Page 33 Volume 20 - N2 - 2012
P. 33
Dor (2012) 20
de integração e actualização da informação es- dentro do spatial field sofreram alterações após
pacial. No entanto, este tipo de informação é lesão do nervo, tendo sido observado um pico
apenas uma das várias características armaze- nessas alterações a partir do dia 7 após lesão
nadas e processadas pela rede hipocampal 51,52 , (codificação em média de dois spatial fields por
sendo de primordial interesse por esta razão célula). Curiosamente, 21 dias após a lesão do
determinar quais os factores, incluindo a dor, nervo a maioria das células voltaram a codificar
que poderão contribuir para a perturbação das em média apenas um spatial field, tal como foi © Permanyer Portugal 2012
estabilidade das place cells. observado durante o período controlo. Uma pos-
Em termos de performance na tarefa experi- sível hipótese que pode explicar este efeito tran-
mental, os animais apresentaram apenas uma sitório é uma redução do nível de dor nos animais
redução residual nos primeiros dias a seguir à com lesão, no entanto não existem diferenças
cirurgia de lesão, sendo que este efeito foi par- estatísticas entre os dias 15 e 21 após lesão na
tilhado pelo grupo de controlo e pelo grupo de avaliação com o teste de von Frey. Por outro lado,
dor. Estes resultados estão de acordo com da- o segundo spatial field codificado ocupa uma
dos publicados em estudos prévios, nos quais localização não adjacente ao primeiro, o que
é demonstrado que não existem alterações na sugere que o remapeamento induzido pela dor
performance causadas pela dor em tarefas es- e a expansão do campo são fenómenos diferen-
paciais simples ou em tarefas não espaciais de tes. Alguns estudos publicados demonstraram
memória 53-55 , todavia em tarefas mais complexas que os spatial fields podem sofrer modificações
de memória foram observados défices causados entre cada sessão de registo e que esse facto
por dor 56,57 . Por outro lado, o efeito temporário pode estar associado a uma contínua actualiza-
na performance (Fig. 2 B) não está temporal- ção da informação espacial 50,59 . Esta hipótese
mente correlacionado com o pico de instabilida- não se aplicada aos resultados apresentados
de das place cells (Fig. 4 A), sugerindo que a neste estudo, devido ao facto das sessões de
instabilidade observada nos spatial fields não é registo do período de controlo apenas serem
causada por défice motor ou diminuição do nível iniciadas após várias sessões prévias de treino
de motivação dos animais. na tarefa. Por outro lado, a avaliação estatística
Todavia, é importante referir que a tarefa utili- das sessões de controlo demonstrou não existi-
zada neste estudo não é específica ou está de- rem diferenças entre as várias sessões e entre
pendente do funcionamento hipocampal. Outros os grupos experimentais.
estudos também utilizaram tarefas não depen- Além dos estudos envolvendo lesões do hipo-
dentes do hipocampo, como por exemplo tare- campo ou de áreas interconectadas ao hipocam-
fas de escolha forçada para examinar as carac- po 15,17 , não existem estudos a nível da avaliação
terísticas dos spatial fields, demonstrando que da estabilidade de campos espaciais na ausên-
as place cells podem desenvolver mecanismos cia de alterações no meio ambiente de teste.
de remapeamento espacial mesmo em tarefas Em modelos de stress, a estabilidade da activida-
não dependentes do hipocampo 4,46,58 . de das place cells a nível do spatial field é altera-
da, mas não a localização dos spatial fields . Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação.
60
Actividade das place cells da área CA1 Por outro lado, ratos expostos a um ambiente
após indução de dor crónica familiar evidenciaram não existirem alterações
As propriedades básicas de disparo das pla- na estabilidade dos spatial fields ao longo do
ciclo menstrual .
42
ce cells da área CA1 permaneceram estáveis Vários estudos demonstraram que a instabi-
após lesão periférica do nervo. Estas proprie- lidade dos spatial fields é acompanhada por
dades incluem a taxa média de disparo e o um aumento do número de spatial fields, o
índice de capacidade de discriminação espa- mesmo fenómeno foi observado no presente
cial que permaneceu inalterada entre ambos os estudo. A expansão dos spatial fields é redu-
grupos. Tal facto implica que ambos os grupos zida em ratos de idade avançada 61,62 e pode
evidenciaram uma actividade de disparo propor- ser bloqueada selectivamente a nível dos re-
cional. Por outro lado, a análise do índice de ceptores de N-metil-D-aspartato (NMDA) .
63
especificidade , uma medida de avaliação da Todavia, ainda são escassos os dados a nível
49
actividade espacial de disparo que não requer da interacção entre o hipocampo e a dor cró-
que uma região específica seja definida como nica. Alguns estudos provaram existir altera-
spatial field, revelou uma diminuição significativa ções nos mecanismos de LTP hipocampal 35,36 .
no grupo de animais com lesão, indicando que A administração de antagonistas do receptor
a actividade dos neurónios deste grupo de ani- NMDA (NMDAr) no hipocampo interfere com
mais aporta menor informação acerca da locali- os mecanismos de LTP e também medeia me-
zação espacial. canismos de neuroplasticidade induzidos por
32
dor no hipocampo ou na medula espinal 64-66 .
A dor crónica afecta a estabilidade Por outro lado, quando aplicados a nível do
DOR dos spatial fields sistema nervoso central (SNC), atenuam com-
As características espaciais, como o número de
portamentos dolorosos em modelos de dor neu-
32 spatial fields codificados e coerência de disparo ropática 67-69 e de dor inflamatória 65,66 . Para além

