Page 24
P. 24




V. Galhardo: Reorganização Funcional de Populações de Neurónios Somatossensitivos Espinais e Talâmicos Induzida por Dor Persistente
igualmente que as alterações mais significativas surgem
na resposta à estimulação não dolorosa, e são conse-
quência directa da melhoria da relação sinal/ruído. A
figura 5 apresenta os gráficos de auto e heterocorrelação
de 9 neurónios registados simultaneamente, onde se
observa que a injecção de formol aumenta a capacidade
populacional dos neurónios para acompanharem a esti-
mulação não dolorosa, mas não altera a conectividade
funcional durante a estimulação dolorosa.

Discussão
A maior parte dos resultados de estudos electrofisioló-
gicos sobre a plasticidade nociceptiva dizem respeito às
alterações nas respostas de neurónios singulares induzi-
das em modelos animais de hiperalgesia. Uma das
observações, retirada da comparação da plasticidade
nociceptiva das populações da medula espinal 13,14 e do
tálamo lateral , era a de que os neurónios das duas
11
regiões apresentavam alterações muito semelhantes en-
tre si: maior actividade espontânea, expansão dos cam-
pos receptivos, redução do limiar de excitabilidade e
respostas que se prolongam para além do fim da estimu-
lação. A única diferença importante dizia respeito à
incidência preferencial da plasticidade: na medula espi-
nal ocorriam principalmente grandes alterações na exci-
tabilidade neuronal, com alteração dos campos recepti-
vos relativamente restrita 10,20 , enquanto no tálamo e no
córtex somatossensitivo a plasticidade nociceptiva acar-
retava especialmente grandes modificações na extensão
e complexidade dos campos receptivos 21-23 .
Estas observações estão de acordo com dados ana-
tomofisiológicos básicos. Os campos receptivos das
células nociceptivas espinais, especialmente das lâmi-
nas superficiais, são habitualmente pequenos 24-26 , en-
quanto uma porção das células nociceptivas talâmicas
e corticais possuem campos receptivos mais extensos
que os neurónios não nociceptivos 22,27 . Por outro lado,
enquanto à medula espinal os sinais periféricos che-
gam decompostos por patamares de excitabilidade
cutânea e se distribuem por regiões espinais bem
definidas 25,28 , as projecções supra-epinais são bastante
mais convergentes: às mesmas regiões talâmicas che-
gam axónios oriundos simultaneamente de populações
das lâminas superficiais e das lâminas profundas da
medula 29-31 . Este ponto sugere que o processamento
sensorial local efectuado pelas populações espinais
será bastante distinto do realizado pelas populações do
Figura 4. tálamo lateral dada a grande diferença existente entre
A. Alterações das propriedades de resposta de os tipos de sinais disponibilizados a cada região e
neurónios espinais induzidas por injecção subcutânea atendendo também à enorme integração talâmica da
de formol. Os gráficos são histogramas da frequência de informação táctil . A maior uniformidade morfológica
32
actividade neuronal, registados simultaneamente numa 33
população de 6 neurónios na lâmina V do corno dorsal dos neurónios de vários núcleos do tálamo lateral
da medula espinal, antes e 90 min após a injecção de estará decerto relacionada com esta também uniforme
formol. As barras verticais cinzentas marcam os distribuição da informação espinal ascendente. Pelo
períodos de estimulação táctil aplicada à pele glabra contrário, a heterogeneidade morfológica entre as po-
da pata posterior: T – tacto não doloroso; pulações laminares da medula espinal estará adaptada
P – pressão dolorosa.
B. Distribuição dos neurónios por classes de à distribuição dos aferentes primários por territórios
excitabilidade, antes e 90 min após a injecção de bem definidos e sugere que aí se realiza um tipo de
formol. NR – neurónios não excitáveis; processamento local diferente do talâmico.
T – neurónios que respondem apenas a tacto não A semelhança encontrada na plasticidade neuronal
doloroso; P – neurónios que respondem apenas a individual é, pois, difícil de conciliar com os dados
pressão dolorosa; T + P – neurónios que respondem a DOR
ambas as estimulações. funcionais básicos. Os resultados experimentais aqui
apresentados mostram que as diferenças funcionais 23
   19   20   21   22   23   24   25   26   27   28   29