Page 7 Volume 18 - N.2 - 2010
P. 7



Dor (2010) 18
crónica, a sua avaliação psicológica tem vindo destaca-se o Inventário Resumido da Dor, que
a constituir-se como uma actividade de rotina . pensamos que deveria constituir instrumento de
20
De facto, ao terem em conta os factores psico- trabalho habitual em consultas de avaliação da
lógicos que contribuem para o desenvolvimento dor e respectivas consequências psicossociais
ou manutenção da dor, os profissionais de saú- e emocionais. Parafraseando uma expressão co-
de passam a lidar de modo menos cego com as mum, «a sua aplicação à abordagem do doente
variáveis implicadas na multifactorialidade ine- com dor deveria equivaler-se à da utilização do
rente ao processo de dor crónica. estetoscópio quando o que se pretende é escu-
Uma das perspectivas de compreensão tar o coração».
psicológica que mais se tem evidenciado no
domínio da dor é a cognitivo-comportamenta- Abordagem multidimensional da dor crónica
lista, que realça a importância de um largo De acordo com uma visão multidimensional da
conjunto de elementos com impacto poten- dor crónica, na sua avaliação e tratamento de-
cialmente negativo, perspectivando a sua re- vem ser tidos em conta os aspectos sensoriais,
solução através de estratégias psicossociais psicológicos, emocionais e sociais que contri-
21
de intervenção . buem para o sofrimento da pessoa. A dor cróni-
Um outro meio importante de compreensão e ca é percepcionada pelo doente como uma
de intervenção sobre a pessoa com dor, é o da ameaça à sua integridade, destruidora de rela-
sua contextualização no meio familiar, em que cionamento social e perturbadora da dinâmica
processos de adaptação à presença de alguém familiar. Na relação com o médico ou outros pro-
com dor crónica poderão originar disfunção. A fissionais de saúde, o doente com dor crónica
intervenção sobre o sistema contribuirá para a apresenta-se frustrado, duvidoso e com perda
interrupção de círculos viciosos de manutenção de confiança. Pode transformar-se num «temido
do sintoma, com consequente melhoria do indi- doente difícil». Inúmeras vezes, os profissionais
víduo. são contagiados por esse tipo de sentimentos,
Dos instrumentos de avaliação psicossocial originando-se deterioração da relação terapêu-
aplicáveis aos doentes com dor crónica, realça-se, tica, que passa a ser olhada pelos respectivos
ainda, a entrevista clínica dirigida à compreensão protagonistas como um acto de desesperante e
do doente e das respectivas circunstâncias de ineficaz rotina.
vida. Para a entrevista, destacam-se os propósi- Na opinião de diversos autores 23,24 , a dor
tos de identificar áreas potencialmente proble- constitui um «desafio» à capacidade terapêuti-
máticas, de procurar alvos e estratégias de in- ca do médico, com potencialidades para lhe
tervenção e de motivar o doente para aderir ao desencadear profundas amarguras profissio-
processo. nais. A fim de evitar o círculo vicioso da frus-
No sentido de facilitar a colheita de informa- tração mútua, com médicos e doentes em
ção relevante, têm sido criados diversos ques- «desmoralização terapêutica», há que reequa-
tionários, alguns dos quais foram recentemente cionar o modo de atendimento e de diálogo que
traduzidos, culturalmente adaptados e valida- tem sido possível estabelecer com os doentes
dos para a população portuguesa, por um gru- com dor crónica no âmbito das consultas habi-
po da Faculdade de Medicina da Universidade tuais de Medicina Geral e Familiar (MGF). Evi-
do Porto. São os seguintes e foram publicados denciam-se contradições entre as necessida-
na revista Dor, órgão de expressão oficial da des gerais de atendimento e as exigências de
Associação Portuguesa para o Estudo da Dor uma abordagem mais específica da dor cróni-
22
(APED) : ca, que se nos afigura que só poderão ser ultra-
– Inventário Resumido da Dor (Brief Pain In- passadas através de um novo paradigma de
ventory – short form). atendimento.
– Inventário Multidimensional de Dor de West
Haven-Yale (West Haven-Yale Multidimen-
sional Pain Inventory). Mudar o paradigma de atendimento
– Índice de Incapacidade Relacionada com a da dor crónica em medicina Geral e Familiar?
Dor (Pain Disability Index). Em estudo oriundo dos Estados Unidos da
25
– Inventário das Formas de Lidar com a Dor América (EUA) e publicado recentemente , evi-
Crónica (Chronic Pain Coping Inventory). denciaram-se diferenças apreciáveis de resulta-
– Inventário de Convicções e Percepções Re- dos em doentes com dor crónica tratados com
lacionadas com a Dor (Pain Beliefs and Per- ou sem o recurso a intervenção direccionada a
ceptions Inventory). uma abordagem multidimensional, nomeada-
– Pain Catastrophizing Scale (PCS). mente com intervenção de psicólogos e integra-
– Questionário Específico para Rastreio de ção num programa específico de acompanha-
Dor Neuropática (Neuropathic Pain Questio- mento. Assim, ao fim de 12 meses, nos doentes
naire – DN4). do grupo denominado de «cuidados colaborati-
DOR to longo e de reconhecida fiabilidade, como vos», registou-se uma melhoria significativamen-
Como questionário bastante prático, não mui-
te maior nos parâmetros relacionados com a
6 salientam os autores da validação portuguesa, incapacidade, a intensidade da dor, a interferência
   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11   12