Page 20 Volume 12, Número 3, 2004
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Dor (2004) 12 M. Guinot: Dor Aguda Pós-operatória: a Importância das Unidades de Dor Aguda
Artigo de opinião
Dor Aguda Pós-operatória: a Importância
das Unidades de Dor Aguda
Marta Guinot
Introdução – Respiratórias: respiração superficial, supressão da tosse,
O alívio da dor, fundamento da medicina, tem repercussões retenção de secreções, atelectasias, hipoxemia.
humanísticas, sociais e económicas. O tratamento da dor é – Cardiovasculares: aumento do consumo de oxigénio
pelo miocárdio, isquemia.
indispensável, complexo e expande-se continuamente repre- – Gastrintestinais: atraso no esvaziamento gástrico, dimi-
sentando, por isso, uma grande possibilidade de acção para nuição da motilidade intestinal, obstipação.
o anestesista moderno e informado. – Geniturinários: retenção urinária.
A International Association for the Study of Pain (IASP)
define dor como “experiência sensorial e emocional desagra- – Neuroendócrinas: hiperglicemia, catabolismo proteico,
retenção de sódio.
dável associada a lesão tecidular real ou potencial ou descri- – Musculoesqueléticas: diminuição da mobilidade, escaras
ta em termos de tal lesão”. de pressão, maior risco de trombose venosa profunda.
Trata-se de um processo complexo influenciado por vários
factores de ordem fisiológica e psicológica. A dor aguda tem
aparecimento recente e duração provável limitada à resolução Avaliação da dor
da lesão que a desencadeou. Como experiência subjectiva que é, a dor torna-se difícil
A optimização dos cuidados prestados aos doentes cirúr- de avaliar e, especialmente, de quantificar. A variabilidade
gicos inclui um controle eficaz da dor incisional. Apesar da interpessoal é um dos factores responsáveis pela sua deficien-
evolução nos conhecimentos de fisiopatologia, de farmacolo- te abordagem terapêutica. No entanto, a mera observação do
gia dos analgésicos e do desenvolvimento de técnicas cada comportamento do doente pode ser insuficiente e pouco fiá-
vez mais eficazes, muitos doentes ainda não recebem anal- vel. Existem métodos de avaliação por escalas que se des-
gesia adequada. tinam a uniformizar critérios, quantificar e avaliar a resposta
A dor aguda pós-operatória é geralmente subavaliada e à terapêutica analgésica. As escalas mais conhecidas e usa-
subtratada, resultando em sofrimento e agravamento do esta- das são:
do geral dos doentes, bem como em internamentos mais – Escala visual analógica.
prolongados, o que posteriormente se traduz num aumento – Escala verbal.
desnecessário dos custos. As razões para um tratamento ina- – Escala numérica.
dequado são múltiplas e incluem deficiências nos conheci- O Serviço de Anestesiologia do Hospital de Santo Espírito,
mentos dos profissionais de saúde, e também dos responsá- em Angra do Heroísmo, desenvolveu um registo de avaliação
veis pela administração dos sistemas de saúde, incluindo as de parâmetros vitais incluindo a dor como o 5º sinal vital. A
instituições governamentais. avaliação baseia-se na escala numérica e tem início na sala
O Plano Nacional de Luta Contra a Dor estabeleceu algu- de recobro, continuando nos serviços de internamento, até
mas prioridades, sendo uma delas a criação de unidades de à data da alta. A avaliação da dor, no pós-operatório, é feita
dor aguda em 75% dos hospitais cirúrgicos. em intervalos regulares, sempre que o doente refere dor e em
Um estudo europeu de 1993 revelou que, apesar de a intervalos adequados após a intervenção analgésica.
maioria dos anestesistas europeus se encontrar insatisfeita
com o tratamento da dor nas enfermarias cirúrgicas, apenas Métodos farmacológicos de tratamento da dor
um terço dos 105 hospitais dos 17 países envolvidos possuí-
am uma unidade de dor aguda organizada! A existência, no mercado, de uma panóplia variada de
fármacos analgésicos não conseguiu, ainda, evitar o tratamen-
Implicações multissistémicas da dor to insuficiente da dor. Para que a analgesia seja satisfatória
deverá ser feita uma avaliação e tratamento individual dos
pós-operatória doentes. A formação adequada dos profissionais de saúde e
A dor aguda pós-operatória refere-se à “dor presente no a existência de protocolos são essenciais, uma vez que pro-
doente cirúrgico, de qualquer idade, em regime de interna- movem a segurança e facilitam uma posterior abordagem in-
mento ou ambulatório, causada por doença preexistente, de- dividualizada dos doentes.
vida à intervenção cirúrgica ou à conjugação de ambas” São cada vez mais os defensores da analgesia multimodal,
(Plano Nacional de Luta Contra a Dor). Não se limita ao des- a qual consiste na combinação de diferentes fármacos ou
conforto e sofrimento infligidos no doente, sendo também métodos não farmacológicos para o tratamento da dor. Permi-
responsável por múltiplas alterações fisiopatológicas: te a utilização de doses mais reduzidas de cada analgésico
Assistente Hospitalar de Anestesiologia Correspondência:
Directora do Serviço de Anestesiologia Marta Guinot
Hospital de Santo Espírito Serviço de Anestesiologia do Hospital de Santo Espírito DOR
Canada do Barreiro Canada do Barreiro
9700 Angra do Heroísmo, Ilha Terceira. Açores 9700 Angra do Heroísmo, Ilha Terceira. Açores 19

