Page 28 Volume 11, Número 4, 2003
P. 28



Dor (2003) 11 Maria Madalena Martins e Maria Graça Travanca: A caminho do cuidar em enfermagem… Um outro olhar à pessoa com dor

Registo do VAS no processo clínico do doente (2000-2002)


90
80
70
60
Registo da dor 50 Registo da Experiência Máxima de
Dor – no Acolhimento
Registo da Avaliação da Dor – 1 vez
40
por turno
30
Registo da Avaliação da Eficácia da
Analgesia em SOS
20
Registo da Localização da Dor
10
0
Dez. Jan. Mar. Jun. Nov. Abr.
2000 2001 2001 2001 2001 2002
Data da avaliação
Quadro 4.





nós e é reconhecido por todos, como ilustram Começamos a acreditar na singularidade e
as seguintes expressões dos enfermeiros: unicidade de cada pessoa, e o nosso modo de
• “Hoje os doentes estão mais analgesiados”, lidar alterou-se progressivamente.
“já não se ouvem gritar os doentes”. A verdade do doente é que passou a deter-
• “Já não regateamos o analgésico.” minar a decisão do enfermeiro. Esta mudança
• “Temos hoje mais certeza da eficácia da no agir é confirmada pelos enfermeiros quando
analgesia.” dizem:
• “Os próprios familiares reconhecem que nos • “Há que acreditar e respeitar acima de tudo
internamentos anteriores os doentes tinham o sentir da dor do doente, mesmo que não
mais dor.” a consiga quantificar.”
Com este projecto descobrimos que melho- • “Se o doente diz que tem dor, ele está mes-
rámos a nossa prática de cuidados e reconhe- mo com dor.”
cemo-nos como melhores enfermeiros, porque Descobrimos que é necessário deixar de lado
gastamos mais tempo com o doente. A falta os nossos referenciais e colocarmo-nos ao nível
de tempo tornou-se relativa. Era vivida e expli- de compreensão do doente, porque a nossa lin-
cada por alguns colegas deste modo: guagem é-lhe estranha. Tal como exemplificou
• “A sensação de atraso não é real, porque uma colega:
explicar é uma forma de estar a conversar • “Até o nome de escala lhe era estranho.
com o doente, demonstrando que lhe esta- Em números não entendia, mas percebeu
mos a dar atenção.” em centímetros, porque era costureira.”
• “Os dois ou três minutos a reexplicar não • “Há que encontrar, com os doentes e famí-
colocam em causa todo o resto do trabalho, lias, formas práticas de nos entenderem. Um
pois a medição do VAS é um cuidado natural dia, comparei com as pontuações do festival
e integrado no meio de outros cuidados.” da canção.”
Aprendemos que “gastar tempo” é, ou pode Estas estratégias são reveladoras da impor-
ser, um cuidado! E porque gastamos mais tem- tância dada pelos enfermeiros em colocar-se ao
po com o doente no acolhimento é inevitável um nível de compreensão do doente, a (re)descobrir
melhor conhecimento do doente. a linguagem utilizada pelas pessoas no seu
Compreendemos que a pessoa tem de ser a quotidiano, porque fomos ensinados a explicar
primeira fonte de dados, tal como afirma Collière às pessoas “antes de ter descoberto e compre-
(1999). Através da história que cada doente con- endido o que elas nos tentam explicar” Collière
tava sobre a sua dor máxima, conseguíamos ter (1999).
acesso a momentos significativos da sua história Tomámos consciência que o doente tem vindo
de vida e perceber as suas representações so- a ser, gradualmente, integrado como um parcei-
bre a dor. Para uma doente a dor máxima era ro dos cuidados. Para isso, sentimo-nos impe-
DOR a morte do marido ou a ida dos filhos para o lidos a informar o doente sobre os motivos do DOR
Ultramar, e para esta dor dizia “não há régua
nosso agir, contrariando a prática rotineira em
26 para medir”. que “não está nos nossos hábitos explicar a 27
   23   24   25   26   27   28   29   30   31   32   33