Page 30 Volume 11, Número 4, 2003
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Dor (2003) 11 Sandra Jones Deodato: Cuidar o doente com dor: uma breve reflexão

Cuidar o doente com dor:


uma breve reflexão



Sandra Jones Deodato




A dor está ligada ao homem desde os primór- mano à soma das suas partes, defendendo uma
dios da humanidade. O significado que lhe tem sido actuação apenas ao nível “da função orgânica ou
atribuído varia com as crenças e valores de cada mental, do órgão, tecido ou célula, isolada do seu
povo, mas é, indubitavelmente, uma das principais “todo” (Colliére, 1999:239). Por este motivo a nossa
fontes de sofrimento que atormentam as pessoas. preocupação pela objectividade tem-nos dificultado
É um fenómeno cuja complexidade não se esgota a própria reflexão sobre a natureza dos cuidados a
na consciência de um estímulo, mas se prolonga prestar à pessoa com dor.
num crescendo de emoções, atitudes e compor- Jean Watson (1988), na sua “Teoria do cuidar hu-
tamentos que traduzem a extensão do sofrimento. mano”, orienta-nos para um conceito de cuidar, visto
Muito para além da sensação ela é uma percepção à luz de uma abordagem fenomenológica, em que
moldada pela personalidade de quem sofre e pelos a pessoa é um “ser-no-mundo” com corpo, mente
contextos sociais que a rodeiam. e alma em permanente interacção, e originando
A visão positivista e cartesiana defende sempre um Eu (Self) que é o centro subjectivo que sente
uma relação causa-efeito no tratamento da dor, e vive no total das partes. Logo, as transacções
considerando muitas vezes normal, senão benéfica, de enfermagem no cuidar do homem-pelo-homem
a sua existência, na medida em que alertava para não podem ser explicadas e compreendidas com
a disfunção do organismo, dando mais importância uma visão positivista, determinista e materialista. A
ao tratamento da causa do que ao alívio da dor. interacção estabelecida no cuidar implica, por con-
Também o valor “redentor” do sofrimento tem seguinte, uma aproximação e estabelecimento de
sido utilizado na cultura cristã, para justificar a contacto entre duas pessoas. E, nesta interacção,
necessidade da sua existência. Por outro lado, pode ser construído um significado do cuidar, se
o sofrimento dos outros lembra-nos a nossa pró- o enfermeiro se consciencializar dos seus valores
pria humanidade, e, talvez por isso, o rejeitamos, pessoais e profissionais e demonstrar o valor que
escondemos e minimizamos. o outro tem por si na ajuda que pode empreender
A frequente exposição dos enfermeiros ao so- com ele. A humanização dos cuidados de enferma-
frimento dos doentes com a consequente partil- gem passa por conseguir estabelecer uma relação
ha de emoções torna-se desgastante, originando verdadeiramente profissional, ou seja, uma relação
a adopção de mecanismos de defesa que garan- com a qual se obtenham resultados positivos na
tem distanciamento da pessoa com dor. óptica da pessoa.
Cuidar a pessoa com dor remete-nos, pois, para Desta leitura subjaz um modo de ser enfer-
uma reflexão sobre a missão da enfermagem. meiro centrado nas necessidades que a pessoa
Assim, assumindo o “cuidar” como a essência da atribui à experiência que vive. Este modo de
enfermagem (Collen, 1991), e entendendo-o como ser-estar é alicerçado num sistema de valores e
um acto individual que prestamos a nós próprios está associado a um profundo respeito pela ad-
enquanto seres autónomos, mas também um acto miração e mistério da vida, ao reconhecimento
de reciprocidade que prestamos a quem, em deter- da dimensão espiritual da vida e do processo
minados momentos da vida, sofre limitações à sua de cuidar e à capacidade de crescimento e
autonomia (Collière, 1999), resulta que o “cuidar em de mudança do homem e da humanidade. O
enfermagem” seja sempre uma relação de ajuda. A processo de cuidados requer consideração e
eficácia desta relação de ajuda necessita um con- reverência pela pessoa e pela vida humana,
hecimento em profundidade do outro, mas também valores não paternalistas mas de elevada con-
de si próprio. Cuidar é, pois, uma relação biunívoca sideração pela autonomia humana e liberdade de
que implica fluxo intersubjectivo entre enfermeiro e escolha. É uma preocupação ética dos profissio-
utente (Watson, 1994). nais de saúde aliviar a dor e o sofrimento (McIntyre,
Este conceito de cuidar não é compatível com 1995). A ajuda à pessoa com dor tem de partir de
a visão cartesiana da pessoa, que reduz o ser hu- uma melhor compreensão da experiência do outro,
visando uma aquisição de maior autoconhecimen-
to, autocontrolo e autocuidado, sendo o enfermeiro
entendido como um parceiro neste processo que DOR
Enfermeira Graduada da Unidade Terapêutica apenas tem significado se defendermos e promo-
de Dor do Hospital S. Bernardo, SA, Setúbal vermos um elevado sentido de “ser pessoa”. 29
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