Page 7 Volume 20 - N2 - 2012
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Dor (2012) 20
Dor (2012) 20
TRPV1 e Dor Visceral
© Permanyer Portugal 2012


Ana Charrua , A. Avelino e F. Cruz 2,4
1-4
1,2





Resumo
Mesmo antes da sequenciação do receptor vanilóide tipo 1 (TRPV1), a dessensibilização dos aferentes
primários por vanilóides tinha já sido usada para reverter os sintomas associados a patologias urinárias.
A identificação do receptor e a sua caracterização farmacológica, tanto in vitro como in vivo, fizeram do TRPV1
um alvo terapêutico para a reversão desses sintomas. Assim, o desenvolvimento de antagonistas do TRPV1 que
actuem de forma efectiva e específica, e o seu possível uso clínico, torna estes fármacos ferramentas
promissoras para o tratamento dessas patologias urinárias.
Palavras-chave: TRPV1. Disfunções urinárias. Antagonista.



Abstract
Even before the discovery of TRPV1, neuronal desensitization induced by vanilloids had already been used
to overcome symptoms associated with urinary bladder dysfunction. The receptor identification and its phar-
macological characterization, both in vitro and in vivo, prompted TRPV1 as a therapeutic target to overcome
such symptoms. Therefore, the development of effective and specific TRPV1 antagonists, and their possible
use by clinicians, turns those promising new tools into treatment of such pathologies. (Dor. 2012;20(2):6-11)
Corresponding author: Ana Charrua, anacharr@gmail.com

Key words: TRPV1. Urinary bladder dysfunction. Antagonist.




O que é o TRPV1? noutros locais do sistema nervoso já foi consta-
6,7
O TRPV1 (do inglês transient receptor potential tada. Nomeadamente, nos gânglios trigémios
8
9-14
cation channel, subfamily V, member 1), é uma e no nervo vagal , entre outras estruturas . Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação.
proteína transmembranar que forma um canal A expressão do receptor fora do sistema ner-
catiónico, com preferência pelo catião cálcio . voso tem gerado alguma controvérsia. Não só
1
Este canal foi assim designado por ser sensível pelo facto de serem apontadas deficiências aos
a moléculas vanilóides, como é o caso da cap- métodos usados para a sua detecção, mas tam-
saicina e da resiniferatoxina. Hoje sabe-se que bém por não se compreender qual será a função
o TRPV1 é também activado por calor nóxico, deste canal nessas estruturas. Exemplo disso é a
por pH baixo, por endovanilóides e outras molé- possível expressão do TRPV1 pelas células mus-
15-19
culas pró-inflamatórias lipídicas . Curiosamen- culares lisas . No entanto, a expressão do
2-4
te, quando em situações de acidose, o canal TRPV1 em mastócitos e em queratinócitos é ago-
abre à temperatura corporal . ra amplamente aceite, sabendo-se que a activa-
2,5
Apesar de ter sido descrito, em primeiro lugar, ção do canal nestas células promove a libertação
20-24
como estando presente nas terminações perifé- de moléculas pró-inflamatórias .
ricas e centrais, bem como no corpo celular de um
1
subgrupo de aferentes primários , a sua presença O TRPV1 no tracto urinário inferior
A presença do receptor vanilóide no tracto
urinário inferior, mais propriamente na bexiga, foi
primeiro descrita em roedores. Avelino, et al. de-
1 Departamento de Biologia Experimental
Faculdade de Medicina da Universidade do Porto monstraram que o receptor vanilóide é expresso
2 Grupo Translational Neuro-Urology por aferentes primários cujas terminações se en-
25
Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) contram nas camadas mucosa e muscular . Na
3 Faculdade de Ciências de Nutrição e Alimentação camada muscular, os nervos que expressam o
Universidade do Porto receptor apresentam varicosidades e dispõem-se
Serviço de Urologia
4
DOR Hospital de São João em plexos densos por entre a camada muscu-
25,26
lar
. Na camada mucosa, as fibras nervosas
6 Porto podem ser encontradas suburotelialmente,
E-mail: anacharr@gmail.com
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