobre os obstáculos tência à mudança e alívio da dor), no negativismo
e paradoxos que emergem na relação com alguns e na RTN, deixando o profissional de saúde no
pacientes que recorrem às Unidades de Dor. lugar da impotência e da incompreensão.
Não são raros os pacientes que põem em A psicanalista F. Alexandre diz que Freud na
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causa os limites do setting terapêutico; não são publicação do «Ego e Id» tenta explicar «com-
raros os que quebram o nosso espelho ilusório portamentos» inesperados e paradoxais de cer-
tos pacientes, sobretudo aqueles que «... Quan-
do se lhes dá esperança ou se expressa
Psicóloga clínica satisfação pelo progresso do seu tratamento
Unidade de Dor mostram sinais de descontentamento e o seu
Hospital Garcia de Orta, EPE DOR
Almada estado, invariavelmente se torna pior… ficamos
E-mail: cristinacatana@netcabo.pt convencidos, não apenas que tais pessoas não 27

