Page 32 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Rui Miguel Rosado : Ouvir a dor
queixas; era preciso ouvir, como se fosse a pri- Chegada à sala, olhou com alguma surpre-
meira vez, a forma como este doente exprimia sa para as paredes decoradas com quadros
a revolta e contava a adaptação a uma série de e estantes com livros, plantas e uma série de
experiências que normalmente coabitam com a adornos pouco usuais em gabinetes de consul-
dor crónica. tas hospitalares; com outro suspiro sentou-se,
Ultrapassado o curto espaço que separa a fazendo a filha o mesmo.
sala de trabalho do secretariado, encontrei, Disse-lhe: “Então, cansada!?” Acenou-me que
junto ao balcão do mesmo, duas mulheres sim com a cabeça e, pegando no braço como
com idades a rondar, respectivamente, os 70 se segurasse uma arma, pousou-o com todo o
e os 40 anos, a mais idosa apoiando-se na mais cuidado em cima da pequena mesa que estava
nova. no centro de nós os três.
Vestidas modestamente, denotavam algum Olhei para o braço e olhei-a na cara. Fiz-lhe
desalinho nos cabelos, resultante duma tarde a pergunta habitual: “Então, fala-me da sua
ventosa de Março. dor?” Senti alguma surpresa no olhar, pergun-
A mais idosa demonstrava alguma ansieda- tou-me: “Quer saber mesmo?” Confirmei com
de no olhar, procurando em todas as fardas um sim de cabeça, e com um sorriso, olhan-
brancas que ali passavam quem deveria vir ao do-a fixamente de frente, estava a começar a
seu encontro, ao mesmo tempo que protegia o gostar dela. De início teve um discurso um
braço direito colocando-o numa posição que pouco complexo, que eu tive dificuldade em
me parecia incómoda: mantinha-o suspenso e compreender e memorizar; procurou palavras,
afastado do corpo, não o apoiando em nada, iniciou frases, tudo num curto espaço de tem-
impedindo apenas, cuidadosamente, que tocas- po, dando a impressão que queria ansiosa-
se no que quer que fosse. mente escolher a melhor forma de aproveitar
Antecipámos o encontro com um cruzamento esta oportunidade para falar do que a inco-
de olhares. Percebi que era a doente do pro- modava.
cesso que eu tinha na mão e apresentei-me às Pareceu-me que não lhe faziam com frequên-
duas, chamando a mais velha pelo nome, em cia esta pergunta.
tom de interrogação. Entendi no seu olhar a É possível que amigos, familiares e até mes-
vontade de me avaliar. mo técnicos de saúde, com a melhor das in-
Confirmou com um “pois sou” e um suspiro. tenções, tentassem com mais frequência desviar
Imagino-lhe os pensamentos – é este que me a atenção da dor do que disponibilizar-se para
vai ver… –, e perguntei se se sentia cansada, ouvir falar dela. A resposta surgiu: “Dói-me tudo”,
uma vez que me pareceu mais uma situação de resposta não focalizada na especificação de uma
desconforto do que uma dor forte naquele mo- dor física mas, parece-me, relativa ao sofrimento
mento. “Muito, Sr. Dr.” Corrigi, dizendo que era que envolvia esta dor.
enfermeiro e fui objecto de mais uma prolonga- Não era a primeira vez que ouvia esta respos-
da observação, mas ficámos por ali. ta; será que tinha o mesmo significado que as
Mãe e filha, agarradas pelo braço, formavam outras, uma hipervalorização do que sentia, uma
um bloco único que rodava de uma só vez, fi- chamada de atenção?
cando de costas para o guichet do secretariado Se banalizei esta resposta, se não lhe dei o
e de frente para mim, na extremidade direita valor que lhe está implícito, foi porque me perdi
o braço direito da mãe suspenso e na outra o a admirar em pormenor as rugas da sua face,
braço esquerdo da filha segurando um saco como se cada uma fosse uma palavra, uma
plástico cheio de exames e caixas de medica- experiência de vida. Cada uma tinha um sig-
mentos. nificado, uma história, no seu conjunto eram a
Levei algum tempo a perceber aquela dinâ- expressão da dor.
mica: a filha preocupava-se em segurar a mãe, Uma das coisas que inicialmente me cativou
que me parecia receptiva a este apoio mas, ao nesta pessoa foi a sua forma de comunicar com
mesmo tempo, defensiva, distanciando-a relati- o corpo, o que funcionou várias vezes como
vamente ao seu braço doente, impedindo-a que agregador e desagregador da relação: agrega-
ela ou alguém lhe tocasse. dor porque se expressava fielmente numa forma
A forma que encontrei de poder ajudar nesta não verbal, desagregador quando me distraía, a
situação foi oferecer-me para pegar no saco adivinhar as mensagens dos pormenores des-
plástico com os exames, visto que considerei alinhados do seu corpo.
ser ainda precoce qualquer intervenção através Percebi que devia estar pouco atento e que
do toque naquele corpo tão tenso e defensivo. qualquer expressão minha devia denunciar isso.
Precisava de mais tempo para compreender Empenhei-me em olhá-la de frente e a partir da-
aquela sinergia. qui senti que um desvio do olhar, uma consulta
Chegámos rapidamente à sala enquanto ao relógio ou até mesmo um escrever no proces-
mentalmente procurava a melhor forma de dar so, punha em risco a relação de confiança que
DOR a entender à doente que eu estava a esforçar- se estava a construir. DOR
Falou-me das suas queixas físicas: a dor
me por compreender o seu desconforto, tinha
30 estado atento à mensagem. no braço começava na ponta dos dedos, su- 31
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