Page 40 Volume 20 - N2 - 2012
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C. Morgado, I. Tavares: Os Efeitos da Neuropatia Diabética em Componentes Centrais do Sistema de Modulação da Dor
De facto, a atividade neuronal do tálamo e PAG, particular de moléculas terapêuticas que previ-
áreas que recebem informação proveniente da nam ou corrijam a ativação microglial e o stress
medula espinhal, encontra-se significativamente oxidativo na medula espinhal.
aumentada em animais com NDD 4,6,9 . É provável Possivelmente em consequência da hiperati-
que o aumento da atividade neuronal no tálamo vidade neuronal na medula espinhal durante a
contribua também, de forma indireta, para o au- NDD, verifica-se um aumento significativo na ati-
mento da ativação neuronal na PAG, uma vez vidade dos neurónios da PAG. Como a PAG está © Permanyer Portugal 2012
que o tálamo comunica com áreas corticais e envolvida na transmissão rostral de informação
subcorticais que ativam vias de modulação des- nociceptiva e na modulação descendente da
cendente da transmissão nociceptiva que proje- mesma, o aumento da informação nociceptiva
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tam para a PAG . Dessa forma, verifica-se um provinda da medula espinhal deverá, por sua vez,
aumento no recrutamento dos neurónios da PAG, recrutar neurónios da PAG que projetam para o
concordante com a hiperatividade neuronal na RVM e para o A5. Efetivamente, a atividade dos
PAG dos animais diabéticos , que utilizando o neurónios serotoninérgicos do RVM e dos nora-
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RVM e os grupos noradrenérgicos da ponte como drenérgicos do A5, que projetam para o corno
estações de retransmissão, modulam a atividade posterior da medula espinhal esta aumentada,
espinhal. O aumento da atividade dos neurónios com incremento dos níveis de serotonina e no-
serotoninérgicos do RVM e noradrenérgicos do radrenalina na medula espinhal . Contudo, a
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A5, bem como os níveis aumentados de seroto- ação da serotonina e noradrenalina parece estar
nina e noradrenalina na medula espinhal deteta- alterada durante a diabetes, uma vez que o au-
dos em animais diabéticos, reforçam a hipótese mento dos níveis destes neurotransmissores não
dum aumento de ativação das vias serotoninér- induz alívio da dor. De facto, seria de esperar
gicas e noradrenérgicas de modulação descen- que um aumento de serotonina e noradrenalina
dente da dor . A demonstração de que este a nível espinhal induzisse analgesia, o que não
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recrutamento de mecanismos de modulação se verifica durante a NDD. A ausência de efeitos
descendente não se traduz em inibição da trans- analgésicos pode dever-se:
missão nociceptiva na medula espinhal aponta – À reduzida disponibilidade dos neurotrans-
para a existência de comprometimento da neu- missores na sinapse por alterações no pro-
rotransmissão serotoninérgica e noradrenérgica cesso de exocitose.
espinhal na NDD. É, assim, importante avaliar os – Ao facto da serotonina poder estar a atuar
mecanismos associados às alterações das preferencialmente em recetores que despo-
ações mediadas pela noradrenalina e serotonina letam uma ação excitatória e este efeito
nesta condição de dor crónica. sobrepor-se aos desencadeados pelos efei-
tos inibitórios da noradrenalina.
Conclusões – Ao facto das alterações locais nos mecanis-
mos excitatórios e inibitórios, como as eviden-
A dor associada à neuropatia diabética não se ciadas para o sistema GABAérgico, afetarem
resume apenas às alterações dos nervos perifé- a ação inibitória destes neurotransmissores. Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação.
ricos, mas engloba um conjunto de alterações No que respeita a este último ponto, é impor-
funcionais que afetam componentes centrais do tante salientar que uma das vias de ação da no-
sistema de controlo da dor. A diabetes induz radrenalina é por ligação aos adrenorreceptores
hiperatividade e hiperexcitabilidade dos neuró- α1 e consequente libertação de GABA . Consi-
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nios nociceptivos da medula espinhal que po- derando o efeito excitatório do GABA durante a
dem explicar a dor espontânea, alodinia e hipe- NDD, conforme dados acima revistos, os altos
ralgesia características da NDD. Para tal níveis de noradrenalina podem estar a exercer
alteração funcional parece contribuir a potencia- um efeito excitatório de forma indireta, via ação
ção dos mecanismos excitatórios locais, media- pós-sináptica do GABA.
dos pelo glutamato e SP 24,25 , conjuntamente com Coletivamente, os achados apresentados nes-
a perda de inibição local mediada pelo GABA, ta revisão apontam para a necessidade de de-
glicina e opióides 26,31,35-38 . As alterações do pa- senvolver novos fármacos que previnam as alte-
pel inibitório do GABA durante a NDD poderão rações neurobiológicas encontradas no sistema
dever-se à diminuição da expressão de KCC2 nervoso central durante a diabetes.
na medula espinhal induzida pelo aumento da Apoio: trabalho realizado com apoio financeiro
ativação microglial e pelo stress oxidativo 31-33 . A do Projeto PTDC/SAL-NSC/110954/2009 e do
administração de minociclina, um inibidor espe- Projeto de investigação científica na pré-gradu-
cífico da microglia, e o tratamento com ácido ação IJUP/UNICER.
α-lipóico, um potente antioxidante, normaliza ou
melhora a expressão de KCC2 na medula espi- Bibliografia
nhal de animais diabéticos, apresentando efei-
tos benéficos na nocicepção 32,33 . Assim, fica 1. Holt R, Cockram C, Flyvbjerg A, Goldstein B, eds. Textbook of Dia-
a
evidente a necessidade do desenvolvimento de betes. 4. ed. Oxford: Wiley-Blackwell; 2010. DOR
fármacos direcionados para a prevenção/corre- 2. Malik R, Veves A. Pathogenesis of human diabetic neuropathy. Em:
Veves A, Malik R, eds. Diabetic neuropathy: clinical management.
ção dos fatores fisiopatológicos da NDD, em 2. ed. Humana Press; 2007. 39
a
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