Page 33 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Rui Miguel Rosado : Ouvir a dor
bia-lhe ao ombro e tomava-lhe o corpo todo, quecido durante todo este tempo no centro de
apanhava-lhe a cabeça e tomava-lhe as nós os três e apoiado sobre a secretária. Disse
pernas. Correu muitos médicos, todos eles tocando levemente com as pontas dos dedos da
muito simpáticos mas não lhe tiraram a dor. outra mão “parece que adormeceu agora”.
Deram-lhe pomadas, fizeram-lhe infiltrações Acabada a consulta de enfermagem a doen-
e até lhe deram comprimidos para dormir. te foi conduzida para outra sala onde se pro-
Aquilo foi mal que lhe fizeram, foi inveja, por- cessaria a consulta multidisciplinar constituída
que tinha uma família muito feliz. Quando a por profissionais de várias especialidades que
dor era mais forte apertava-lhe na garganta, estavam reunidos à volta duma mesa oval de
aumentava a intensidade e atingia um valor madeira. Eu já tinha dito antecipadamente
superior a 10, na escala visual analógica, que qual era a minha percepção da dor desta
lhe dera para quantificar a sua dor. doente.
Disse-me que essas crises duravam muito Entramos. A doente, apoiada pela filha, mos-
tempo, mais à noite e quando estava só. Loca- trou-se novamente surpreendida com a deco-
lizou sem hesitar a sua dor, pintando no esque- ração da sala e o número de pessoas à volta
ma do corpo humano que lhe dei, toda a parte da mesa. Após uns breves segundos em que
superior na face anterior e posterior. olhou atentamente para tudo e todos à sua volta,
Na alma, sentia a dor de uma família separa- sentámo-nos os três.
da, porque todos se tinham casado e saído de Do grupo de médicos, houve um que se diri-
casa e da terra onde moravam, em Aveiro; e giu a ela e com um sorriso perguntou-lhe: “Então
tinha muitas saudades de lá, porque tinha vin- conte-me lá onde é que lhe dói.”
do viver para Almada, para casa de uma filha A resposta pronta foi “O senhor doutor não
casada. vai acreditar. O senhor enfermeiro acredita”,
Trabalhar, não podia, não podia fazer nada, apontando para mim com a mão do braço sau-
era um embaraço para a família e ela não po- dável.
dia ajudar. Medos, não tinha, sabia que aquilo Surpreendeu-me esta afirmação, pois em al-
não era uma doença má; tinha medo, sim, que tura alguma eu tinha verbalizado que acreditava
a neta não acabasse o curso, que acontecesse ou não na sua dor.
alguma coisa à filha e ao genro e de nunca mais Tinha ficado com a sensação de que me tin-
voltar à terra. ha disponibilizado para ouvir a história de uma
Da morte também falou como alternativa a pessoa, e tinha gostado demais, o que quase
tanto sofrimento. me inquietava como atitude profissional.
A sua dor já tinha sido motivo de alteração Porque nos recordamos de determinados
de alguns projectos da família e, directa ou doentes quando procuramos a recordação de
indirectamente, tinha adiado a data do casa- uma história? Porque é que empatizamos mais
mento do filho mais novo, desorganizado e com uns do que com outros? Entusiasmar-se
organizado grupos dentro da família alargada ou não pelo doente será correcto? E o que é o
de forma a ter o maior número de pessoas ao entusiasmo desejável?
seu redor. Afinal, o que fez com que a utente sentisse
Ouvi a sua dor, esforcei-me por me concen- que eu acreditava na sua dor? Ou, dito de outra
trar nos seus relatos; durante alguns momentos maneira, o que me fez entrar em relação com a
falou com uma tristeza enorme e por vezes com pessoa que me falou da sua dor?
algum entusiasmo, quando falava do passado E como posso reflectir a situação a partir dos
feliz, mas que tinha perdido. modelos teóricos de relação de ajuda que nor-
Ouvi, à velocidade que as descrições de- teiam a minha conduta profissional?
correram. Tive a sensação de ter feito poucas Surpreendido pela expressão “acredita na
intervenções. Libertei-me dessa preocupação e minha dor” e pela consciência de que poucas
entreguei-me ao prazer de adivinhar o que ela palavras tinham sido ditas, a minha reflexão foi
não dizia, ler nas entrelinhas e deliciar-me com no sentido do que tinha sido comunicado atra-
as suas expressões. vés da linguagem do corpo.
Empenhei-me mais num trabalho de postu- Ao longo de toda a interacção fui-me cons-
ra corporal correcta de modo a captar a sua ciencializando dos pensamentos e emoções que
atenção e demonstrar disponibilidade e acei- estava a sentir e em simultâneo da necessidade
tação sobre o que me era dito, deixando-me de estar presente com qualidade no contacto
entregar à sua capacidade de sedução do olhar com a pessoa que tinha à minha frente. Tive
e das palavras. consciência que a continuação ou não da
Tirando as perguntas directas que eu lhe fiz comunicação por parte da utente dependia
e as tentativas frustradas das interferências da do meu olhar, da minha expressão facial, dos
filha ela dominou todo o tempo da consulta. meus gestos e da distância relativa entre nós
Quando procurei dar por terminado o tempo que demonstrava também a importância do
DOR desta entrevista, demonstrando-o com um gesto braço, materializando a dor. DOR
Parece-me que o resultado desta interacção
de fechar o processo e reunir os papéis, olhou
32 para o braço imóvel que tinha permanecido es- foi a capacidade de interagir ao nível da neces- 33

