Page 30 Volume 17 - N.2 - 2009
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A.F. de Lacerda: Dor na Criança com Doença Oncológica – um Projecto de Aplicação Prática
Figura 3. Caixa de distribuição de medicação. Figura 4. Agulha colocada no abdômen para infusão
subcutânea.
O que deve fazer mais do que um receptor ou via de condução
Para colocar um adesivo: possam estar envolvidos.
– Escolha uma área da pele limpa e seca, O tratamento necessário passa, muitas vezes,
numa zona acima da cintura, onde o medi- por uma combinação de técnicas farmacológi-
camento é melhor absorvido. cas com técnicas não-farmacológicas, bem
– Não deve aplicar o adesivo sobre a pele como medidas de suporte geral.
gretada, queimada, oleosa, cortada ou irrita- As causas mais frequentes de dor na crian-
da. Use somente água para limpar a pele. ça com doença oncológica são as seguintes
– Se tiver dúvidas, peça ajuda à equipa de (Quadro 2).
saúde. Existem mitos e medos que são barreiras ao
– De cada vez que colocar um novo adesivo, tratamento eficaz da dor na criança.
faça-o numa zona diferente da pele, para Mito: As crianças mais novas não sentem dor.
que esta não fique irritada. O sistema nervoso da criança é imaturo e incapaz
– Retire o adesivo antigo antes de colocar o de perceber uma experiência de dor da mesma
novo. maneira que o adulto.
– Faça um calendário para a mudança de Facto: o sistema nervoso central às 26 sema-
adesivos. nas de gestação possui as capacidades anató-
micas e neuroquímicas da nocicepção.
Administração subcutânea de medicamentos Mito: a criança facilmente fica dependente
(sob a pele) dos opióides.
Facto: menos de 1% das crianças tratadas
O seu filho poderá eventualmente necessitar com opióides desenvolvem dependência.
da colocação de um soro ou medicação por via Mito: a criança tolera melhor a dor que os
subcutânea, se não tolerar a via oral ou rectal e adultos.
não tiver um acesso venoso. Facto: crianças mais jovens desenvolvem ní-
Neste caso será colocada uma agulha, tipo bor- veis de dor maiores do que crianças mais ve-
boleta, numa prega da pele. Esta agulha pode ficar lhas. A tolerância à dor aumenta com a idade.
inserida vários dias. É importante que vigie altera- Mito: as crianças são incapazes de dizer onde
ções como dor, vermelhidão, inchaço – caso surjam têm dor.
contacte a equipa de saúde (Fig. 4). Facto: as crianças podem não ser capazes de
exprimir a sua dor da mesma maneira que o
anexo 2 adulto. No entanto, elas são capazes de indicar
Manual de cuidados paliativos em Oncologia no seu corpo a área que lhes dói, ou mesmo
Pediátrica – dor desenhar uma pintura ilustrando a sua percep-
Introdução ção à dor.
Mito: a criança habitua-se à dor ou a procedi-
A dor é o sintoma mais frequente e mais recea- mentos dolorosos.
do em cuidados paliativos. Quase sempre é mul- Facto: em crianças expostas a repetidos
tifactorial. Na avaliação destes doentes, a identifi- procedimentos, aumenta a sua ansiedade e a
cação das diferentes causas de dor, quer sejam percepção da dor.
físicas, emocionais ou comportamentais, é essen- Mito: as crianças dizem sempre quando sen-
cial para a adequação da terapêutica a instituir. tem dor. DOR
Os mecanismos que causam dor podem ser Facto: a criança muitas vezes não se queixa
um ou a associação de vários, o que implica que de dor, porque tem medo da administração 29

