Page 18 Volume 18 - N.4 - 2010
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Â. Gaspar, M. Morais de Almeida: Hipersensibilidade aos Anti-Inflamatórios Não-Esteróides
Num estudo realizado em Portugal, três das Em doentes com hipersensibilidade ao AAS/AINE
32 provocações orais realizadas com rofecoxib e doença coronária concomitante, diferentes pro-
em doentes com hipersensibilidade a AINE foram tocolos têm sido preconizados, habitualmente para
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positivas (9%) . doses de manutenção de 100 a 150 mg de as-
El Miedany, et al., avaliando a tolerância do pirina 52,53 . Em mulheres com síndrome de anti-
etoricoxib (60, 90 e 120 mg) em 77 doentes com corpos antifosfolípidos, as dessensibilizações
DREA, demonstraram que nenhum dos doentes têm sido realizadas com êxito em mulheres grá-
reagiu na provocação, concluindo da segurança vidas que precisaram de tratamento com AAS
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da utilização deste inibidor selectivo da COX-2 em doses antiagregantes .
nestes doentes . No entanto, os resultados na A dessensibilização à aspirina em doentes
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urticária/angioedema induzida pelos AINE são com DREA de difícil controlo, ocorre habitual-
ligeiramente inferiores. Pagani, et al. avaliaram a mente em dois a três dias, até atingir a dose
tolerância ao etoricoxib em 139 doentes com de manutenção de 325 a 650 mg duas vezes
hipersensibilidade a AINE, tendo encontrado ao dia . Os estudos têm demonstrado que a
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quatro respostas cutâneas positivas (2,8%) . dessensibilização nestes doentes conduz a uma
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Muratore, et al. avaliaram a tolerância ao etori- melhoria significativa da sintomatologia brônqui-
coxib em 37 doentes, tendo três deles reagido ca e nasal, com redução da corticoterapia sis-
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com urticária generalizada (8%) . témica e prevenção de sinusite e polipose nasal
recorrente 4,55 .
Dessensibilização Conclusões
A dessensibilização está reservada a casos
excepcionais em que o fármaco é imprescindí- A prevalência de hipersensibilidade ao AAS e
vel. Se existir hipersensibilidade comprovada ao outros AINE varia entre 0,3 a 2,5%, na popula-
fármaco, sem tratamento alternativo, e na ausên- ção geral, aumentando para 10 a 21% nos do-
cia de contra-indicações absolutas para a reali- entes asmáticos e até 20 a 40% na urticária
zação da dessensibilização, tais como reacções crónica.
imunocitotóxicas graves, vasculite sistémica e Os fenótipos de apresentação clínica são varia-
toxidermias graves como síndrome de Stevens- dos, com manifestações desde rinoconjuntivite,
Johnson, necrólise epidérmica tóxica (NET), sín- asma, urticária a choque anafiláctico. A doença
drome de hipersensibilidade com eosinofilia e respiratória exacerbada pela aspirina é caracte-
sintomas sistémicos (DRESS) e pustulose exan- rizada pela presença de asma, rinossinusite,
temática aguda generalizada (AGEP). polipose nasal e hipersensibilidade ao AAS.
A dessensibilização é um procedimento de O principal mecanismo patogénico implicado
risco, que deve ser sempre realizado em meio ocorre por alteração no metabolismo do ácido ara-
hospitalar e por pessoal médico diferenciado. quidónico, por inibição da enzima COX-1, com
Baseia-se na administração regular do medica- desvio para a via da LO, com aumento da sín-
mento, em doses crescentes, até à dose de tese de leucotrienos com marcada actividade
manutenção pretendida, que deve ser mantida pró-inflamatória e propriedades broncoconstrito-
diariamente. ras e diminuição de prostaglandinas com acção
As principais indicações para a realização de anti-inflamatória.
dessensibilização à aspirina são: Os testes cutâneos não são recomendados
– Necessidade de tratamento com baixas do- na investigação da maioria destes doentes e, na
ses de aspirina (terapêutica antiplaquetária), ausência de testes in vitro de eficácia compro-
em caso de doença coronária com indica- vada, a prova de provocação torna-se essencial,
ção para terapêutica crónica de dupla an- quer na abordagem diagnóstica quer na institui-
tiagregação e na síndrome de anticorpos ção de alternativas terapêuticas.
antifosfolípidos. O paracetamol e os inibidores selectivos (co-
– Necessidade de melhorar o controlo da xibes) e parcialmente selectivos (meloxicam) da
DREA, com asma corticodependente, rinos- COX-2 são fármacos habitualmente bem tolera-
sinusite resistente à terapêutica ou polipose dos nestes doentes. Em casos excepcionais a
nasal recorrente. dessensibilização está indicada, quando o fár-
– Necessidade de tratamento crónico anti-infla- maco é imprescindível e não existe tratamento
matório, em caso de patologia osteoarticular, alternativo.
em que não foi conseguido um tratamento
alternativo. Este último ponto, com o apareci- Bibliografia
mento dos inibidores selectivos da COX-2, 1. Johansson SG, Bieber T, Dahl R, et al. Revised nomenclature for
apenas em raras situações será motivo para allergy for global use: Report of the nomenclature review committee
dessensibilização a AINE. of the World Allergy Organization, October 2003. J Allergy Clin Im-
munol. 2004;113:832-6.
Os diferentes protocolos de dessensibilização 2. Morais de Almeida M, Gaspar A, Carvalho F, Abreu Nogueira J, Ro-
existentes dependem, entre outros factores, da sado Pinto J. Hipersensibilidade aos anti-inflamatórios não esteróides DOR
- novas e velhas estratégias. Rev Port Imunoalergol. 1998;5:335-43.
dose de AAS/AINE necessária para o tratamen- 3. Szczeklik A, Nizankowska-Mogilnicka E, Sanak M. Hypersensitivity
to da patologia de base do doente. to aspirin and other NSAIDs: Mechanisms, clinical presentation and 17
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