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conseguem suportar qualquer elogio ou aprecia- seguidamente sobre alguns aspectos psíquicos
ção, mas que reagem inversamente ao progresso que estão na sua origem.
de tratamento. Toda a solução parcial, que de- Sandler J (1973) atribui à RTN o valor de uma
veria resultar, e noutras pessoas realmente resul- síndrome específica distinta de outras formas de
ta, numa melhoria ou suspensão temporária dos resistência ou de atitudes negativas que se po-
sintomas, produz novos por algum tempo, e uma dem encontrar no desenrolar do tratamento.
exacerbação das suas moléstias: ficam piores Poder-se-á conceptualizar a RTN como um indi-
durante o tratamento, em vez de ficarem melho- cador de turbulência emocional mergulhada nas
res… exibem o que é conhecido como reacção angústias de cataclismo, emergentes do incons-
terapêutica negativa» . ciente. Não deixa de ser um indicador da proxi-
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Ao abrir as portas para a compreensão dos midade de angústias arcaicas onde se inscre-
fenómenos psíquicos subjacentes a este tipo de vem porventura traumatismos primevos que não
resistência, Freud reconhece-lhe uma tenaz con- foram transformados pela mentalização.
flitualidade intrapsíquica ligando-a a sentimen- (Os psicoterapeutas sabem que estão próxi-
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tos inconscientes de culpa . mos de áreas de trabalho minucioso de elabo-
E a realidade destes pacientes confirma o po- ração e integração dos aspectos clivados da
der destrutivo da culpabilidade de se poder mudar mente. São necessárias: prudência, confiança e
para melhor, para o alívio da dor, e abandonar coragem).
a posição do sofrente: os punidos pela dor. Esta Neste sentido, vários autores concebem este
questão poder-se-á ligar ao masoquismo, ou fenómeno da RTN como uma defesa psicológica
melhor, ao padrão vinculativo sadomasoquista. que se opõe à mudança e às consequências
E como o sabemos, é dos vínculos mais resis- desta. Bion fala das defesas que se organizam
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tentes à transformação. contra uma ameaça latente terrífica: angústias
Na experiência na dor crónica, surgem-nos catastróficas.
pacientes que parecem estar «em carne viva», A mudança (ainda que boa) para o paciente
ou «num colete de forças de contracção mus- pode ser vivida como uma «mudança catastró-
cular», para os quais a dor é o primado da sua fica», para a qual ainda não se sente preparado.
vida, uma espécie de matriz: unidade álgica que Resta resistir à mudança e insistir no sintoma.
a partir da qual organizam a sua vida e as suas Bion defende que existe um estado primordial
relações psicossociais. psicossomático dos medos (ao nível subtalâmico),
Wilde, em «De Profundis», acerca da imutabi- das emoções inconscientes que não puderam
lidade da dor, diz: «O sofrimento é um longo ser mentalizadas e toleradas. O sujeito fica refém
momento. Parece à volta de um centro de dor de um funcionamento rígido.
(…) Para nós há somente uma estação, a esta- Estamos perante núcleos mentais arcaicos
ção da dor. O próprio Sol e a própria Lua pare- inconscientes inacessíveis à palavra e à consci-
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cem ter-nos sido roubados» . ência. A palavra não fala. A palavra é circular e
O sentimento do «todos me devem» parece esvazia o discurso. A metáfora ainda é inaces-
mascarar outras dores escondidas: o ressentimen- sível. A linguagem ainda falta e é a falta.
to da falta e frustração, a infância roubada. Na nossa prática, acontece com alguma fre-
Pacientes que fazem sentir o outro culpado e quência, ficarmos retidos neste impasse cogni-
eles próprios têm uma necessidade inconscien- tivo e emocional do paciente. Nesta relação,
te de se sentirem doentes. Tendem a hipervalo- facilmente sentimo-nos intoxicados com a impo-
rizar os efeitos secundários e assinar a lógica da tência e com o vazio. Porventura serão o vazio
«pior a emenda do que o soneto». Emergindo-se, e a impotência projecções que o paciente nos
deste modo, a vulnerabilidade para o ciclo vicioso comunica. Mas, paradoxalmente, também senti-
do impasse: se se trata o paciente este sente mos que há uma parte do paciente que se de-
que estão a castigá-lo com os efeitos adversos bate contra ventos e marés para conquistar um
da terapêutica, se não se trata este sente que o lugar, o seu lugar, que ainda não lhe foi dado.
negligenciaram com o abandono. Ele repete comportamentos e padrões de forma
Como gerir emocionalmente estes aspectos estereotipada, sem ter consciência. Resiste, repe-
difíceis e os vários tipos de negatividade comu- te mas com uma esperança implícita, de um dia
nicados à equipa terapêutica? poder compreender o(s) seu(s) desconhecido(s).
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É uma questão que paira! Ribeiro , Professor de Psicologia da Universi-
dade do Porto, (2003) em «O Corpo que Somos»
Reacção terapêutica negativa e o desespero diz que: «LeDoux descobriu, nos anos 80, o cir-
cuito neuronal destas respostas emocionais que
«A riqueza e o prazer pareciam-lhe tragédias escapam ao controlo racional. Trata-se de um
bem maiores do que a pobreza e a dor.» autêntico curto-circuito: um pequeno grupo de
neurónios que liga directamente o tálamo à amíg-
Oscar Wilde dala, suprimindo a passagem pelo córtex que faz
DOR Neste momento, proponho reflectir um pou- parte do circuito normal. Esta espécie de “atalho
neuronal” permite à amígdala receber informa-
28 co sobre a evolução do conceito da RTN e ção dos sentidos e emitir logo uma resposta

