Page 39 Volume 17 - N.3 - 2009
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Dor (2009) 17
alteração cognitiva ligeira no MMS, embora nos falte
100%
10% uma avaliação prévia ao tratamento. Uma amostra
25% >45
80% 25% 40-45 maior de doentes seria importante para verificar a se-
5% gurança dos opióides em dor crónica não-oncológica.
60% <40 O alívio médio da dor com opióides é cerca de 30%
em doentes com dor crónica não-oncológica, como
40% 12
65% 70% revelou a revisão sistemática de Kalso, et al. . Nós
20% verificamos uma redução média de 50%, utilizando
sobretudo opióides transdérmicos em doentes com
0% dor osteoarticular.
Estado Estado Como já referido, o nosso estudo não tem um
físico mental número suficiente de doentes para ter relevância
estatística. Mas é um ponto de partida para o estudo
Figura 4. Avaliação da qualidade de vida dos doentes do tratamento da dor crónica não-oncológica. Apesar
(SF-36v2). de não evidenciar sinais de adição e de dependência,
seria importante proceder à realização deste estudo
com um maior número de doentes, a mais longo prazo
O uso de doses baixas a moderadas de opióides e com grupo de controlo.
mostram uma grande melhoria da qualidade de vida,
enquanto doses elevadas de opióides podem ter efei-
tos adversos com impacto negativo na qualidade de Conclusão
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vida . Na dor neuropática e musculoesquelética, a Ainda existe uma grande falta de estudos que
prescrição de opióides a curto prazo mostrou ser avaliam o tratamento com opióides a longo prazo em
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eficaz em doentes devidamente seleccionados . doentes com dor crónica não-oncológica. Mas já
Embora ainda existe uma relutância na utilização de existe evidência de que os opióides são efectivos na
opióides em dor crónica não-oncológica, os estudos diminuição da intensidade da dor.
evidenciam que o tratamento contínuo com opióides tem Ainda não se sabe se alterações cognitivas, depen-
inúmeras vantagens. Melhoria do controlo da dor, sobre- dência e adição são um factor implicativo no uso de
tudo durante a noite, com melhoria do sono e com opióides em dor crónica não-oncológica a longo prazo.
menores implicações na qualidade de vida diária . Sendo a dor crónica não-oncológica um problema
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Apesar de no BPI a média dos valores ser inferior a social e que implica grande sofrimento, é necessário
5, significando uma baixa interferência da dor na vida investirmos mais em estudos de maior duração, com
diária, o SF-36v2 evidenciou que a maioria dos nossos maior número de doentes e com um grupo de controlo.
doentes tem uma má qualidade de vida, mesmo estando Por último deve-se ter sempre em conta que a abor-
medicados com opióides. Seria importante termos uma dagem da dor crónica tem de ser sempre multidisci-
avaliação prévia ao tratamento com opióides para verifi- plinar.
carmos a relevância destes na vida diária dos doentes.
A abordagem da dor crónica não-oncológica é mais Bibliografia
de que um problema terapêutico. É um problema social 1. Breivik H, Collett B, Ventafridda V, Cohen R, Gallacher D. Survey of
e que necessita de uma abordagem multidisciplinar. chronic pain in Europe: prevalence, impact on daily life, and treat-
Ainda não existe forma específica de detectar doen- ment. Eur J Pain. 2006;10:287-333.
tes com potencial risco para desenvolvimento de adição 2. Rosenblum A, Marsch LA, Joseph H, Portenoy RK. Opioids and the
treatment of chronic pain: controversies, current status, and future
ou dependência. Pensa-se que a adição seja uma con- directions. Exp Clin Psychopharmacol. 2008;16:405-16.
dição crónica associada a uma disfunção neurobiológi- 3. Kalso E. Opioids for persistent non-cancer pain. BMJ. 2005;330:156-7.
ca com tendência para persistir ao longo da vida do 4. Kalso E, Allan L, Dellemijn PL, et al. Recommendations for using
opioids in chronic non-cancer pain. Eur J Pain. 2003;7:381-6.
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doente . Doentes do sexo masculino, não casados, de 5. Recommendations for the appropriate use of opioids for persistent
escalões sociais mais desfavorecidos e a fazer opióides non – cancer pain. A consensus statement prepared on behalf of
há mais tempo são mais susceptíveis a desenvolver um the Pain Society, the Royal College of Anaesthetists, the Royal Col-
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problema de adição . Deve-se dar particular atenção a lege of General Practitioners and the the Royal College of Psychia-
trists. Março de 2004.
doentes com história de adição no passado. 6. Nicholson B. Benefits of extended-release opioid analgesic formula-
Em períodos a curto prazo, o uso de fentanilo trans- tions in the treatment of chronic pain. Pain Pract. 2009;9:71-81.
dérmico não revelou diferenças na condução ou do 7. Nicholson B, Passik SD. Management of chronic noncancer pain in
the primary care setting. South Med J. 2007;100:1028-36.
estado cognitivo, mas comprovou-se uma melhoria da 8. Dillie KS, Fleming MF, Mundt MP, French MT. Quality of life associ-
atenção e da memória visual. A maioria dos estudos ated with daily opioid therapy in a primary care chronic pain sample.
J Am Board Fam Med. 2008;21:108-17.
não encontra diferenças significativas entre doente a 9. Hojsted J, Sjogren P. Addiction to opioids in chronic pain patients:
fazer opióides de longa duração em comparação com a literature review. Eur J Pain. 2007;11:490-518.
doentes saudáveis, em relação à cognição, atenção 10. Wasan AD, Butler SF, Budman SH, et al. Does report of craving
11
e reactividade psicomotora . opioid medication predict aberrant drug behavior among chronic
pain patients? Clin J Pain. 2009;25:193-8.
Apesar de apenas em um dos nossos doentes te- 11. Menefee LA, Frank ED, Crerand C, et al. The effects of transdermal
rem sido detectados possíveis problemas de adição/ fentanyl on driving, cognitive performance, and balance in patients
DOR dependência (ABC), é importante estarmos atentos a 12. Kalso E, Edwards JE, Moore RA, McQuay HJ. Opioids in chronic
with chronic nonmalignant pain conditions. Pain Med. 2004; 5:42-9.
este efeito adverso. Também é relevante detectarmos
38 alterações cognitivas. Somente um doente tinha uma non-cancer pain: systematic review of efficacy and safety. Pain.
2004;112:372-80.
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