Page 12 Volume 18 - N.4 - 2010
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Â. Gaspar, M. Morais de Almeida: Hipersensibilidade aos Anti-Inflamatórios Não-Esteróides
(LTC , LTD , LTE ) ou quimiotácticas (tais como
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Hipersensibilidade a AINE o LTB ) e redução da produção de prostaglan-
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dinas E e I , que têm uma acção inibidora na
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síntese de leucotrienos e são por si só bronco-
Alérgica Não-alérgica dilatadoras (Fig. 2) 4,11 .
(mecanismo (mecanismo Esta hipótese é suportada por diversas obser-
imunológico) não-imunológico)
vações:
– Foi demonstrada uma correlação positiva no
que respeita à potência do fármaco para ini-
IgE-mediada Não IgE-mediada
bir a actividade da COX in vitro e a sua po-
tência in vivo para exacerbar a asma em
Figura 1. Classificação da reacção de hipersensibilidade doentes com hipersensibilidade ao AAS .
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medicamentosa a AINE .
– Nos doentes sensíveis ao AAS, os analgé-
sicos que não afectam a COX não possuem
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propriedades broncoconstritoras .
– Vários estudos documentam a importância
dos leucotrienos na patogénese do bron-
A hipersensibilidade a AAS/AINE surge em cospasmo induzido pelo AAS. Observa-se
cerca de 10% dos asmáticos adultos, atingindo após provocação com aspirina um aumento
até 21% dos doentes com asma grave . Esta significativo da concentração de leucotrie-
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prevalência é mais elevada nos doentes com nos na urina , no lavado broncoalveolar
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asma e polipose nasal, podendo afectar 30 a 40% e no exsudado nasal .
destes doentes. Em doentes com urticária crónica, – Os antagonistas dos leucotrienos previnem
a prevalência de hipersensibilidade a AAS/AINE a broncoconstrição induzida pelo AAS .
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varia entre 20 a 40% . As concentrações basais de LTE urinário em
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A associação clínica da hipersensibilidade à as- doentes sensíveis ao AAS são significativamente
pirina, asma e polipose nasal foi pela primeira vez superiores às encontradas em doentes não sen-
descrita por Widal, et al., em 1922, que a designou síveis, o que sugere um metabolismo anormal
por «tríade da aspirina», também conhecida por do ácido araquidónico no primeiro grupo . Esta
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síndrome de Fernand-Widal . A importância desta diferença torna-se ainda mais acentuada após pro-
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entidade foi, 46 anos depois, reforçada por Samter va de provocação, oral ou brônquica, com AAS .
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e Beers, sendo denominada tríade de Samter . O aumento da concentração urinária do LTE
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Actualmente utiliza-se o termo «doença respira- correlaciona-se com a gravidade dos sintomas
tória exacerbada pela aspirina» (DREA), proposto respiratórios e a queda do FEV 1 15 .
por Stevenson, que define a presença de doen- Estão identificados dois isoenzimas da COX:
ça inflamatória contínua das vias aéreas após a COX-1 e COX-2. A COX-1 é uma enzima cons-
administração destes fármacos . Esta síndrome é titucional, expressa em condições fisiológicas na
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caracterizada pela presença de rinossinusite cró- maioria dos tecidos, dando origem à síntese de
nica eosinofílica, polipose nasal, asma e hipersen- prostaglandinas responsáveis pela manutenção
sibilidade a AAS/AINE. Nesta síndrome observa-se de uma normal actividade celular, nomeadamente
um predomínio do sexo feminino de 2,5:1 em rela- da homeostase vascular e das funções gástrica
ção ao sexo masculino e cerca de 1/3 dos doen- e renal. A COX-2 é indutiva, sendo uma enzima
tes são atópicos. Os primeiros sintomas surgem, não detectável na maioria dos tecidos em con-
em média, aos 30 anos de idade. Em 1 a 6% dos dições fisiológicas, surge quando induzida por
casos existe uma história familiar de hipersensi- citocinas, mitogénios e endotoxinas em situa-
bilidade à aspirina . ções patológicas; os seus níveis aumentam mar-
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cadamente durante a inflamação. Tem sido su-
gerido que a actividade anti-inflamatória dos
Patogénese AINE é conseguida pela inibição da COX-2, en-
Os mecanismos fisiopatológicos subjacentes quanto que os efeitos adversos dos mesmos,
à hipersensibilidade ao AAS e a outros AINE não tais como a toxicidade gástrica e renal, derivam
se encontram completamente esclarecidos. Ge- da inibição da COX-1, cujos produtos têm uma
ralmente estão envolvidos mecanismos não-imu- acção protectora dos tecidos (Quadro 1). Mais
nológicos, muitas vezes relacionados com tipo recentemente foi proposta a existência de uma
e/ou doses dos fármacos utilizados. A teoria terceira isoforma, a COX-3, que não está rela-
mais aceite propõe um papel central para as al- cionada com o aparecimento de mediadores
terações do metabolismo do ácido araquidónico. pró-inflamatórios, mas cuja inibição leva a efei-
A inibição da COX, desencadeada por estes fár- tos analgésicos e antipiréticos. O paracetamol
macos, provoca uma alteração no equilíbrio entre aparenta ser um inibidor selectivo desta enzi-
os metabolitos do ácido araquidónico: aumento ma, facto que esclarece a ausência de efeitos
dos produtos da lipoxigenase (LO), leucotrienos anti-inflamatórios deste fármaco. DOR
cisteínicos (CysLT), com marcada actividade pró- Em termos fisiopatológicos, podemos concluir
-inflamatória e propriedades broncoconstritoras que nos asmáticos sensíveis a AAS/AINE ocorrem 11

