Page 38 Volume 17 - N.2 - 2009
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V.C. Klein, M.B. Martins Linhares: Reactividade à Dor e Temperamento em Crianças Nascidas Pré-Termo
temperamento, reactividade e auto-regulação pouco adaptável, e a experiência prévia de dor
foram preditores de reactividade à dor durante
O temperamento da criança destaca-se entre uma situação de vacinação aos cinco anos de
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as variáveis pessoais que exercem influência idade . Aos sete anos de idade, queixas somá-
relevante no desenvolvimento e relacionam-se a ticas foram preditas pelo temperamento «não-
desfechos adaptativos ou desadaptativos . Este ajustado» da criança e pela maior reactividade
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desempenha um relevante papel na formação à dor na fase pré-escolar .
da personalidade do indivíduo e nas suas rela-
ções com os diferentes contextos ambientais. reactividade à dor e temperamento
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Segundo Muris e Ollendick , a vulnerabilidade
da criança para apresentar psicopatologias é em crianças nascidas pré-termo
influenciada pelo seu temperamento. Estudos recentes têm demonstrado a relação
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De acordo com Rothbart , o temperamento é entre respostas biocomportamentais de reactivi-
entendido como diferenças individuais com base dade e recuperação à dor e stress na primeira
constitucional na reactividade e auto-regulação, semana de vida extra-uterina de bebés pré-ter-
influenciadas ao longo do tempo pela heredita- mo e o seu temperamento na fase dos 18 aos
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riedade e pela experiência. A constituição é de- 35 meses e na fase dos 37 aos 54 meses 20,23 .
finida como a composição relativamente biológi- Klein, et al. identificaram que maior reactivida-
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ca do indivíduo, influenciada através do tempo de às situações de stress e dor na fase neonatal
pela hereditariedade, maturação e experiência. foi preditora de maiores scores no factor do tem-
A reactividade é entendida como características peramento afecto negativo e nas dimensões a
da responsividade individual a mudanças de es- este relacionadas, medo e frustração, na fase
timulação externa ou interna apresentada em dos três primeiros anos, após controlar o efeito
diversos níveis (comportamental, autonómico, das variáveis idade gestacional, gravidade clíni-
neuroendócrino) e por meio de parâmetros de ca neonatal e quantidade de exposição a pro-
latência, tempo de aumento, intensidade máxi- cedimentos dolorosos. A dimensão do tempera-
ma e tempo de recuperação da reacção. A re- mento medo inclui dificuldade, preocupação ou
actividade pode referir-se tanto a dimensões nervosismo relacionado à dor e ao stress ante-
mais gerais do comportamento, como reactivi- cipados e/ou situações potencialmente ameaça-
dade emocional negativa, quanto a reacções doras. A dimensão frustração, por sua vez, refe-
fisiológicas mais específicas, como reactividade re-se a afecto negativo relacionado à interrupção
cardíaca . A reactividade emocional também de tarefas em andamento ou a bloqueio de ob-
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inclui tendências de acção, de forma que o jectivos. Os achados deste estudo mostraram
medo pode produzir imobilidade, ataque e/ou que os neonatos que foram mais reactivos a
inibição e a afectividade positiva predispõe a estímulos dolorosos e stressantes estavam
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aproximação . A auto-regulação é definida mais propensos a exibir afecto negativo ao
como processos que modulam essa reactivida- enfrentar situações potencialmente stressoras
de, incluindo aproximação ou retraimento com- e em situações nas quais não conseguiam al-
portamental, controlo inibitório e controlo de cançar os seus objectivos na fase dos três
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atenção. Consiste nos mecanismos usados pelo primeiros anos. Noutro estudo , identificou-se
indivíduo para controlar as suas reacções com- que menor idade gestacional e maior reactivi-
portamentais e emocionais a fontes de estimu- dade cardíaca ao stress antes do procedimen-
lação positiva ou negativa. to doloroso na fase neonatal foram preditores
Há evidências acerca da relação entre reacti- de maiores scores na dimensão do tempera-
vidade do feto 8,9,40 e do bebé 16,41 e o tempera- mento desconforto na fase pré-escolar. Des-
mento em fases posteriores do desenvolvimento. conforto é definido como a quantidade de
Maior reactividade do feto no terceiro trimestre afecto negativo relacionado às qualidades
de gestação foi preditora de maior reactividade sensoriais da estimulação, incluindo intensida-
motora em resposta a estímulos novos, maior de, frequência ou complexidade da luz, movi-
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reactividade negativa , irritabilidade e choro mento, som e textura.
na infância. Estes achados enfatizam a tendên- Se por um lado os padrões de reactividade
cia constitucional da reactividade inicial. A ava- à dor foram preditores do temperamento em
liação de parâmetros como o limiar de resposta idades posteriores, por outro lado a quantida-
de um bebé para responder aos estímulos, bem de de exposição à dor no período neonatal
como da intensidade e duração da resposta tan- não apresentou associação com nenhuma di-
to ao nível fisiológico como comportamental, mensão do temperamento na fase dos três
pode ser uma «janela» para compreender o tem- primeiros anos e na fase pré-escolar 20,21,23 . A
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peramento da criança . combinação desses achados revela que, em
Uma das dimensões da reactividade ao stress relação ao temperamento, a questão relevante
e da capacidade de se auto-regular é a reacti- não é a quantidade de exposição aos estímu-
vidade à dor . Em crianças nascidas a termo, los dolorosos ambientais, mas como os neona- DOR
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o temperamento «não-ajustado», indicativo de tos pré-termo se regulam em resposta a esses
humor negativo, retraimento e comportamento estímulos. 37
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