Page 36 Volume 18 - N.2 - 2010
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F.L. Moreira Neto: Medicina de Translação em Dor: o Que Nos Ensinam os Modelos Animais?
«básico» com as necessidades com que se de- terapêutica será mais adequada do que outra
param os médicos na sua prática clínica diária num caso clínico em particular e não noutro. Só
que resulta o avanço da ciência no sentido de assim, e idealmente em cooperação com inves-
melhor compreender a doença para melhor a tigadores básicos, poderá ajudar no avanço
amenizar, tratar, curar. Por isso é desejável que desse conhecimento e no desenvolvimento de
os cientistas «básicos» reconheçam os desafios terapêuticas mais eficazes e com menores efei-
com que os clínicos se deparam para que direc- tos secundários. A importância de um clínico
cionem alguma da sua investigação para um rumo manter uma atitude de interesse em relação às
que permita superar mais eficazmente alguns ciências básicas reside, para além da curiosida-
desses problemas. A maioria da investigação bá- de natural que se possa ter, no entendimento dos
sica na área da dor usa animais de laboratório, fenómenos fisiopatológicos que estão na base
donde se destacam com grande superioridade da doença que tratam, na compreensão das op-
os roedores. Ainda que existam grandes diferen- ções terapêuticas que são tomadas diariamente
ças entre humanos e roedores, nomeadamente na relação com os doentes e na intervenção que
no que respeita ao grau de complexidade do se possa ter nos avanços do conhecimento. Esta
processamento cognitivo e emocional, os siste- última consiste naquilo que é hoje o conceito de
mas nervosos central e periférico destas espé- «medicina de translação».
cies apresentam uma grande similaridade no que O termo «medicina de translação em Dor», ou
se refere aos mecanismos biológicos básicos de «investigação de translação em Dor» refere-se
funcionamento, como sejam os neurotransmisso- geralmente à investigação básica ou de labora-
res envolvidos, as vias de sinalização, os circui- tório em modelos animais, e à tentativa de que
tos sinápticos. Mais próximos filogeneticamente esta tenha uma tradução directa na prática clí-
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dos humanos são os primatas não-humanos, nica . No entanto, na área da Dor, assim como
cujos comportamentos cognitivo e sobretudo na maioria de outras áreas médicas, a percen-
emocional se assemelham grandemente ao do tagem de sucesso na transição de um compos-
Homem. No entanto, o uso destes animais em to, considerado um bom candidato em estudos
experimentação levanta sérias questões éticas, pré-clínicos, para um medicamento efectivo, re-
além de que pressupõe a existência de condi- gistado, aprovado pelas autoridades legais com-
ções de alojamento e manutenção apropriadas petentes e lançado no mercado, é extremamen-
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e muito dispendiosas. Assim, nós, investigadores te baixa . Daí que neste conceito de medicina de
«básicos», temos que tentar ver a nossa inves- translação se reflectem um conjunto de medidas
tigação e os nossos ratos numa perspectiva clí- implementadas pelas grandes companhias far-
nica, não só porque será esse o nosso objectivo macêuticas empenhadas em lançar novos me-
final mas também porque as agências de financia- dicamentos no mercado. Estas medidas, que têm
mento assim o exigem. No entanto, a nossa forma- como objectivos melhorar a eficiência no desen-
ção de base, menos abrangente que a formação volvimento, na avaliação do potencial terapêuti-
de um médico, por vezes dificulta-nos essa trans- co, de segurança e tolerabilidade e da dosagem
lação. É aí que os clínicos, na minha opinião, apropriada de potenciais novos fármacos, in-
podem e devem intervir e ajudar. cluem essencialmente:
Os médicos são formados para ver os siste- – Uma confiança aumentada em ensaios pré-
mas biológicos na sua globalidade, como inte- clínicos farmacocinéticos e farmacodinâmi-
ragem, quais as repercussões a nível da totalida- cos durante a fase de optimização de um
de do organismo e não só num órgão ou sistema composto.
em particular. Sobretudo nos últimos anos da – A identificação de biomarcadores válidos
sua formação, são o reconhecimento dos sinto- para o efeito terapêutico esperado e a im-
mas, da patologia e o modo como amenizá-la que plementação de uma estratégia de uso de
estão no foco dos seus estudos. São orientados biomarcadores como parte das actividades
para terem uma visão muito prática do que ob- dos ensaios clínicos de fase I (ensaios em
servam e do que aprendem, e depressa esque- pequenos grupos de voluntários); na área
cem os conceitos mais moleculares, apreendi- da dor, a identificação de biomarcadores de
dos nos primeiros anos do curso, género «que actividade em vias nociceptivas em huma-
enzimas intervêm na síntese proteica e que me- nos para desenvolvimento de analgésicos
canismos ocorrem?». De facto, isso não é muito foi revista por Chizh et al. .
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importante na sua prática diária de relação com – Uma interacção precoce entre os ramos
os doentes. Mas é importante manterem a curio- pré-clínico, comercial, legislador e clínico da
sidade científica que permitiu ao longo de déca- organização de forma a assegurar que as
das os avanços da Medicina de que hoje se diversas fases de descoberta/desenvolvi-
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valem para tratar os seus doentes! E por isso, tal mento do fármaco se encontrem alinhadas .
como é importante um cientista básico ler artigos Esta interacção entre a investigação básica e
de cariz mais clínico para perceber onde existe clínica tem, na indústria farmacêutica, como ob-
uma ponte no que investiga para a clínica, é ne- jectivo prioritário a redução do risco de fracasso
cessário que um médico se mantenha informa- na identificação de fármacos com eficácia tera-
do dos mais recentes avanços na investigação pêutica e simultânea segurança, tolerabilidade DOR
básica referente à sua área de especialidade. e propriedades cinéticas adequadas em huma-
Só assim compreenderá porque uma abordagem nos. Para além de múltiplos factores, incluindo 35

