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A utilização da música com fins medicinais acústicos e de movimentos internos, que carac-
remonta a tempos ancestrais. Descobertas ar- terizam ou individualizam cada ser humano» .
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queológicas indicam que as civilizações antigas Este princípio refere que só é possível estabe-
faziam uso da música em rituais religiosos, com lecer canais de comunicação, quando se vai
o objectivo da evocação de deuses, capazes ao encontro da identidade sonora do paciente,
de trazer algum tipo de benefício nos mais va- isto é, o ritmo da música, utilizado em musicote-
riados contextos ligados à condição humana. rapia, deve ter o mesmo tempo mental que o
Podemos encontrar referências nas escrituras paciente, que está a ser assistido, tem. As
sagradas da Bíblia, a respeito da forma como o ideias-base assentam no pressuposto que a mú-
jovem Davi fazia uso da lira para livrar os maus sica de iniciação é a que parte do paciente, a
espíritos que atormentavam o rei Saúl, trazendo-lhe qual traduz a sua forma de estar na relação
alívio momentâneo à sua alma. Filósofos gregos com o outro; a partir disto, o paciente é convi-
pré-socráticos, tais como Aristóteles e Platão, dado a agir e relacionar-se com o musicotera-
consideravam que existia uma relação directa peuta através da música, podendo este dirigir o
entre a música e os estados de alma, acredi- foco à situação problemática, na tentativa de
tando ser possível alcançar a harmonia entre alterá-la através da prática musical.
corpo e mente, através de determinados inter-
valos e modos. Desde a Antiguidade até à Método Nordoff-Robbins –
Idade Média, a música foi regida pela batuta Creative Music Therapy
da lei moral e ética. A partir do renascimento,
Idade da Luz, com o despertar da ciência e das Este método teve início em 1959, altura em
artes, o homem começou a descobrir-se, desen- que o músico e compositor Paul Nordorff e o
volvendo o sentido de estética e a expressão de professor de educação especial Clive Robbins
emoções através da música. se uniram com a finalidade de trabalhar com
Em 1800, foram realizadas as primeiras inter- crianças com problemas de aprendizagem e
venções hospitalares com música, altura em que patologias do desenvolvimento acentuadas.
Florence Nightingale notou que a música e voz Eles descobriram que, se tomassem o compor-
humana tinham influência na recuperação de tamento da criança como base para a música
pacientes. Em finais de 1800, com o aparecimen- que produziam, poderiam criar momentos de
to do fonógrafo, foi utilizada, pela primeira vez, ligação e contacto com elas. A base teórica
música gravada nos hospitais. A partir de 1900, deste método assenta sobre a teoria humanis-
foram realizadas outras experiências, aliando a ta, antroposofia e a abordagem de Rudolf Stei-
música a procedimentos, como anestesia e anal- ner à educação, com base nas expressões
gesia. artísticas.
Com o surgimento da Segunda Guerra Mun- A linha deste método defende que todo o
dial, houve um aumento de população psiquiá- ser humano tem a capacidade inata de res-
trica e, nesse contexto, a música surge no meio ponder musicalmente ao som e à música. Essa
hospitalar, havendo uma sistematização de mé- musicalidade é, por sua vez, activada para pro-
todos utilizados com objectivos terapêuticos. mover um crescimento e desenvolvimento pes-
Verificaram-se, assim, benefícios em veteranos soais, uma vez que o corpo humano é constitu-
de guerra com síndrome de stress pós-traumá- ído por ritmo, frequências e vibrações.
tico ao nível das perturbações do sono, redução Uma ideia central que veio do humanismo,
de ansiedade e da dor, associadas aos proce- adoptada pelos autores, é a de que todo o ser
dimentos médicos. humano tem um músico-criança no seu inte-
Após a desinstitucionalização hospitalar, hou- rior, o qual pode nunca passar de embrião ou,
ve a necessidade de colocar doentes crónicos em alternativa, vir a tornar-se um músico pro-
na comunidade. Iniciou-se então um trabalho de fissional. O objectivo máximo deste método é
reabilitação, que exigiu técnicos e terapeutas a descoberta do ser musical dentro do pacien-
que fizessem o acompanhamento dos doentes. te e a pessoa dentro do músico. O músico-
A musicoterapia permitiu a aquisição de compe- criança é o músico embrionário que precisa de
tências através de actividades que incidissem crescer.
nas preferências musicais dos pacientes. O termo músico-criança implica a organização
de capacidades receptivas, cognitivas e expres-
sivas, que se poderão tornar num elemento de
Princípio de ISO organização da personalidade, na medida em
O psiquiatra argentino Roland Benenzon foi que o paciente pode ser ajudado a utilizar estas
pioneiro no trabalho com crianças autistas, ao capacidades num nível significativo de envolvi-
propor a produção sonora de materiais não con- mento pessoal. Este envolvimento pessoal,
vencionais, tais como a água e outras texturas. quando apoiado de forma criativa, estimula as
É ele o precursor da filosofia do ISO musical. capacidades de reconhecimento, percepção e
DOR «Princípio de ISO é um conceito totalmente dinâ- memória.
Pensar musicalmente significa vivenciar a mú-
mico que resume a noção de existência de um
6 som, ou um conjunto de sons, ou o de fenómenos sica ao detalhe da vida pessoal e relacional. A

