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Dor (2001) 9





















Figura 1. Ansa vascular a contactar o V (assinalada com Figura 2. Nevrite do V (assinalada com seta) (fotografia do
seta) (fotografia do Hospital Egas Moniz - Lisboa). Hospital Egas Moniz - Lisboa).

Neste trabalho abordaremos qual o suporte cionante, recorrente de uma área da hemiface,
teórico que sustenta a decisão de propôr ao desencadeada pela mastigação, riso, com-
nosso doente o tratamento por descompressão pressão local, etc. Introduz também a noção de
cirúrgica microvascular (DMV). Será feita uma trigger point.
breve análise do processo de decisão e a des- Actualmente o diagnóstico continua funda-
crição da técnica cirúrgica em causa. Procede- mentalmente a ser feito através da história e
remos ainda à analise dos resultados esperados exame clínico. O recurso à alta definição de uma
a longo prazo, após a revisão das séries publi- ressonância magnética é agora possível e pode
cadas. Uma análise comparativa pretende evi- em alguns casos sustentar de forma clara o dia-
denciar quais as possíveis vantagens desta gnóstico de compressão vascular, estabelecendo
técnica quando comparada com outras modali- o diagnóstico diferencial com outras patologias,
dades terapêuticas. nomeadamente as neoplásicas, esclerose múl-
tipla, nevrite, etc. (ver Figs. 2 e 3).
Com o aparecimento de medicamentos como
Um pouco de história a carbamazepina, fenitoína, gabapentina ou ba-
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Apesar das primeiras referências esta entidade clofeno , muitas destas situações puderam pela
reportarem provavelmente ao ano de 100 AD no primeira vez ser controladas de forma conser-
célebre tratado Cephalea de Aretaeus da Capa- vadora, mas as estratégias terapêuticas iniciais
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dóssia , o seu estabelecimento como entidade foram bastante infrutíferas.
clínica individualizada, como forma de dor he- As primeiras tentativas de tratamento foram
mifacial lancinante e paroxística, ocorreu apenas cirúrgicas. Realizaram-se na primeira metade do
no século XVIII. séc. XVIII com o cirurgião francês Marechal em
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Foi em 1756, que o cirurgião francês Nicolas 1730, orientado por André , a proceder à ablação
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André descreveu no seu trabalho Remarques do n. infra-orbitário. Seguiram-se outras ten-
sur certain mouvements convulsifs, cinco casos tativas destrutivas com avulsões, secções
de doentes com aquilo que pareciam ser sur- ganglionares e rizotomias trigeminais. A incapa-
tos paroxísticos de contraturas hemifaciais, cidade de compreender o mecanismo fisiopato-
acompanhadas no entanto de componente ál- lógico desta doença limitava no entanto a ca-
gico predominante, em oposição aos casos de pacidade terapêutica destes procedimentos.
spasme clinique. A esta entidade chamou de tic
douloureux e pediu ao seu colega Maréchal, ci- Fisiopatologia
rurgião pessoal de Louis XIV, que tentasse tratar
estes doentes através de um procedimento ci- Foi muito provavelmente Dandy 17 o primeiro
rúrgico ablativo baseado na teoria galénica. Os a estabelecer uma relação directa entre a NT e
resultados foram pobres. Mais tarde atribuiria a uma causa vascular compressiva. Gardner e Mi-
doença à compressão nervosa mecânica, com klos 23 deram o primeiro passo para o tratamento
subsequente interrupção da passagem dos hu- cirúrgico actual, ao separarem o nervo dos vasos
mores e energias, que desencadearia o estado adjacentes com uma microesponja gelatinosa.
patológico e a dor. Os resultados clínicos foram excelentes. Jan-
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Em 1773 Fothergill , desconhecendo os tra- netta 25-29 foi, no entanto, o responsável pela di-
balhos de André, publicou a sua série de 14 vulgação do conceito de compressão vascular
® doentes sofrendo de uma afecção dolorosa da como factor etiológico fundamental não só na
DOR face. Aí descreve minuciosamente o quadro clí- NT, mas também num conjunto de outros sín-
28 nico clássico desta patologia: uma dor excru- dromes disfuncionais hiperactivos dos pares cra-
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