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Dor (2009) 17 J.L. Portela: A Dor no Doente Oncológico – um Desafio
A Dor no Doente Oncológico –
um Desafio
José Luís Portela
dor constitui um dos aspectos mais nefas- de esperar que ela atinja sobretudo as formas
tos no decurso das doenças oncológicas mais avançadas da doença.
A e interfere decisivamente na qualidade de Estamos, pois, perante um problema que,
vida dos doentes. para além do sofrimento individual que tal situ-
Todos os estudos mostram que na evolução ação comporta, é um problema social, atingindo
da doença neoplásica a dor está presente. E se todas as idades e níveis sociais, com particular
nas fases iniciais ela é pouco relevante e pode ênfase nas faixas etárias extremas, como a
ser até importante como sinal de alerta, infeliz- criança e o idoso. Na criança por se considerar
mente pouco frequente, à medida que a doença que a sua capacidade de sentir a dor é menor,
progride e os tratamentos se sucedem, a dor por imaturidade do sistema nervoso, o mesmo
pode atingir níveis elevados. acontecendo no idoso, por senescência do mes-
Os estudos epidemiológicos da dor nas doen- mo sistema. Este conceito é totalmente contra-
ças oncológicas são, de uma maneira geral, es- riado por estudos científicos que demonstram
cassos, repetitivos e bastante variáveis, o que que a capacidade de sentir a dor é exactamen-
se deve, em parte, à grande subjectividade da te igual ao do adulto, embora com diferenças
dor, que condiciona pouca fiabilidade nos resul- relacionadas com as características fisiológicas,
tados, e ainda a algumas limitações de carácter bioquímicas, psíquicas e comportamentais des-
ético neste tipo de estudos. tas idades.
Segundo os dados mais recentes do Registo Estas e outras ideias erradas têm conduzido
Oncológico Nacional (ROR) referentes a 2001, a estados de submedicação perfeitamente ina-
registaram-se nesse ano 33.052 novos casos, veri- ceitáveis, hoje cada vez menos frequentes, que,
ficando-se, também nesse mesmo ano, um total no entanto, continuam a preocupar-nos e a me-
de 21.960 óbitos, o que traduz uma mortalidade recer todo o esforço no sentido de se obterem
elevada (64,4%). Os tumores mais frequentes melhores resultados.
foram, para a mulher, a mama, o cólon e o estô- São várias as razões que estão na base da
mago, e para o homem, a próstata, o pulmão e dor oncológica. Em primeiro lugar, o tumor e as
o cólon. Quanto às taxas de mortalidade por suas metástases, provocando compressão, in-
idade, constata-se que é sobretudo a partir dos vasão ou destruição de estruturas nervosas, vas-
45 anos que se verifica o maior número de óbi- culares, de órgão ou tissulares - os nervos e os
tos, aumentando progressivamente com a idade ossos são as estruturas que mais causam dor
(41,4% a partir dos 75 anos). - contribuindo com cerca de 75% das causas.
Dados de um estudo sobre a prevalência da dor Em segundo lugar, os tratamentos das doenças
crónica em Portugal, realizado pela Faculdade de neoplásicas. Classicamente, consideram-se três
Medicina do Porto, e ainda não publicado, da au- tipos: cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Para
toria do Prof. Castro-Lopes que gentilmente per- além do seu efeito directo sobre o tumor e suas
mitiu a sua divulgação, numa amostra de 5.095 metástases, todos eles são potenciais causado-
entrevistas, conclui-se que a prevalência da dor res de dor, numa percentagem de cerca de 20%.
crónica é de 30% e a da dor oncológica de 1%. É o grande grupo das causas ditas iatrogénicas,
Isto permite-nos concluir que cerca de 27.000 efeitos colaterais que muitas vezes não podem
doentes sofrem de dor relacionada com a doen- ser evitados e são causa de grande sofrimento.
ça oncológica, e, extrapolando, em relação aos Finalmente, numa percentagem mais reduzida
novos casos, podemos estimar que em Portugal (5%), restam as causas que não estão relacio-
mais de 80% dos doentes com doença neoplá- nadas quer com o tumor e suas metástases quer
sica irão desenvolver dor durante o percurso da com os tratamentos, mas que existem como em
doença e, atendendo à mortalidade elevada, é qualquer outro doente e exigem uma avaliação
correcta.
A avaliação no doente oncológico deve ser a
base fundamental duma actuação eficaz.
Partindo, como princípio, que devemos sem-
Director da Clínica de Dor DOR
IPO, Lisboa pre acreditar nas queixas álgicas do doente e
E-mail: ana@esenf.pt, alex@esenf.pt que a dor é aquilo que o doente diz que sente, 5

