Page 16 Volume 18 - N.4 - 2010
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Â. Gaspar, M. Morais de Almeida: Hipersensibilidade aos Anti-Inflamatórios Não-Esteróides
provocação deve ser efectuada com o objec- habitualmente bem tolerados como alternativa
tivo de confirmar ou excluir hipersensibilidade, nos doentes com hipersensibilidade a AAS/
ou para encontrar fármacos alternativos seguros AINE, porque permitem que a enzima COX-1
e bem tolerados. Na ausência de contra-indica- mantenha a sua actividade, pelo menos parcial-
ção, deve proceder-se à introdução controlada mente, verificando-se que a sua tolerância está
do fármaco, em doses crescentes até atingir a relacionada com a selectividade para a COX-2.
dose terapêutica. A reacção adversa ocorre usu- A associação de terapêutica com antagonista
almente nas primeiras quatro horas após a ad- dos leucotrienos poderá, em doentes atópicos,
ministração do fármaco (resposta imediata). As facilitar a aquisição de tolerância a estes fárma-
contra-indicações para a realização da prova de cos, conforme foi demonstrado por Morais-Al-
provocação oral são, história de reacção anafi- meida, et al., em duas doentes asmáticas com
láctica grave, doença médica e/ou cirúrgica gra- hipersensibilidade a múltiplos AINE, incluindo
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ve associada, gravidez, reacções imunocitotóxi- paracetamol e meloxicam .
cas graves, vasculite sistémica e reacções de
toxidermia grave. Paracetamol
A prova de provocação oral, pelo risco que O paracetamol, medicamento frequentemente
comporta, deve ser sempre efectuada em meio utilizado na prática clínica e raramente responsá-
hospitalar, sob vigilância cardiorrespiratória e vel por reacções adversas, é considerado como
com controlo espirométrico. Está reservada para uma alternativa terapêutica nos casos de hiper-
os casos duvidosos em que é necessário a con- sensibilidade a AAS/AINE. No entanto, em alguns
firmação do diagnóstico e na investigação de indivíduos com hipersensibilidade ao AAS, verifi-
fármacos alternativos. Considera-se a prova po- ca-se reactividade cruzada do paracetamol com
sitiva quando ocorre uma queda do FEV de AAS/AINE, quando utilizado em doses elevadas
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pelo menos 20% ou o aparecimento de sintoma- (fenómeno dose-dependente) . Uma baixa fre-
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tologia brônquica e/ou nasal e/ou cutânea . quência e até ausência de reactividade cruzada
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Um método alternativo para o diagnóstico de (0 a 6%) tem sido descrita com doses de 650 mg
hipersensibilidade ao AAS, associada a mani- ou menores . Resultados díspares, com percen-
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festações respiratórias, é a prova de provoca- tagens de reactividade de 0 a 29%, foram descri-
ção brônquica com acetilsalicilato de lisina ina- tos com doses de 1.000 mg 31,32 . Settipane, et al. ,
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lado. Esta prova é igualmente específica e utilizando doses de 1.000 a 1.500 mg de parace-
menos morosa que a prova de provocação oral, tamol encontraram uma frequência de 34% de
mas demonstra uma menor sensibilidade . Com- reactividade cruzada. Os autores sugerem uma
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parativamente com a provocação oral, associa-se relação entre o aparecimento de sintomas com
mais raramente a reacções sistémicas. doses baixas de AAS e a probabilidade de re-
A prova de provocação nasal com acetilsalici- actividade cruzada com o paracetamol; os do-
lato de lisina tem sido utilizada no diagnóstico entes sensíveis a doses baixas do AAS apresen-
da hipersensibilidade ao AAS em doentes com tariam maior sensibilidade à fraca inibição da
sintomatologia nasal ou em doentes com sinto- COX associada ao paracetamol, devendo evitar
matologia brônquica em que a prova oral e brôn- doses elevadas do mesmo .
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quica estejam contra-indicadas pela gravidade O paracetamol em doses terapêuticas inibe
da asma (FEV basal inferior a 70% do previsto). preferencialmente a COX-3 e é um fraco inibidor
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No entanto, o valor preditivo negativo da prova da COX-1 e da COX-2 ; apenas em altas doses
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de provocação nasal é inferior ao dos outros vai inibir a COX-1. Nos doentes com hipersensi-
testes, pelo que quando negativa deve ser se- bilidade ao AAS recomenda-se, quando indica-
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guida por uma provocação oral ou brônquica . do, a prescrição de paracetamol em doses não
superiores a 1.000 mg.
Alternativas terapêuticas
Os AINE que são fracos inibidores da COX, Inibidores preferenciais da COX-2
como o paracetamol e os salicilatos não-acetila-
dos, tais como o salicilato de sódio, a salicilami- Nimesulide
da e o trissalicilato de magnésio, são habitual- O nimesulide (4-nitro-2-fenoximetano-sulfonanili-
mente bem tolerados 3,4 e constituem alternativas da) é um AINE que pertencente ao grupo dos de-
terapêuticas conhecidas há vários anos. No en- rivados sulfanilamídicos. Possui propriedades
tanto, a ocorrência de reacções adversas com anti-inflamatórias, antipiréticas e analgésicas mar-
o paracetamol 27,28 , embora pouco frequentes, e cadas, estando propostos vários mecanismos
a indisponibilidade dos salicilatos no mercado para a sua acção 2,28 : inibição preferencial da
nacional, excepto para uso tópico, salientam a COX-2; inibição do metabolismo oxidativo dos
importância da procura de outras alternativas neutrófilos; captação de radicais livres de oxigé-
terapêuticas. nio; prevenção da inactivação da α1 antitripsina;
Os inibidores selectivos (coxibes) e preferen- inibição da síntese de factor activador de pla- DOR
ciais (meloxicam e nimesulide) da enzima COX-2 quetas (PAF) e leucotrienos; inibição da liberta-
(inibidores COX-2) são um subgrupo de fármacos ção de histamina dos mastócitos e basófilos. 15
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