Page 18 Volume 12, Número 3, 2004
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L. Oliveira Andrade: Qualidade de Vida, no Morrer...
necessidade de se manter a qualidade no morrer, para o im- A “sacralidade da vida” levanta outro problema ético na
pacto social causado pela morte por doença oncológica, questão da qualidade de vida.
e para os princípios que deveriam regular a acção de “[...] é muitas vezes apresentado em oposição com o do
quem cuida daqueles que, com este tipo de morte sofrida, carácter sagrado da vida. [...] os defensores deste último
deixam esta vida. preconizam a protecção “quase absoluta” da vida humana [...]
A palavra qualidade sugere bem-estar, algo de bom. No en- a sua principal objecção reside nesta questão: com que direi-
tanto, que sabemos nós do que é o “bom” para quem sofre? to se decreta que uma vida vale ou não a pena ser vivida?
Vida humana leva-nos a pensar em dinamismo interior, tro- Que uma tem menos qualidade ou importância que outra?”.
cas com o meio, equilíbrio de fluxos, metabolismo. E, para os (Hottois e Parizeau 1998:315). O conceito de qualidade de
crentes, a vida humana é também o resultado da “acção da vida.
alma na matéria” (Leone e Privitera 1127). Numa sociedade em que a morte passou a ser assunto
No entanto, toda a vida e, como tal, também, a humana tem inconveniente e quase proibido, o fim de vida por doença
um fim, a morte. Mas, o homem actual não convive naturalmen- oncológica é muitas vezes mascarado com falsas respostas
te com a morte. Habituado que está a ser capaz de quase tudo relativamente ao verdadeiro estado do doente, pela rejeição
dominar na natureza, não consegue dominar a morte! por parte dos técnicos de saúde em aceitar a derrota de uma
Ao juntar novamente as palavras “qualidade” e “vida”, ob- batalha contra o cancro, mantendo as terapias invasivas em
tenho “qualidade de vida”. Esta expressão representará, en- detrimento de preparar o doente para uma morte digna, e por
tão, todo este dinamismo que caracteriza a vida. Ocorrendo mortes solitárias resguardadas nos quartos do fundo do cor-
num bem-estar... vamos de encontro ao que Aristóteles inter- redor de um hospital.
pretou como uma boa vida. Uma vida em felicidade. Sem desejar generalizar o problema, pois cada caso é
Mas, o que é de facto a qualidade de vida? Para a OMS único, tal como a pessoa que o vive, levanto aqui a questão
(Couvreur 1999:42) “Trata-se da percepção, por parte de in- “não será tão importante morrer com qualidade, como viver
divíduos ou grupos, da satisfação das suas necessidades e com ela?”.
daquilo que não lhes é recusado nas ocasiões propícias à sua Urge, assim, falar de dignidade, a qual, segundo Kant
realização e à sua felicidade”. (Pacheco 2002) traduz o direito que cada homem tem de ser
É de realçar o carácter subjectivo e particular desta expres- reconhecido como um ser que é um fim, e nunca um meio
são, (Leone e Privitera 2001:947-9) consideram que se toma ao serviço dos fins dos outros. “Quando uma coisa tem um
consciência da “qualidade” quando a “quantidade” já não é preço, pode pôr-se em vez dela qualquer outra como equi-
de preocupação inerente à sobrevivência. valente; mas, quando uma coisa está acima de todo o preço,
Após o fim da II Grande Guerra, a economia começa a e, portanto, não permite equivalente, então tem ela dignida-
ascender, a ciência e a técnica desenvolvem-se e trazem de” (Kant 1995:71-2).
novas descobertas para combater e prevenir doenças. A Segundo o professor Dr. António Sarmento, nas XVI Jorna-
esperança média de vida aumenta. As ciências humanas dão das da Pastoral da Saúde, em Fátima, em Novembro de 2002,
a conhecer os aspectos psicológicos do homem e chamam a “a pessoa que está a morrer tem toda a dignidade de qualquer
atenção para a relação dos homens em sociedade. O homem ser humano, em qualquer fase da vida, e é em função dessa
torna-se mais atento e, para os mesmos autores (p. 947), dignidade que tem que ser tratada”.
apercebe-se que a maravilhosa evolução que a técnica, a
ciência e a medicina alcançaram, para além de maravilhosas
e úteis podem ser-lhe também prejudiciais. O progresso da Reflexão ética
biomedicina e as intervenções cada vez mais invasivas na Na vida social torna-se necessário distinguir o que é bom
vida humana induziram as várias tomadas de posição relati- ou mau para as pessoas, sem esquecer a singularidade que
vamente à importância da “qualidade”. caracteriza cada uma. Para que a socialização de seres úni-
Assim, em 1964, é introduzida a expressão “qualidade de cos seja possível, torna-se indispensável orientar a conduta
vida” no vocabulário corrente por Lyndon B. Johnson (Hottois individual por valores.
e Parizeau 1998), defendendo, no entanto, que a quantidade Na sociedade actual, “procura-se o juízo moral sobre qual-
não é só por si suficiente para existir qualidade. Segundo os quer comportamento da vida da pessoa ou da comunidade,
mesmos, “A noção de qualidade de vida exige que se tome nos princípios da bioética” (Leone e Privitera 2001:87). Desta
em consideração a experiência humana na multiplicidade dos forma, Tom Beauchamp e James Childress, no seu livro Prin-
seus aspectos, sem a limitar à sua dimensão estritamente ciples of Biomedical Ethics (2001), consagram a utilização dos
biológica” (Hottois e Parizeau 1998:314). princípios na abordagem de dilemas e problemas éticos. Será
A consciência ética desperta então para a qualidade de efectuada aqui uma reflexão à luz dos princípios da beneficên-
vida. No entanto, abordar o assunto não é fácil, dada a sub- cia, não-maleficência, justiça e autonomia como descritos por
jectividade de que se reveste e dados os problemas éticos Leone e Privitera no Dicionário de Bioética (2001:874-9).
que levanta, particularmente, no campo da medicina. O princípio da beneficência, para os mesmos autores,
Que investimentos terapêuticos prosseguir e quais os que consiste na obrigação de promover o bem, o que implica a
se devem interromper em cada caso específico? Como se ponderação entre benefícios e prejuízos. É a obrigação mo-
pode proporcionar qualidade de vida a um doente terminal, ral de agir no interesse do doente.
que nem foi informado do prognóstico da sua doença? A Esconder a verdade a alguém que interiormente sabe que
nossa noção de qualidade vai ao encontro da do outro? De- vai morrer, para lhe poupar o sofrimento, é agir pensando ser
terminadas investidas terapêuticas podem abreviar a morte, essa a melhor atitude para o doente, poupar-lhe a dolorosa
mas irão manter o doente sem dor física. Optar pelas que verdade. No entanto, que sabemos nós da verdade que o
diminuem a dor física, mas encurtam a vida, será violar o doente quer saber, da sua real necessidade? Não será a
carácter sagrado da vida? Outros investimentos vão prolongar “qualidade de vida” afectada por esta acção? Muitas vezes
a vida, por pouco tempo mas, vão também prolongar o sofri- os doentes chegam por si a esta verdade, só precisam que
mento. É lícito? O que fazer em cada caso? lha confirmem!
A qualidade de vida no morrer de hoje por doença onco- Que sabem os outros do que é o bem para o que está a
lógica é um problema bioético da vida em sociedade. É ne- morrer? DOR
cessário reflectir, conhecer o outro, respeitá-lo e assumir ati- No sentido de se proporcionar “qualidade de vida”, pode
tudes empáticas. ser decidido pelos técnicos de saúde investir em determina- 17
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