Page 34 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Rui Miguel Rosado : Ouvir a dor
sidade mais profunda que a pessoa experimen- A autenticidade necessita ser constantemente
tava, necessidade de ser ouvida e aceite na sua enriquecida com a análise e a reflexão que me
experiência de sofrimento. permite ser um observador de mim próprio, ob-
Nós, como técnicos, temos sentimentos e servador do que sou como pessoa, do que faço
emoções, mas a tomada de consciência des- e porque o faço, aceitando por vezes que o que
ses sentimentos tem de permitir a correcção da fiz pode não ter sido o mais adequado mas que
vontade de pôr em prática alguma intervenção fui atento à mensagem que me foi transmitida
mais tendenciosa para nos levar a utilizar e ex- pela outra pessoa.
primir o que sentimos de uma forma útil para a Na continuação do acompanhamento desta
pessoa que necessita de cuidados. utente na unidade de dor fomos confirmando a
O facto de os técnicos sentirem coisas diferen- sua grande necessidade de ser ouvida e aceite
tes perante pessoas diferentes deve estimular o como pessoa, com capacidade de intervenção
conhecimento sobre nós próprios para facilitar e de ser útil.
uma maior compreensão das pessoas de que Foi sujeita a terapêutica analgésica por via
cuidamos e sustentar a procura das atitudes e sistémica e local, tinha melhoras e recidivas.
comportamentos mais úteis ou adequados para Piorava, sobretudo quando algum incidente
as situações em presença. familiar lhe aumentava a ansiedade.
É fácil teorizar, mais difícil interiorizar modelos Sempre que recorria à unidade procurávamos
de relação, mas difícil mesmo é pôr na prática dar-lhe a atenção possível. Procurámos conhe-
diária, antes e depois do almoço, as atitudes e cê-la melhor, e com ela e com a família saber
comportamentos preconizados pelos modelos quais as situações em que se queixava menos
que, em contextos académicos, aprendemos e quais os seus hábitos preferidos.
como sendo os ideais. No dia a dia a nossa Não obedecia aos horários propostos por
atenção é muitas vezes desviada para a nossa nós e aparecia sempre que a dor aumentava,
vida pessoal ou para o cansaço físico, traímo- vinha sem a companhia ou o consentimento da
nos na expressão, porque olhamos para o reló- filha, trazida pelo desespero, exibindo o braço
gio, espreitamos pela janela ou perdemo-nos a queixoso à frente do corpo como se fosse um
planear a tarefa que vamos fazer a seguir. salvo-conduto, para passar à frente de tudo e
A teoria dá-nos segurança porque nos permite de todos e chegar até à unidade.
o recurso ao modelo quando sentimos o descon- Assim que nos sentávamos a ouvi-la, o seu
forto da incerteza, da dúvida da avaliação ou até desespero acalmava mesmo antes de lhe ini-
do fracasso de uma interacção. ciarmos qualquer terapêutica. Aos poucos a dis-
Nas situações profissionais do dia-a-dia é-me tância física que nos separava do seu braço foi
difícil saber se aplico ou não os modelos de diminuindo e foi-nos permitindo tocar-lhe, muitas
relação aprendidos. No entanto, a teoria pode vezes sentia como se fosse um terceiro ser que
introduzir a diferença, pela possibilidade de sus- estava connosco, contemplávamo-lo procuran-
citar a interiorização de dimensões que facilitam do aliviá-lo das mais diversas formas, inclusiva-
uma actuação mais reflectida e possivelmente mente a massagem foi por vezes uma forma de
mais eficaz, muitas vezes à custa da reflexão intervenção. Passado este primeiro momento de
posterior, com calma, sobre um turbilhão de ajuda, falava-nos das suas preocupações, dos
sensações vividas à pressa na interacção. filhos e dos netos. E aqui dava-nos as lágrimas
Entrar “em relação com” é aceitar lidar com o que trazia guardadas e que dizia não poder
imprevisto. De cada vez sou tocado pela pes- chorar em casa, porque não a deixavam.
soa, pela maneira como a pessoa fala de si, faz Inserimo-la num grupo de terapia ocupacional.
referência à sua vida, à forma como refere a sua Aí, ela esquecia completamente a sua dor; não
dor e ao significado que lhe dá. se limitava a adoptar uma postura passiva ou de
Para lidar com o imprevisto recorro à auten- colaboração nas actividades por nós propostas,
ticidade. Esta atitude é aquela que me é mais procurava mesmo liderar o grupo e até boicotar
fácil mobilizar e todas as outras surgem depois, as sugestões propostas por quem o orientava.
à medida que estou mais à vontade na situação, Descobrimos que as suas queixas melho-
mais seguro e também conhecendo melhor “o ravam substancialmente quando os filhos se
problema”. organizavam e lhe proporcionavam estadias
A disponibilidade para ouvir a história nova prolongadas na terra, naquela que fora a sua
e única que cada pessoa traz é que faz com casa durante muitos anos, onde tinha os amigos
que toda a situação seja agarrada com autenti- e recordações de outros tempos e de alguns
cidade – que Chalifour (1989) define como um que já tinham morrido.
estado de acordo interno entre o que a pessoa Escolhi falar desta experiência por ter sido
é realmente, o que pensa e sente e o que co- tão significativa, por me ter revelado de uma
munica. maneira intensa que cuidar pressupõe três di-
Para que esta atitude seja realmente vivida e mensões: um determinado contexto institucional,
DOR comunicada à pessoa de uma forma útil é ne- neste caso a unidade de dor, que favorece um DOR
cessário autoconhecimento e a capacidade de
ambiente de escuta e atenção à pessoa; os va-
32 discernir o que deve ser comunicado. lores da profissão, neste caso a enfermagem e 33
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