Page 34 Volume 17 - N.3 - 2009
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T. Taleço, et al.: Antagonistas do Receptor N-Metil-D-Aspartato na Prevenção e Tratamento da Dor Aguda Pós-Operatória
prolongar significativamente o intervalo de tempo
até primeiro pedido de analgesia de resgate, não Quadro 1. Sumário das evidências existentes para a
utilização dos antagonistas NMDAr na dor aguda
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reduziu o consumo de analgésicos nas 24 horas . pós-operatória
Segundo Bilir, et al., a administração de sulfato
de magnésio por via epidural (bolus de 50 mg Nível I
seguido de perfusão a 100 mg/dia), em doentes – Evidência obtida a partir de revisão sistemática ou
metanálise de todos os estudos randomizados
propostos para cirurgia da anca sob analgesia controlados relevantes
com fentanilo em patient controlled epidural anal- • A utilização perioperatória de cetamina, em conjunto
gesia (PCEA), resultou em redução do consumo com PCA de morfina, tem efeito poupador de
opióide e reduz a incidência de náuseas e vómitos.
do opióide e com incidência não aumentada dos • No geral, a perfusão perioperatória de cetamina em
efeitos secundários associados aos opióides . baixas doses tem efeito poupador de opióide mas
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S. Farouk refere o papel preventivo e preemptivo não produz uma redução, clinicamente significativa,
associado à administração pré-incisional de sul- da dor ou dos efeitos adversos associados à
fato de magnésio por via epidural, em mulheres utilização de opióides.
submetidas a histerectomia abdominal . Na re- • A cetamina e o dextrometorfano têm efeitos
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analgésicos preventivos, mas não preemptivos.
alização de anestesia regional endovenosa, a • A conjugação de cetamina e morfina em PCA não
associação com a lidocaína resultou em analge- melhora a analgesia, nem reduz a incidência dos
sia intra e pós-operatória mais eficaz, bem como efeitos secundários associados à utilização de
opióides.
numa melhor tolerância na utilização do garro- • A administração por via epidural de cetamina sem
te 97,98 . A administração intra-articular conduziu a conservantes, associada a analgesia epidural
uma analgesia pós-operatória mais eficaz quando baseada em opióides, melhora o alívio da dor, sem
administrada isoladamente ou em combinação reduzir os efeitos secundários.
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com bupivacaína 100 e quando a esta mistura se • O magnésio não reduz a dor pós-operatória ou o
adicionou morfina 101 . consumo de opióides e não possui efeito analgésico
preventivo.
Nível II
Amantadina – Evidência obtida de pelo menos um estudo
randomizado controlado bem elaborado
A amantadina ou 1-aminoadamantano foi apro- • A cetamina pode melhorar a analgesia em doentes
vada pela FDA em 1976 como antiviral (Influenza com dor aguda severa refractária à administração de
tipo A), sendo também utilizada no tratamento opióides, embora a evidência esteja em conflito.
sintomático da doença de Parkinson. A sua ac- • A cetamina reduz a dor pós-operatória em doentes
ção como antagonista do NMDAr, a possibilidade tolerantes aos opióides.
de ser administrada por via endovenosa (com se- Fonte: Acute Pain Management: Scientific Evidence.3. ed.
a
gurança e efeitos secundários mínimos) e a eficácia Melbourne: ANZCA & FPM; 2010.
demonstrada no tratamento da dor neuropática, le-
varam Gottschalk, et al. a estudarem a sua eficácia
na analgesia pós-operatória, em doentes subme-
tidas a histerectomia abdominal 102 . A administra- Conclusão
ção de 200 mg de amantadina, por via endove- A dor pós-operatória é um fenómeno complexo
nosa, 30 minutos antes da indução anestésica, em que os NMDAr desempenham um papel im-
não se revelou eficaz na redução da dor e no portante. A sua activação desencadeia uma cas-
consumo de opióides no pós-operatório 102 . Em cata bioquímica que está na base da plasticidade
estudo mais recente, Snijdelaar, et al. utilizaram a sináptica e na facilitação do processamento da
amantadina por via oral (200 mg em duas tomas dor no SNC, explicando a hiperexcitabilidade
pré-operatórias e 100 mg em três tomas pós- neuronal e os fenómenos de sensibilização cen-
operatórias) durante o perioperatório de prosta- tral. Mas não são apenas os estímulos nocicepti-
tectomia radical como adjuvante analgésico de vos que se associam à sua activação, podendo
morfina em PCA 103 . Estes autores verificaram também resultar da utilização perioperatória de
uma diminuição do consumo pós-operatório de analgésicos fundamentais como os opióides. Es-
morfina, embora sem redução dos efeitos secun- tes factos têm motivado a realização de inúmeros
dários associados 103 . Este facto poderá resultar estudos sobre o papel dos antagonistas não-
não só da acção sobre o NMDAr mas também da competitivos do NMDAr na abordagem da dor
inibição da 3-glucoronidação da morfina e da aguda pós-operatória. A cetamina, pelas evidên-
inibição competitiva pela amantadina dada sua cias demonstradas, merece um papel de desta-
excreção tubular, resultando em concentrações que. Mais do que um analgésico per se, quando
plasmáticas mais elevadas 103 . Constataram, tam- utilizada em doses subanestésicas, destaca-se
bém, existir uma diminuição da sensibilidade pelo seu papel na analgesia preventiva, com efei-
peri-incisional às 48 horas de pós-operatório to anti-hiperalgesia, antialodinia e antitolerância,
(avaliada por algometria de pressão) e uma me- permitindo também diminuir o consumo de opiói-
nor incidência de espasmos vesicais, o que é des. O dextrometorfano é eficaz na analgesia
concordante com a evidência obtida sobre a ac- preventiva, principalmente quando administrado DOR
ção dos antagonistas NMDRr na dor desencade- por via endovenosa e possui potencial para ser
ada na bexiga, em estudos com animais 7,103 . um adjuvante seguro da analgesia pós-operatória 33
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