Page 36 Volume 13 - N.4 - 2005
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Dor (2005) 13 A. Sarmento: A Dor no Doente de Cuidados Intensivos
A Dor no Doente de Cuidados
Intensivos
António Sarmento
Resumo
Em consequência da situação patológica, dos vários procedimentos invasivos de monitorização, de diag-
nóstico e de terapêutica, e ainda pela imobilização prolongada, a dor é frequente nos doentes em estado
crítico internados em Cuidados Intensivos. Numa percentagem muito significativa dos doentes que se recor-
dam do seu internamento, a dor é referida como a sua pior experiência. Embora haja cada vez mais meios
eficazes para tratamento da dor, há limitações específicas a este subgrupo de doentes, resultantes de
vários factores, nomeadamente da sua impossibilidade de comunicação verificada na maioria dos casos e
da sua instabilidade hemodinâmica.
Palavras-chave: Dor no doente crítico. Analgesia em Cuidados Intensivos.
Abstract
Pain is a frequent and important problem in critical care patients. Previous pathology and several invasive
diagnostic and therapeutic procedures and prolonged immobilization are important causes of pain. This
symptom is the worst experience reported by a significant number of patients that can remember their staying
in ICU. Impossibility of communication and hemodinamic instability in the majority of ICU patients are respon-
sible for the specificities and difficulties in treatment of pain in these patients.
Key words: Pain in critical patient. Analgesia in ICU.
Introdução dação é importante considerar-se o alívio do
A dor e a sedação do doente em estado críti- medo e da ansiedade, proporcionar aos doentes
co são, habitualmente, consideradas conjunta- noites com um bom sono, e tratar a dor. Enquan-
mente. Neste texto vai abordar-se, especifica- to o doente tiver dor, não se pode considerar
mente, a dor no doente internado em Cuidados que esteja sedado. Embora os opióides, princi-
Intensivos. Esta separação é um pouco forçada, pal grupo analgésico usado em Cuidados In-
na medida em que existe uma relação estreita tensivos, tenham também um efeito sedativo,
entre a analgesia e a sedação. alguns dos principais fármacos sedativos são
A palavra sedação vem do latim sedare que desprovidos de efeito analgésico, pelo que
significa acalmar ou suavizar. Particularmente para não podem ser usados isoladamente em doen-
quem trabalha nos Cuidados Intensivos, é óbvia tes que tenham dor.
a importância de suavizar, acalmar, ou seja,
sedar os doentes. Muitas vezes é impossível A importância do problema
salvar uma vida, mas deverá ser sempre possí- Os resultados dos estudos, cada vez mais
vel diminuir o sofrimento do doente. frequentes, do follow-up dos doentes que esti-
A sedação é um estado de relaxamento e veram internados em Cuidados Intensivos, têm
bem-estar do doente que não implica, necessa- mostrado que, para muitos destes doentes, a
riamente, depressão do estado de consciência. dor foi uma das experiências que mais os per-
Para se conseguir um estado adequado de se- turbou. Num estudo multicêntrico efectuado por
1
Granja C, et al. , englobando 1.433 doentes
adultos, internados em 10 unidades de Cui-
Director do Departamento de Cuidados Intensivos dados Intensivos, verificou-se que em 64%
Hospital Pedro Hispano EPE dos doentes que se recordavam do internamen-
Matosinhos, Portugal
Professor Catedrático convidado da Escola de Ciências to, a dor foi referida com tendo sido a pior ex- DOR
da Saúde da Universidade do Minho periência desse internamento. Em estudos efec-
Braga, Portugal tuados por Donovan M, et al. e por Puntillo KA, 35

