Page 6 Volume 13 - N.4 - 2005
P. 6
Dor (2005) 13 L. Agualusa: Editorial: Dor nas Pessoas Não-verbais
Editorial
Dor nas Pessoas Não-verbais
Luís Agualusa
ar voz a quem não a tem é o objectivo das desta forma e permanentemente. O «catas-
deste número dedicado à dor nas pessoas trofismo», fenómeno cada vez mais estudado e
Dnão-verbais. Os recém-nascidos, crianças, relacionado com as alterações de comportamen-
doentes com alterações cognitivas major, altera- to verificadas nos doentes submetidos a hiperes-
ções de consciência, com índices de gravidade timulação sensorial no modelo de dor crónica,
elevados, alterações afectivas, psicoses, esta- poder-nos-á ajudar a comprender melhor por
dos confusionais, são algumas das situações que razão uma proporção significativa destes
que nos propomos abordar. doentes passam a modelar o seu comportamen-
Nestas circunstâncias, extremas, verificando- to com opcções de vida erradas, podendo de-
se ou não patologia de comunicação, as proble- senvolver doença psiquiátrica identificada. Por
máticas, as dificuldades que teimosamente nos vezes, a imagem que parecem reflectir no olhar
acompanham, parecem ainda mais difíceis de e noutras formas de comunicação é de se en-
ultrapassar. A aplicabilidade dos modelos con- contrarem mergulhados num tremendo buraco
vencionais de avaliação parecem ser insuficien- negro, reféns da desorganização individual ins-
tes para que nos possamos sentir confortáveis talada, e isto apesar de todos os esforços inter-
e a amplificação de alguns mitos que pairam en- disciplinares. Eles, na necessidade de se exor-
tre nós parece confirmar a delicada posição em cizarem do sofrimento crónico, fazem-se sentir
que nos encontramos e a necessidade de im- desesperadamente, comparando muitas vezes o
plementarmos activamente estratégias de ajuda fenómeno doloroso a uma «entidade própria com
para os que sofrem mas que não se conseguem autonomia capaz de entrar dentro do seu corpo,
fazer ouvir. A linguagem da dor e da sua com- até o ocupar, destruir e mumificar lentamente».
plexidade nasceu para mim, e para tantos ou- Muitas vezes, o desejo é o da mutilação ou am-
tros, através de Ronald Melzac e Patrick Wall. putação, na tentativa de separar e irradicar o mal
Quem já sentiu uma dor intensa e tenha tentado «de vez». Este aspecto talvez explique a especial
descrevê-la a um amigo ou ao seu médico, cons- receptividade destes doentes às intervenções ci-
tatou muitas vezes a dificuldade de encontrar rúrgicas, quantas vezes decididas em poucos
palavras adequadas. Virginia Woolf, num ensaio minutos de consulta sem a ponderação multidis-
intitulado On Being Ill, aborda precisamente esta ciplinar necessária, e esquecendo que com forte
questão: «A língua inglesa, capaz de traduzir os probabilidade não existem quadros dolorosos
pensamentos de Hamlet e a tragédia de Lear, crónicos passíveis de melhorar após cirurgia. No
não tem palavras para exprimir o calafrio e a catastrofismo, o «edifício» que nos caracteriza
cefaleia... A mais humilde estudante romântica como indivíduos parece desintegrar-se do con-
tem Shakespeare e Keats como porta-voz; mas texto e o sentido relacional vai-se perdendo, pa-
desde que se tente descrever uma dor de ca- recendo que os esforços são centralizados na
beça a um médico, a linguagem falha» (Melzac batalha diária contra o próprio. Facilmente, o do-
R, Wall P. O Desafio da Dor). ente se torna numa edição barata do estatuto que
Estes e outros aspectos têm despertado em possuía, e quando assistimos e contribuímos à
mim uma profunda reflexão acerca do sofrimen- reconstrução lenta e difícil do edifício em ruínas,
to evitável, nas vertentes que mais directamente qualquer pequena adversidade parece funcionar
nos dizem respeito, e principalmente naqueles como um terramoto, que obriga a uma nova e
que nos comunicam explicitamente a agonia. penosa reconstrução. Isto pode traduzir o quanto
Em alguns doentes, após ter solicitado que des- ainda temos de caminhar.
crevessem a sua dor, e ao ouvi-los atentamen- Será que a imaturidade do recém-nascido ou
te, deixo-me arrastar nas longas e complexas a diminuição da consciência nos doentes com
descrições, que mais parecem retiradas de um alterações cognitivas é protectora? Ou, pelo con-
qualquer manual de tortura, e não posso deixar trário, a subavaliação do problema não é mais
de pensar no impacto neurobiológico potencial que a tradução da sua existência submersa.
ou real, a nível das estruturas que se conside- Como poderão ser quantificados estes fenóme-
ram estar envolvidas no processamento emocio- nos quando falamos em estruturas neurofisiológi- DOR
nal da dor (córtex orbifrontal, amígdala, tálamo cas ainda em formação (prematuros e recém-
medial, núcleo subtalâmico...) quando solicita- nascidos), como pode a dor nestas circunstâncias 5

