Page 9 Volume 18 - N.4 - 2010
P. 9



Dor (2010) 18
clímax ou aplacá-lo. Os compositores são, corpo e vice-versa . É possível, através da mú-
8
eles mesmos, afectados pelas suas próprias sica, conduzir os pacientes para outra realidade;
execuções. O poder que a música possui de uma realidade virtual, onde os mesmos são sau-
afectar o ânimo é muito grande, e isso devido dáveis e livres, isto é, onde não existe dor. Os
aos seus elementos sugestivos e persuasivos, pacientes permitem-se viajar ao seu mundo in-
como é o caso do ritmo que persuade o indi- terior, descobrindo o seu eu através da relação
víduo a ajustar o seu ritmo corporal a ele (ritmo musical estabelecida com o musicoterapeuta.
musical).» «Se considerarmos a mente humana como um
grande teatro, é possível afirmar que, devido à
A musicoterapia na Unidade de Dor fragilidade do “Eu” de actuar dentro de si, a
maioria das pessoas fica na plateia assistindo
do Hospital Garcia de Orta passivamente à encenação dos seus conflitos e
9
A Unidade de Dor do HGO recebeu a musi- misérias psíquicas no palco» . É possível dizer
coterapia de braços abertos, abrindo portas à que através da música «é possível fazer o doente
concretização de uma intervenção que tem ac- sair da plateia da vida, entrar no palco dos seus
tuações em diversas áreas do funcionamento da pensamentos e emoções e dirigir a sua própria
Unidade, desde a sala de espera, consulta ex- história» . Desta forma, é possível ajudar os pa-
9
terna da dor, passando pelo hospital de dia e, cientes a reestruturarem a sua identidade, assu-
finalmente, em setting terapêutico individual ou mindo uma posição de destaque nas suas vidas,
de grupo. através da organização e canalização de pen-
Relativamente à sala de espera e consulta samentos para outros aspectos do seu «eu».
externa da dor, a musicoterapia assume um ca- A produção musical dos pacientes revela ima-
rácter recreativo, proporcionando a vivência de gens, pensamentos e sentimentos directamente
experiências gratificantes humanas e de proxi- relacionados com a sua condição física e emo-
midade com o outro. Este tipo de acção permite cional. Este é um aspecto importante, pois per-
quebrar a rotina e amenizar os sentimentos mite examinar e compreender a relação que
negativos, associados ao hospital, oferecendo existe entre a música e o mundo psíquico. Mui-
momentos de descontracção e promoção de tas vezes ao cantar, o paciente chora ou ri con-
bem-estar. Este é um espaço onde podem surgir soante a música que está a ser criada.
sentimentos de esperança e evocação de me- A música funciona assim como um continente
mórias afectivas positivas, bem como a liberta- seguro, abrindo canais de comunicação não
ção de tensões que irão influenciar a pré-dispo- verbais, atractivos, por permitirem uma forma de
sição do paciente, relativamente à consulta ou correspondência simbólica indirecta e não-con-
tratamentos, tornando-o mais aberto à interven- frontacional, o que faz com que o paciente re-
ção clínica. produza, sem máscaras, os seus aspectos inter-
No que concerne ao hospital de dia, a musi- nos, através do processo musical criativo, que
coterapia actua como elemento mascarador dos ocorre nas sessões, proporcionando, desta for-
ruídos das máquinas, humanizando e suavizan- ma, ferramentas para que o musicoterapeuta
do este meio. Essa transformação permite que consiga estabelecer uma aliança terapêutica
o paciente experiencie um ambiente familiar, proveitosa para o paciente, na concretização
contributo essencial para a redução do stress e dos objectivos estabelecidos para ele.
ansiedade; a sua atenção desvia-se da dor, sen-
do canalizada para a experiência musical emo-
cionalmente aliciante. Age ainda como facilita- Considerações finais
dor comunicacional, por tornar o paciente mais Através da observação de pacientes da Uni-
receptivo e colaborante à abordagem da equipa dade de Dor do HGO, foi possível verificar que
médica. existe todo um equilíbrio psíquico e fisiológico
Em setting terapêutico, individual e em peque- que precisa de ser mantido para uma recupera-
no grupo, observamos pacientes que entram no ção bem sucedida. Neste artigo, foi realizada
consultório com semblante abatido e postura uma breve análise dos factores que geram stress
curvada, sendo visível a tensão provocada pela e ansiedade nos pacientes, os seus efeitos psi-
dor. A sua expressão verbal centra-se na doen- cofisiológicos e de que maneira pode a musico-
ça, demonstrando um fixismo na dor traumática terapia contribuir para amenizar, ou mesmo dis-
e resistência em sair desse ciclo. No decorrer sipá-los. Estudos realizados neste âmbito mostram
das sessões tornam-se visíveis alterações ao que a música diminui claramente o stress que é
nível da expressão e postura corporais e faciais, gerado pelas alterações na dinâmica familiar,
conjuntamente com a verbalização de sentimen- aspectos económicos, questões psicológicas e
tos de alívio. físicas geradas pela doença, favorecendo uma
É possível ir de encontro às questões mais recuperação mais rápida, que passa pelo au-
precoces dos pacientes, quando estes estabe- mento do desempenho do sistema imunológi-
DOR lecem uma relação afectiva com a música. A co, diminuição da ansiedade e pela forma como
10
musicoterapia é particularmente eficiente na
o paciente encara a doença. Segundo Groen ,
8 produção de efeitos na mente que afectam o a musicoterapia é um componente que deve
   4   5   6   7   8   9   10   11   12   13   14