Page 11 Volume 17 - N.3 - 2009
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Dor (2009) 17
Introdução vida preenchida e interessante 18,19 . A investigação
tem demonstrado que a afectividade negativa
A fibromialgia (FM) é uma síndrome de dor poderá associar-se com piores níveis de estado
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crónica musculoesquelética difusa, com pontos de saúde e, por outro lado, a afectividade posi-
específicos dolorosos à palpação. As alterações tiva poderá funcionar como um factor de resiliên-
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do sono, fadiga intensa, rigidez matinal, pertur- cia , nomeadamente em indivíduos com FM .
bações cognitivas e emocionais acompanham No entanto, o cruzamento destas duas dimen-
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frequentemente a dor . Os critérios de classifi- sões poderá fornecer uma leitura mais completa
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cação, propostos em 1990 pelo Colégio Ameri- dos fenómenos associadas às mesmas .
cano de Reumatologia, incluem a história de dor No que se refere ao suporte social, refira-se
generalizada, há pelo menos três meses, assim que a percepção, bem como a satisfação com
como a dor à palpação digital em, pelo menos, o mesmo parecem constituir factores que se as-
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11 de 18 pontos dolorosos, bilaterais e simétricos . sociam com o bem-estar físico e psicológico no
Em termos de prevalência estima-se que a FM indivíduo com FM 22-24 . Porém, várias limitações
afecte 3,7% da população portuguesa, sobretudo podem ser mencionadas em relação aos estu-
mulheres, entre os 20 e os 60 anos . Apesar da dos realizados, uma vez que se verificam discre-
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etiologia e cura da FM permanecerem desconhe- pâncias nas definições atribuídas ao conceito de
cidas, tem sido encontrado suporte para uma «suporte social», o que se reflecte nas medidas
possível origem multifactorial, na qual existirá um de avaliação utilizadas, tornando-se difícil pro-
papel desempenhado por variáveis orgânicas ceder à comparação dos referidos estudos.
(músculos, sistema nervoso central e autónomo, Por seu lado, as estratégias de coping com a
perturbações do sono, flutuações hormonais, dis- dor crónica podem ser definidas como os pensa-
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função imunológica, predisposição genética) e mentos e comportamentos adoptados pelo indi-
também variáveis psicossociais, que contribuirão víduo para lidar ou fazer diminuir a dor, assim
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como factores predisponentes, precipitantes e/ou como os seus efeitos, em termos diários , cons-
de manutenção . tituindo uma área de relevo na investigação psi-
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Pelos estudos desenvolvidos até à data, veri- cossocial junto de pacientes com dor crónica 26-28 .
fica-se que várias dimensões do estado de saú- Em relação às estratégias de coping, conceptu-
de dos indivíduos com FM se encontram afecta- alizadas numa dimensão activa/passiva, aquelas
das, de acordo com a avaliação subjectiva feita mais associadas à passividade parecem ser mais
pelos próprios, inclusivamente quando compa- desadaptativas, nomeadamente pelas suas asso-
rados com grupos de controlo de doentes reu- ciações com variáveis tais como a severidade da
máticos 6-10 . Porém, Birtane, et al. não encon- dor, depressão, ansiedade e incapacidade 28,29 ,
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traram diferenças significativas entre um grupo além de parecer registar-se uma prevalência su-
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de doentes com FM e um grupo de doentes com perior destas em pacientes com FM .
AR no que se refere a dimensões da percepção Os objectivos do presente estudo consistiram,
de saúde física. Por outro lado, verifica-se que por um lado, em investigar a prevalência de
diversas variáveis psicossociais surgem asso- variáveis psicossociais em indivíduos com FM,
ciadas ao estado de saúde subjectivo, nomea- comparativamente com um grupo de pacientes
damente perturbações emocionais 10,12,13 , afecti- com AR e um grupo saudável/«normal» (NO) e,
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vidade negativa/positiva , suporte social e por outro lado, determinar, nos mesmos grupos,
estratégias de coping com a dor 6,14 . a associação entre percepção do estado de
Abordando em particular cada uma das vari- saúde e as seguintes variáveis: perturbação
áveis mencionadas, refira-se que apesar dos emocional, afectividade negativa, afectividade
resultados não serem conclusivos em relação à positiva, suporte social percebido (índice numé-
prevalência superior de perturbações emocio- rico e índice de satisfação) e estratégias de co-
nais específicas em pacientes com FM, compa- ping com a dor crónica (transformação da dor,
rativamente com outras amostras clínicas, a ten- distracção, redução no nível de actividade, dis-
dência geral parece apontar nesse sentido 15-17 . tanciamento e preocupação).
Assim sendo, um instrumento de avaliação da
psicopatologia geral poderá revelar-se útil para Método
descrever um mal-estar emocional inespecífico
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que poderá afectar os indivíduos com FM . Participantes e procedimento
Em relação às dimensões da afectividade, es- A amostra foi constituída por indivíduos do
tas podem diferenciar-se em negativa e positiva. sexo feminino, entre os 18 e os 65 anos, alfabe-
A afectividade negativa reflecte uma vertente tizados, que preenchessem os critérios de clas-
estável e generalizada que caracteriza indivídu- sificação da FM estabelecidos pelo Colégio
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os que têm mais probabilidade de experienciar Americano de Reumatologia ou os critérios de
níveis significativos de stress e insatisfação, classificação da AR . A escolha de doentes
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mesmo na ausência de situações de stress ex- com AR para grupo de controlo prendeu-se
DOR plícitas. Por sua vez, a afectividade positiva re- com o facto desta patologia, tal como a FM,
se caracterizar por dor crónica, incapacidade
flecte níveis gerais de energia e entusiasmo,
10 sendo que os indivíduos percepcionam uma funcional, trazendo implicações em termos físicos,
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