Page 22 Volume 18 - N.4 - 2010
P. 22



G. Dores: Ensino da Analgesia Pós-Operatória em Portugal – A Actualidade e Propostas Para o Futuro
ao nível dos internatos médicos, apenas a espe-
cialidade de Anestesiologia inclui formação obri-
Ensino da gatória em dor. A actualização do Programa de
analgesia pós-operatória Formação do Internato de Anestesiologia , publi-
20
cada em Janeiro de 2011, reforça a importância
da aquisição de conhecimentos na abordagem
Formação Informação da DPO e da integração dos profissionais em
profissionais de saúde do doente e/ou cuidador formação na actividade das unidades de dor
aguda. Pelo contrário, a actualização do Programa
Formação de Formação do Internato Médico de Cirurgia
pré-graduada Geral, publicada na mesma data, não faz qual-
20
quer referência à abordagem da DPO .
No que concerne às actividades de formação
Formação contínua relacionadas com os cuidados de anal-
pós-graduada
gesia pós-operatória, a concretização das inicia-
tivas de formação da equipa multidisciplinar de
profissionais de saúde envolvidos nos cuidados
Figura 2. Organização do ensino da analgesia perioperatórios é frequentemente dificultada
pós-operatória.
pelo reduzido número de estruturas organizati-
vas locais (unidades de dor aguda) capazes de
assegurar esta actividade, bem como pela ha-
bitual escassez de alocação de recursos huma-
transmissão de conhecimentos para os princi- nos e materiais a tarefas não assistenciais.
pais intervenientes do processo de abordagem O estudo Postoperative Analgesic Therapy
da DPO, nomeadamente os profissionais de saú- Observational Survey – Inquérito Observacio-
de e o doente (Fig. 2). No entanto, não deverá nal da Terapêutica Analgésica Pós-Operatória
ser esquecida a importância da formação de (PATHOS) , realizado em 2005, em sete países
15
gestores e administradores de saúde relativa- europeus incluindo Portugal, com o objectivo de
mente às consequências deletérias da DPO, de avaliar as práticas de tratamento da DPO, reve-
forma a entenderem como são prioritárias as lou que nas 746 unidades hospitalares analisa-
medidas dirigidas à melhoria da qualidade da das ainda existe espaço considerável de melho-
sua abordagem. ria dos cuidados de analgesia pós-operatória.
Relativamente à formação dos profissionais de
Formação pré-graduada dos profissionais saúde, 34% dos 1.558 profissionais de saúde
de saúde inquiridos (anestesiologistas e cirurgiões) consi-
Relativamente ao ensino pré-graduado da dor, deraram não existir formação regular em dor
a presença do tema nos planos de estudos dos proporcionada pela instituição onde desempe-
cursos que formam profissionais de saúde (Me- nham a sua actividade (Quadro 1). No entanto,
dicina, Medicina Dentária, Enfermagem, Fisiote- 78,6% dos profissionais de saúde portugueses
rapia, Farmácia e Psicologia) é muito reduzida inquiridos referiram existir formação regular, re-
ou mesmo nula 18,19 . Além disso, a análise dos lativa à abordagem da DPO, destinada aos
planos de estudos de alguns destes cursos per- anestesiologistas.
mite concluir que os conteúdos relacionados Estes dados sugerem a seguinte questão:
com a dor se encontram frequentemente disper- Será que o baixo investimento na formação dos
sos ao longo de todo o plano curricular (apenas profissionais de saúde portugueses, relativa-
uma Faculdade de Medicina tem no seu plano mente à abordagem da dor, se traduz num nível
de estudos uma disciplina dedicada à dor, mas reduzido de conhecimentos?
a sua frequência é opcional 18,19 ). Este modelo de A resposta a esta questão fica obviamente
aprendizagem, em que a integração da infor- afectada pela escassez da investigação realizada
mação que vai sendo apresentada esporadica- nesta área. No entanto, dois estudos realizados
mente ao longo dos vários módulos deve ser recentemente em Portugal merecem uma refe-
realizada pelo aluno, poderá ser responsável por rência particular. 21
fragmentação de conhecimentos e omissões im- O primeiro estudo foi realizado em 2005, na
portantes. Beira Interior, envolvendo uma amostra constituí-
da por 421 profissionais de saúde (médicos e
enfermeiros) de 4 hospitais e 10 centros de saú-
Formação pós-graduada dos profissionais de, e 193 indivíduos da população em geral.
de saúde Teve como objectivo comparar a «opioidofobia»
A nível da pós-graduação académica, é pos- entre os dois grupos de participantes no estudo.
sível encontrar em Portugal uma ampla oferta de Os resultados demonstraram existirem falsas
cursos e mestrados em dor. crenças relativas ao uso de opióides em ambos DOR
No entanto, no que diz respeito à formação pro- os grupos em estudo (profissionais de saúde e
fissional, o cenário é bem diferente. Por exemplo, população), e os seus autores concluíram pela 21
   17   18   19   20   21   22   23   24   25   26   27