Page 30 Volume 18 - N.4 - 2010
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C. Catana: O Desespero e a Reacção Terapêutica Negativa: Obstáculos no Tratamento da Dor
emocional, antes que o neocórtex receba a mes- Laenecc, com uma intuição certeira referira às
ma informação e elabore a resposta racional. Num “paixões tristes, profundas de longa duração”, e
estado emocional extremo, o próprio córtex pré- que eu próprio aproximei de uma forma somati-
frontal pode ficar impossibilitado de desempenhar zada de depressão.Com efeito, a modalidade
a sua função de gestor de emoções (situação de depressiva, que acompanha a existência de um
sequestro emocional)». núcleo de terror ameaçando a própria vida psí-
Esta expressão de sequestro emocional pare- quica e contrariando qualquer real autonomia, é
ce-me bastante pertinente e não deixo de a as- o desespero: o sujeito tem o sentimento de não
sociar à vasoconstrição do espaço mental como poder senão sobreviver. Tal é o sentido do de-
uma das prováveis consequências da dor cróni- sespero».
ca. Numa situação extrema, o eu corporal mergu- Sobre a «violência do desespero», Bégoin
lhado na dor fica privado dos seus cinco sentidos associa-a ao sofrimento psíquico precoce que
e vive submetido ao primado da dor. A represen- não foi contido nem mentalizado. Estes temores
tação da realidade subordina-se à dor e cria precoces de aniquilação que não foram contidos
profundas fracturas nos vínculos psicossociais. e protegidos na relação materna, tendem a iso-
Burlux G. em «The Body and Its Pain» defen- larem-se em núcleos arcaicos com ausência do
de que toda a dor tem o carácter de uma invasão simbólico e da metáfora. Organizam-se numa
traumática, pondo em curso a emergência das espécie de «buracos negros» dominados pela
memórias traumáticas (abusos físicos sexuais e destrutividade e por angústias catastróficas. A
psicológicos, abandonos e separações traumá- pessoa vive sentimentos de queda sem limites,
ticas, etc.). Dizendo-nos, também, que «a dor é com vivências vertiginosas.
o afecto regressivo do nosso tempo». São lugares do desenvolvimento psíquico
Perante o impacto da dor, a pessoa poder-se-á onde falhou massivamente a esperança.
confrontar com desorganização psíquica e fenó- Bégoin defende que as raízes do desespero
menos de despersonalização. Se na pessoa sa- centram-se, de uma maneira geral, nos sujeitos
dia o ego identifica-se com o corpo mantendo-se cujo sofrimento precoce não foi suficientemen-
o sentimento de si e a sua identidade. Perante o te contido, tratam-se de pessoas «hipersensíveis»,
adoecer, a imagem do corpo é ameaçada, alte- por vezes «esfolados vivos», sofrendo uma de-
rada, tornando-se ela própria estranha ao ego. ficiência de «pele psíquica» .
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Temos aqui o terreno para experiências de des- Adiantando que: «Penso que existe, em todo o
personalização, para a nostalgia do self saudável ser humano, um núcleo mais ou menos secreto
e do «eu ideal». Instala-se o terreno para o luto de desespero, em relação às partes do self que
de si próprio. não puderam encontrar as condições suficiente-
Alguns pacientes parecem sujeitos atormenta- mente boas que lhes teriam permitido desenvol-
dos, incapazes de se defenderem adequadamen- ver-se. São partes traumatizadas do self Infantil».
te das vivências traumáticas. Estes pacientes Em alguns pacientes com vivência de dor in-
revelam uma incapacidade de pensar, ficando tensa crónica, podem vir a sofrer a derrocada
ávidos e desorganizados. Estas angústias catas- das suas defesas psicológicas a par da desor-
tróficas remetem para fenómenos de desper- ganização e regressão psíquicas. Desesperam
sonalização e regressivos. Ficam adesivos na e fazem desesperar o outro, nos seus movimen-
relação com os seus terapeutas, vivendo os tem- tos de sobrevivência. São os pacientes que se
pos que intervalam as consultas ou a perspec- relacionam com o limite: do seu e dos terapeu-
tiva de alta como eminente catástrofe. Apelam a tas. A dor é vivida como experiências de limite
relações de dependência parasitária como uma e de incompatibilidade. Levam o outro ao limite.
forma de sobrevivência. Colocando problemas sérios na relação terapêu-
Tendem a idealizar o terapeuta de forma mes- tica. Estabelecem um jogo da confirmação de uma
siânica (embora por melhor que ele seja nunca teoria interna, entre o medo de ser abandonado
o satisfará). São inconsoláveis como nos refere e levar o outro a agi-lo (afinal eu tenho razão,
Dagerman, vivem no fio da navalha no registo não vale a pena).
da precariedade humana. As expectativas ten- No meu entender, a tolerância também tem os
dem a ser irrealistas e irrealizáveis. seus limites, caso cresça para níveis omnipoten-
Mas interroguemo-nos: criamos expectativas, tes cria-se terreno para o intolerável. Somos tera-
falamos e pensamos do lugar onde estamos. peutas mas não somos omnipotentes, cabe-nos
Que lugar será este? tolerar que nem tudo é tolerável e realizável.
Que lugar será este onde se gera a dor do Nesta medida, o terapeuta não deixará de se
inconsolável? oferecer para uma nova relação, enquadrada
Não será o lugar do desespero? num setting pré-estabelecido. Impera a escuta
O psicanalista J. Bégoin em «Do Traumatismo da dor na sua historicidade e inerente subjecti-
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do Nascimento à Emoção Estética» (1989) re- vidade. Trabalhar a consciência da dor – que não
corda a intuição de Laennec: «Tais eram, por é a própria dor – é trabalhar o conhecimento e
exemplo, tipicamente as situações que encon- análise dessa dor. O conhecimento e análise da DOR
trávamos outrora, antes da era dos antibióticos, identidade da pessoa que a sofre, que passa pela
nos sujeitos atingidos pela tuberculose pulmonar… análise da dinâmica consciente/inconsciente. 29

