Page 10 Volume 17 - N.2 - 2009
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A. Fernandes: O Estudo da Dor Neonatal: Dos Modelos Animais à Investigação Clínica
As respostas endócrinas de stress (produção de lado esquerdo superior à dos ratos que não haviam
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cortisol e hormona adrenocorticotrófica [ACTH]) sido expostos a dor inflamatória neonatal . Em
também têm sido examinadas, todavia não têm contrapartida, num outro estudo em ratos adultos
sido encontradas diferenças significativas quer no com experiência neonatal repetida de dor verificou-
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período neonatal quer na idade adulta , entre -se uma menor expressão da proteína Fos no cór-
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grupos com e sem experiência neonatal de dor. tex somatossensorial, 30 minutos após o teste da
Estes resultados sugerem que experiências su- placa quente, comparados com ratos sem experi-
cessivas de dor no período neonatal modificam o ência neonatal de dor, indicando uma menor acti-
comportamento social e eventualmente as respos- vação neuronal face à estimulação nociceptiva .
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tas endócrinas face ao stress em idades posterio- Estes estudos reforçam que o período neonatal
res, hipótese essa que tem gerado estudos em é particularmente vulnerável às alterações perma-
lactentes e crianças em idade escolar analisando, nentes da sensibilidade e do processamento da
por exemplo, a produção de cortisol face à novi- dor que podem resultar da exposição repetida à
dade visual aos oito meses de idade em bebés estimulação dolorosa. Deles decorre a necessida-
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que nasceram pré-termo ou os níveis de cortisol de de reduzir o número de procedimentos doloro-
basal de bebés nascidos com idade gestacional sos nas unidades neonatais, ponderando seria-
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muito baixa aos 3, 6, 8 e 18 meses de idade . mente o custo/benefício de algumas práticas como
a monitorização bioquímica de rotina, que requer
picadas sucessivas, sem uma prévia avaliação
alterações estruturais e funcionais das necessidades individuais. Esses estudos ape-
dos neurónios e do tecido nervoso lam também à investigação e ao uso de medidas
As lesões cutâneas causadas por excisão da que reduzam a dor e as suas consequências.
pele, para além da dor inflamatória que provo-
cam, levam à proliferação das terminações ner- o efeito mediador do contacto materno
vosas sensitivas no local da lesão. Um destes O estudo do comportamento materno perante
estudos, realizado no rato e envolvendo técnicas as crias com dor mostra um aumento dos cuida-
de imunocitoquímica, mostrou que a hiperiner- dos maternos quando as crias regressam para
vação dos tecidos persistia por mais de 12 se- junto das mães após uma separação diária (de
manas (no rato) após a cicatrização da ferida e P2 a P14) de 15 minutos, durante a qual são
a densidade da inervação no local podia aumen- sujeitas a uma picada na pata comparados
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tar 300%. À semelhança de outros efeitos, quan- com um grupo que é separado mas não picado.
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do a ferida era induzida em P0 ou P7 os efeitos Este aumento também foi observado num outro
eram maiores do que quando ocorriam mais tar- estudo, ao 6. dia de vida, utilizando um modelo
o
diamente (P14 e P21). Esta hiperinervação era semelhante mas com quatro picadas diárias .
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acompanhada de uma diminuição de 50% na Ao controlar o tempo de cuidados maternos,
sensibilidade mecânica da área afectada. verificou-se um limiar de sensibilidade térmica
A dor inflamatória produzida por formalina, mais baixo no grupo sujeito a picada.
CFA ou cirurgia é utilizada para identificar alte- Estes estudos surgiram em paralelo com interro-
rações estruturais e funcionais no sistema ner- gações sobre o potencial efeito analgésico do con-
voso, imediatas e a longo prazo. Por exemplo, tacto mãe-bebé no contexto clínico. Hoje, é sabido
ratos sujeitos a injecção de CFA na pata traseira que o contacto materno pele-a-pele, conhecido
esquerda em P1, e apresentando inflamação du- como canguru materno, reduz as respostas de dor
rante cinco a sete dias, foram estudados quanto dos recém-nascidos pré-termo durante a realiza-
aos circuitos neuronais . Ao contrário dos ratos ção da picada do calcanhar e da punção venosa .
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não tratados, que apresentavam na substância Recentemente, foi estudado o efeito mediador
gelatinosa do corno dorsal da medula lombar da presença materna sobre os limiares de dor a
uma distribuição dos aferentes primários do ner- estímulos térmicos em animais adultos submetidos
vo ciático idêntica à do rato adulto, os ratos com a dor neonatal repetida . Os ratos adultos (P70)
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inflamação apresentavam um aumento da den- que haviam sido criados pelas mães tinham me-
sidade e uma alteração da distribuição desse nos sensibilidade à estimulação térmica do que os
aferentes em diversos segmentos. Curiosamen- ratos criados artificialmente (p < 0,05); quando
te, quando a injecção de CFA ocorreu apenas injectados com formalina, os ratos criados pelas
em P14 e não em P1, isto é, passado o período mães apresentavam menos sinais inflamatórios
pós-natal, essas alterações não se verificaram, na 2. semana do que os ratos criados artificial-
a
o que sugere, uma vez mais, que o período mente (p < 0,05). Os resultados sugerem, uma
neonatal é uma «janela de vulnerabilidade» vez mais, o efeito protector do contacto materno.
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para os efeitos estruturais da exposição à dor.
No mesmo estudo, as alterações estruturais re-
feridas foram acompanhadas de alterações funcio- Conclusão
nais: quando reinjectados com CFA em ambas as Diversos modelos de dor neonatal são utilizados
patas posteriores, às oito semanas de vida, os ra- nos estudos animais para compreender os me- DOR
tos que haviam tido inflamação neonatal apresen- canismos básicos relacionados com o desenvol-
tavam uma actividade neuronal a nível medular do vimento do SNC, os efeitos a termo da exposição 9
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