Page 31 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Rui Miguel Rosado : Ouvir a dor
Dor (2003) 11
Ouvir a dor



Rui Miguel Rosado








Resumo
A partir da apresentação de uma situação de entrevista a uma utente com dor crónica é abordada a com-
plexidade dos elementos presentes na relação de ajuda, com especial ênfase para os aspectos relacionados
com a pessoa que ajuda. Sublinha-se a importância do conhecimento que esta tem de si própria de forma
a consciencializar a sua comunicação verbal e não verbal e a utilizá-las de forma útil para a pessoa que
necessita de ajuda.

Summary
Based on the presentation of a situation of an interview with a patient suffering from chronic pain, we
approached the complexity of the elements presented in relationship to her pain with special emphasis on
the aspects related to the helper. We looked into the importance of her own knowledge in the way of self-
recognition of her verbal and non-verbal communication and to use it in a useful and helpful way.





Inicialmente, entusiasmou-me a ideia de es- tes e acompanhantes, com marcação de consul-
crever sobre o tema ”como ajudar o doente com ta de primeira vez para a unidade de dor.
dor“. Com a minha experiência de alguns anos Do secretariado informaram-me que podia co-
de trabalho na unidade de dor, sentia que havia meçar os atendimentos. Saí da sala com a in-
muito que dizer: falar dos aspectos técnicos, da tenção de receber o primeiro doente. Tinha aca-
equipa multidisciplinar, da importância da relação bado de almoçar e sentia alguma prostração,
no atendimento destes doentes e das famílias. que o café ainda não conseguira recompor.
Depois, mais reflectidamente, surgiu-me a Enquanto atravessava o hall que dá acesso
complexidade da abordagem que caracteriza ao secretariado onde estava o doente e onde
o trabalho com estes doentes – complexida- se encontravam também outras pessoas, des-
de que envolve o processo de tratamento, as viei o olhar para o chão, numa tentativa de me
pessoas e o sentido que tem a dor para cada consciencializar de que tinha de me concentrar
uma delas, o contexto em que nos encontramos e procurar mobilizar a minha atenção para
quando estamos a cuidar dos doentes, os con- observar pela primeira vez alguém que com
hecimentos técnicos que possuímos. Na minha certeza traria queixas, uma história, uma perso-
opinião, torna-se difícil transcrever para o papel nalidade única, uma doença. Foi a preparação
um trabalho que, na sua vivência diária, é tão rápida e possível naquele dia conturbado de
complexo. tratamentos da parte da manhã, a maior parte
Descrever, de forma bem estruturada e deles imprevistos.
abrangente, como se deve ajudar um doente Assolou-me a dúvida se conseguiria fazer um
com dor, parece-me difícil devido à diversidade bom acolhimento ou se seria traído pela pros-
de situações que nos surgem e pelo facto de tração e alguma inércia que me prendia aos
muitas vezes o fazermos de forma mais sentida acontecimentos vivenciados na parte da manhã.
do que planeada. Brevemente deveria mobilizar o máximo da
Optei por fazer o relato e a caracterização de minha disponibilidade para me envolver atenta-
uma situação, descrevendo o “acolhimento” e mente e partilhar mais uma experiência de dor.
a intervenção que foi realizada, assim como os Já tinha consultado o processo clínico da do-
resultados e a minha reflexão ao longo deste ente e o diagnóstico da sua doença. Tratava-se
processo. de uma pessoa com diagnóstico de dor pós-
Terça-feira, cerca das 14 h, no secretariado do herpética, com um longo percurso por vários
piso 8 do hospital, encontravam-se alguns doen- médicos, centros de saúde e hospitais do norte
e centro do país.
DOR Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica partida que não me deveria deixar influenciar DOR
Ao preparar-me para esta interacção sabia à
30 Enfermeiro Chefe. Unidade de Dor por relatos anteriores de outros doentes, outras 31
do Hospital Garcia de Orta, SA, Almada
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