Page 8 Volume 18 - N.4 - 2010
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A. Filipe Garcez, S. Monteiro: Musicoterapia na Unidade de Dor do Hospital Garcia de Orta
música tem o poder de facilitar a expressão e musicoterapia tem vindo a demonstrar-se eficaz
comunicação num plano de genuinidade, permi- na redução da dor, ansiedade, stress, isolamen-
tindo contactar as estruturas internas que abrem to social e depressão, entre outros factores que
as portas ao verdadeiro «eu». É utilizada como afectam esta população.
veículo de desenvolvimento pessoal, com a Sendo a dor crónica de origem multifactorial
convicção de que, mesmo dentro das limitações, e multidimensional, não existe uma abordagem
é possível haver crescimento. isolada quanto ao seu tratamento, pelo que há
A música ocupa o lugar central, por isso, tudo que investir na diversificação, contemplando
o que o paciente faz musicalmente é aceite, na todas as dimensões que constituem o ser hu-
busca do músico embrionário. mano, psicológica, física, espiritual e económi-
A improvisação clínica assume o foco princi- co-social.
pal da terapia e é dada ênfase à relação esta- A musicoterapia surge assim como um proces-
belecida entre o paciente e o musicoterapeuta. so de intervenção sistematizado, no qual pacien-
Através desta técnica, a criatividade inata de te e musicoterapeuta estabelecem uma ligação,
cada pessoa é utilizada para superar as difi- cujo objectivo é a promoção da saúde e qualida-
culdades emocionais, cognitivas e até mesmo de de vida, através da vivência de experiências
físicas. Esta forma de expressão criativa pos- musicais estruturadas, dentro do contexto da re-
sibilita a que os pacientes tenham um papel lação terapêutica, para auxiliar o paciente a atin-
activo na produção musical, através de vários gir os objectivos para ele determinados.
instrumentos ou voz. A relação terapêutica Por alterar os processos sensoriais, cognitivos
estabelece-se verdadeiramente quando o mú- e afectivos, as técnicas usadas em musicotera-
sico-criança do paciente, se cruza com o músi- pia podem ajudar a reduzir a percepção da dor
co-criança do musicoterapeuta, num fluir mu- e sofrimento, elevar o humor e aumentar a sen-
sical conjunto. sação de controlo e relaxamento.
O instrumento harmónico ocupa um lugar cen- A pesquisa recente descreve as técnicas de
tral, sendo usado pelo musicoterapeuta para dar musicoterapia mais usadas para atender às ne-
continuidade às produções musicais dos pacien- cessidades dos pacientes. São elas a audição
tes, musicando os seus comportamentos e sons. musical, canto e vocalizo, escrita de canções,
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Das fases do processo terapêutico destacam-se análise lírica e escolha de canções , improvisa-
o contacto exploratório, no qual são efectuadas ção e execução estruturada de um instrumento
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experiências musicais, no sentido de encontrar o musical e Guided Imaginary Music .
verdadeiro «eu» do paciente, o desenvolvimento «É provável que o acto físico de bater com as
integrativo que ocorre após o estabelecimento de mãos, acompanhando um padrão rítmico conti-
contacto, aprofundamento da relação, suporte nuamente, durante cinco minutos, ou cantar du-
ao ISO, o proporcionar de novas possibilidades rante esse mesmo tempo, estimule e produção
e variações e o desenvolvimento das capacida- de endorfinas no cérebro» (Halpern S, 1985).
des de comunicação, mobilidade, emotividade «Música calmante e suave pode ajudar a pro-
e vocalização. Após isso acontece a expressão duzir as grandes moléculas chamadas de en-
de si, numa constante actualização, que fomenta dorfinas, que aliviam a dor, actuando sobre os
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a libertação dos efeitos da patologia e promoção receptores cerebrais» .
da realização pessoal. Estudos revelam que músicas com ritmos
Os pacientes não necessitam de ter conheci- acentuados estimulam a actividade das células
mentos musicais para tocar os instrumentos que musculares, activando a produção hormonal nas
escolhem livremente. glândulas supra-renais. Por outro lado, música
melodiosa contribui para equilibrar o ritmo respi-
ratório, diminuindo a pressão arterial. A música
A musicoterapia e a dor crónica estimula, assim, o centro de emoções, o tálamo,
A literatura comprova os efeitos da música, a cooperando no restabelecimento do equilíbrio en-
diversos níveis do funcionamento humano. Ela tre o corpo e a mente na diminuição do stress e
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tem a capacidade de suscitar reacções fisioló- ansiedade . Segundo a obra de O’Callaghan ,
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gicas, tendo impacto no ritmo cardíaco, pressão entre tantas outras actividades que a música
sanguínea, temperatura da pele, respostas mus- oferece, os doentes podem «cantar» os seus sen-
culares, respostas galvânicas e movimentos in- timentos, escrevendo a letra das músicas; podem
testinais, influenciando, assim, o funcionamento tocar instrumentos; fazer uma autobiografia mu-
do organismo. sical e fazer música em família.
A nível psicológico pode influenciar o estado Como é sabido, a música tem a capacidade
de espírito, humor e respostas afectivas, provo- de nos fazer «viajar» através do tempo, permi-
cando também a evocação de imagens e asso- tindo reviver sentimentos e sensações, positivas
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ciações extra-musicais, dependendo da cultura, ou negativas. Segundo Leinig , citando Juliette
experiências musicais e história do indivíduo. Alvin (1965), «a música pode reflectir o senti-
Suscita ainda respostas a nível cognitivo, as mento do momento ou mudar esse sentimento DOR
quais poderão ser determinantes da eficácia da com a sua mera presença. Também pode exaltar
intervenção terapêutica. Por estes factores, a o estado de ânimo do momento e levá-lo até ao 7

