Page 31 Volume 17 - N.2 - 2009
P. 31
Dor (2009) 17
Quadro 2. Etiologia da dor na criança com doença oncológica
Dor relacionada com Dor relacionada com efeitos Dor relacionada Dor relacionada Dor incidental
tumor secundários das com métodos com estados
terapêuticas efectuadas de diagnóstico debilitados
Metástases ósseas Mucosites/esofagites Punção lombar Escaras de decúbito Não relacionada
Compressão/ Polineuropatias periféricas Biopsias Infecções com a doença
envolvimento de Dermatites pós-radioterapia
vísceras/tecidos moles Pós-cirurgia
Compressão/destruição Obstipação
de estruturas nervosas
dolorosa de analgésicos (injecção), ou tem desde que incapazes de exprimir a sua dor;
medo de voltar para o hospital. é a mais utilizada nas crianças em fase
Medos: terminal (Fig. 2).
– Da depressão respiratória. De facto, a de- – Escala comportamental Objective Pain Sca-
pressão respiratória raramente ocorre quan- le (OPS) (1-18 anos – Hannal, et al., 1988);
do a criança tem dor e o opióide utilizado é utilizada na dor aguda − pós-operatório.
no seu tratamento foi bem seleccionado e As escalas de auto-avaliação devem ser utili-
escalonado. A dor actua como um antago- zadas preferencialmente, pois permitem a avalia-
nista natural para o analgésico e para o ção da dor enquanto experiência subjectiva; no
efeito secundário que é a depressão respi- entanto, é necessário que a criança tenha capaci-
ratória. dade para relatar a sua dor. De acordo com Pia-
– Da adicção. get, o desenvolvimento cognitivo a partir dos três
– Que a dor signifique um agravamento da anos permite à criança visualizar os conceitos (fase
doença. pré-conceptual), ou seja, a criança já consegue
– Que o uso da morfina signifique que a mor- descrever a dor como «muita» ou «pouca».
te da criança está próxima. O não referir a Existem inúmeras escalas de auto-avaliação.
dor evita o confronto com essa realidade. Destacamos:
– Escala visual analógica: consiste numa linha
Avaliação da dor recta vertical (preferencialmente) ou hori-
Uma vez que a dor é uma experiência senso- zontal, nas extremidades da qual devem
constar as palavras «sem dor» e «pior dor
rial e emocional, são necessárias várias estraté- possível»; a criança deve marcar na linha
gias para a avaliar correctamente. um ponto que corresponderá à sua intensi-
A avaliação deve ser quantitativa e qualitativa. dade de dor (Fig. 5).
A avaliação quantitativa assenta essencialmente – Escala visual numérica: consiste numa linha
na colheita da história clínica, exame objectivo horizontal graduada de 0 a 10 onde 0 sig-
e história da dor, implica a localização da dor, o nifica ausência de dor e 10 a pior dor pos-
tipo e frequência, factores de alívio e agrava- sível (Fig. 1).
mento, bem como a terapêutica analgésica já – Escala das faces (Wong & Baker): (consiste
efectuada e os resultados obtidos. em seis faces com expressões diferentes
Os métodos disponíveis para avaliação da dor em que se pede à criança para escolher a
em pediatria dividem-se em dois grupos: esca- face que melhor identifica a sua dor; utiliza-
las de hetero-avaliação (comportamentais) e es- da a partir dos três anos) (Fig. 2).
calas de auto-avaliação (unidimensionais e mul- – Escala comportamental Face, Legs, Activity,
tidimensionais). Cry and Consolability (Merkel, et al., 1997):
As escalas comportamentais avaliam a res- A escala FLACC é usada em crianças dos
posta corporal da criança à dor (expressão fa- dois meses aos sete anos e em crianças em
cial, choro, movimentos corporais, alterações no idade escolar e adolescentes incapazes de
comportamento e nos padrões de sono...). São exprimir a sua dor. Avalia a dor aguda re-
muito úteis na avaliação da dor nas crianças que lacionada com cirurgia, trauma, cancro ou
não conseguem descrevê-la verbalmente. outros processos patológicos (Quadro 3).
– Escala comportamental Neonatal Pain Sca- Cada uma das cinco categorias é pontuada
le (NIPS) (recém-nascidos – Lawrence, et al., de 0 a 2, o que resulta numa pontuação total
1993); utilizada em recém-nascidos prema- entre 0 e 10.
turos e de termo, é utilizada com pouca
frequência no nosso serviço.
– Escala comportamental Face, Legs, Activity, Tratamento da dor
DOR Cry and Consolability (FLACC) (dois meses- a intensidade da dor, há que actuar fazendo-o
Uma vez definida a etiologia, a localização e
sete anos – Merkel, et al., 1997); pode ser
30 utilizada dos dois meses até à adolescência sempre de modo a que a integridade física e

